Meus sinceros agradecimentos aos quatro cavaleiros do apocalipse: Dawkins, Dennett, Hitchens e Harris

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Sim, eu sei, por essa vocês não esperavam. Este meu post fala de um “agradecimento” que possuo em relação aos chamados “quatro cavaleiros do apocalipse”: Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett, e o falecido Christopher Hitchens.

A idéia para esse texto veio depois que recebi um email há mais de 1 mês. Vejam abaixo seu conteúdo:

Luciano, sou ateu e leio seu blog desde 2010, sempre vi como uma fonte interessante de refutação aos neo-ateus e eu nunca concordei com eles. Sempre achei que podiam ser um desserviço ao ateísmo por sua arrogância, presunção e falta de compaixão. Ao ver seus posts, sentia que você estava naturalmente irritado e isso tudo era legítimo. Em seus posts mais novos, sinto uma pessoa diferente, ácida, ativista mas já demovido de compaixão em relação aos adversários. Quase sempre vejo você partir para a ridicularização e em participações na CDA os cristãos te aguardam para que esmague os adversários, e seus debates se transformam em um duelo polarizado, em que há um vencedor e um perdedor. Reconheço que você vence fácil os debates, pois conhece seus adversários e tem uma postura que lembra os autores neo-ateus. Ao ver você debatendo, parece que estou vendo um Richard Dawkins se este fosse conservador cristão. Por isso, uma reflexão, não estaria você tornando-se iguais aos monstros que combate? Lembrando Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

Por fim, ele mandou a música abaixo (de Barber), em um link, para uma reflexão:

 

Agora, pessoal, imaginem o texto dele, junto com os dizeres de Nietzsche e essa musiquinha de fundo? Pronto, Luciano Ayan virou um monstro. Até satirizando o forista do Orkut Fabrs, com quem tenho debatido: “está identificado o conservador vencedor de debates, sarcástico, cruel pega pega”…

Curiosamente, há um pouco de verdade no email que recebi, mas provavelmente não é aquilo que o autor do email esperava.

Vamos aos fatos.

Foi a partir do ataque frontal percebido, assim como a indignação vista ao observar vários religiosos serem humilhados no Orkut A PARTIR DE discursos de ridicularização e difamação criados por Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett, que eu resolvi agir.

Sem essa sensação de incômodo, eu não teria saído de minha “zona de conforto”, em um outro termo que nos leva a Nietzsche.

Eu não sei se Dawkins e seus amigos queriam ver conservadores tirando a “bunda da cadeira” e partissem para o revide, dentro do contexto da guerra ideológica. Entendo isso como um efeito colateral do neo ateísmo.

Mas existem outras influências, estas mais “diretas”. Até agora eu falei da importância dos neo ateus quanto a “motivação” para agir. Mas seriam eles de alguma forma fonte de “inspiração” para o que escrevo? A resposta também é positiva.

Obviamente, não me inspiro na totalidade do que eles escrevem, pois não há um autor sequer que eu “siga” 100%. Em relação a Olavo de Carvalho, gosto de vários argumentos, mas não concordo com as opiniões dele sobre alguns assuntos. Quanto a John Gray, gosto da idéia base do que ele escreve, mas rejeito sua crença no estado inchado, e assim sucessivamente. Com os autores neo ateus, a coisa não é diferente.

Em relação à discordâncias, obviamente não gosto da linguagem panfletária e nem do uso de estratagemas desonestos, como mentir sobre o oponente. Isso explica-se pelo fato de que sou conservador, e por isso se eu tentasse mentir sobre o oponente já me daria mal à partida.

Como exemplo, veja o post “Fórum Social foi um fracasso monumental: de 40.000 esperados, apenas 7.000 almas apareceram“. Em certo momento, escrevi: “o próprio Fidel Castro reconhece hoje que o marxismo é uma ilusão”. Fui questionado pelos meus leitores, conservadores, e eu reconheci o erro. No que um dos leitores, Jules, afirmou: “Se ele disse outra coisa, faça a correção no corpo do texto do post.” Fui lá e corrigi.

Isso mostra que se eu me inspiro em algo dos autores neo ateístas, com certeza não é na prática da mentira, pois se assim o fizesse eu já seria desmoralizado pelos meus próprios leitores conservadores. Até quando eu cometo erros tomo puxões de orelha (e sou grato por isso). John Gray afirmou que a “busca da verdade” é uma herança cristã. Ele está certo.

Se já ficou claro que eu e os autores neo ateus estamos em caminhos opostos em relação ao uso da mentira (para eles, é uma ferramenta, que não está disponível para mim), vamos aos pontos de convergência, com as devidas “adaptações”.

Todos os autores neo ateus se posicionam contra a religião tradicional, ao passo que eu não tenho tanto foco na religião tradicional, mas na religião política. Aliás, o texto “Religião política: o que isso realmente significa” teve inspiração direta do texto de Daniel Dennett em “Quebrando o Encanto” (o texto dele chama-se “Uma Definição que Funciona para a Religião”). Dennett deu uma definição de religião tradicional, e eu da religião política. A idéia de definir o escopo daquilo que se está investigando é sempre boa, e nesse ponto achei legal a iniciativa de Dennett.

Richard Dawkins é ferrenhamente contra a doutrinação escolar em religião. Não discordo dele, mas acabei, em meus estudos, descobrindo como funciona a estratégia gramsciana. A partir disso tenho argumentos para ser mais ainda contra a doutrinação esquerdista nas escolas, e isso inclui a doutrinação humanista e neo ateísta. Aqui novamente, uma semelhança em relação à atitude, apenas tendo o canhão direcionado para outro lado.

Sam Harris defende a ridicularização dos religiosos, e, da mesma forma, eu defendo abertamente a ridicularização dos religiosos políticos. Harris também critica a religião moderada, pois segundo ele a forma moderada de religião dá sustentação às formas mais radicais. Inspirado no argumento de Harris, adapto-o para a identificação de que o esquerdismo moderado deve também ser objeto de crítica e ataque, pois ele dá sustentação às formas mais extremistas de esquerdismo. Um exemplo é o radicalíssimo movimento Occupy Wall Street, contando com a conivência de esquerdistas moderados.

Como se vê, há vários itens em minha argumentação que possuem em um grau maior ou menor inspiração nos quatro cavaleiros do apocalipse, com as devidas ressalvas já feitas. E esses são apenas alguns exemplos.

E qual seria a “monstruosidade” nisso? Não vejo, somente se for o fato de que, ao investigar a religião política, agora tenho argumentos que me permitem um ataque efetivo e direto até aos próprios autores neo ateus, pois  agora estes estão qualificados como religião política, assim como toda a esquerda.

E há um gostinho especial em fazer isso com informações trazidas por próprios autores da esquerda. Neste caso, seria uma criatura voltando-se contra seu criador.

Mas ainda seria injusto dar a eles responsabilidade total pelo meu posicionamento político. Na verdade, eles possuem uma “pequena” parcela de influência, pois também tenho outras fontes, como Russel Kirk, Ludwig von Mises, Arthur Schopenhauer e vários outros.

Recentemente um neo ateu disse em um fórum: “O Luciano degladiou-se tanto com neo ateus que hoje tornou-se um”. Decerto que sou um agnóstico, e em relação a existência de Deus posso ser qualificado como pendente entre deísmo, teísmo fraco e ateísmo fraco (tecnicamente, essa não é uma questão que ocupe minha mente tanto ultimamente, por isso tenho as opções em aberto). Mas isso não teve influência do discurso neo ateísta, mas sim do estudo da Dinâmica Social. Aliás, foi a partir da Dinâmica Social que virei um darwinista retinto também.

Por isso, não é justo alguém se referir a mim como “cria” do neo ateísmo, mas sim alguém que, dentre outras fontes, conseguiu ABSORVER influências de autores neo ateus, assim como posso absorver influências de todas as fontes que tiver disponíveis. Acho que isso se torna fácil por um paradigma neo agnóstico que sempre segui, o qual me permite ler autores contraditórios para estimular a mente.

Por isso, se um dos quatro cavaleiros do apocalipse (na verdade, hoje só sobram três, pois um deles virou cinzas) aparecesse na minha frente dizendo: “É isso aí Luciano, aprendeu comigo”, eu retrucaria com: “É verdade, aprendi isso, agora fique de quatro que vou chutar seus fundilhos… usando aquilo que aprendi com você!”.

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11 COMMENTS

  1. É como diz o Jack Bauer quando está sendo julgado pelo Senado pelas suas posições ‘pé na porta soco na cara pede pra sair’ ao lidar com a bandidage:

    Para um soldado em combate, a diferença entre sucesso e fracasso é a sua habilidade de se adaptar ao seu inimigo. As pessoas com quem lido não se importam com as suas regras, tudo com que elas se importam é com o resultado. Meu trabalho é impedir que consigam seu objetivo, simplesmente me adaptei.

  2. Acompanho seu blog há tempos , esse post foi espetacular ,mereceu um comentário
    só sei que não sou eu que escrevo esse blog quando estou sonambulando porque aqui começou quando eu era ateu
    abraçs

  3. As coisas que eu mais agradeço ao blog do Luciano são a de começar a buscar fundamentos e argumentos racionais para defender tudo o que eu creio (apesar do Luciano não ter essa preocupação com a defesa de crenças, mas foi uma das coisas que eu aprendi nesse blog, principalmente com aqueles artigos sobre a idéia de que cada crença tem o seu preço), principalmente no que tange a fé Católica a qual eu confesso (pois foi por meio desse blog que eu conheci as obras de outros blogueiros católicos, o Padre Paulo Ricardo, o filosofo Olavo de Carvalho e a Montfort), a de saber que o esquerdismo é realmente um mal pestilento que precisa ser barrado quanto aos seus avanços e, uma coisa boba mas que fez uma baita diferença na minha maneira de pensar, foi a de saber (ou de começar a saber) sobre o que é realmente a ciência, seus âmbitos, objetos de estudo e sobre as várias formas de conhecimento não-científicas (na época que eu conheci esse blog, eu estava tendo a disciplina de Filosofia e Metodologia da Ciência na minha faculdade de Ciência e Tecnologia, e estava lutando contra uma tendência ateísta e cientificista muito forte dentro de mim, mas Graças a Deus a as coisas que fui aprendendo nesse blog na luta contra os neo-ateus, venci a crise e a minha fé em Cristo e em Deus se tornou ainda mais sólida e forte, assim como a minha percepção científica).
    Sei que é uma frase piegas, mas “esse blog (e os anexos) mudou a minha vida”, hahaha.
    Valeu Luciano, por me ensinar com seus escritos a separar alhos de bugalhos e defender os alhos que eu acredito!

      • Aproveito para agradecer também, este blog é muito instrutivo e traz uma carga enorme de conhecimentos, que me levam a outros. É um blog em que o autor pensa e me leva a pensar também, e esse estímulo intelectual é o que me faz considerar se uma leitura vale a pena ou não. Este blog vale muito a pena.

  4. eu era mais um esquerdista funcional com um pé na teologia da libertação… chocado com a atitude de intelectuais esquerdistas em um site de arquitetura contra a igreja e religião que me pareciam coisa de nazista, saí googleando pela net em busca de argumentos… e caí no site humor darwinista e de lá pra cá… no nosso amigo Ayan… então, depois de um ano, conheci algo de Lewis, Chersteton, Aquino, Agostinho, Snowball, Olavo de Carvalho, Paulo Ricardo…

    E hoje certamente estou católico conservador… não sei o dia de amanhã, mas ter a oportunidade de conhecer o pensamento conservador foi uma mudança radical de paradigma.

    Saí da caverna.
    Seu Ayan, meus cumprimentos!

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