Os fazedores e os checadores OU A origem da rotina “cético universal”

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Imagine uma hipotética sociedade bizarra, algo como uma tribo perdida, no estilo dos smurfs, só que habitada por pessoas.

Certo dia, um ancião da tribo resolve atribuir dois rótulos às pessoas. São eles: fazedores ou checadores. Isso significa que alguém só poderia ser chamado de fazedor ou então de checador, sem meio termo.

Logo, se alguém produz ferramentas, este é um fazedor, e portanto é isso que ele deve fazer. Se alguém tem uma plantação, este é também um fazedor. Não deve ser difícil notar que quase não existem checadores, pois quase todo mundo tem que ser reconhecido por fazer algo.

Entretanto, cinco pessoas são eleitas como checadores. A ele cabe criticar o que todo e qualquer fazedor realiza, independente do que for. Já aos fazedores, só cabe a ação pura e simplesmente, sem julgamento sobre o que qualquer outro fizer.

Não demora para que esses cinco checadores adquiram extremo poder sobre todos os demais, já que se eles só checam, e não fazem, estão portanto isentos de serem julgados, mas ao mesmo tempo tem o poder de julgarem todos. Como são checadores, logo os cinco fazem uma aliança para manter o poder absoluto. Já os fazedores não tem o poder de questionar a autoridade dos checadores, pois eles só “fazem”…

Certo dia, um carpinteiro, que costumava ser líder de grupos, resolveu questionar os checadores, no que ouviu: “Você é um carpinteiro, e produz artefatos de madeira. Sendo assim, você faz. Se faz, não checa. Logo, não pode nos questionar”. E dia após dia, o poder dos checadores ia se ampliando, indefinitivamente…

Se você notou algo de errado na história acima, está correto. Só que se você acredita que tal situação não aconteceria em um mundo real, está errado. Essa situação tem ocorrido desde o Iluminismo, através de uma rotina chamada cético universal, que justamente foi inventada por humanistas e utilizada até hoje.

Substitua a expressão fazedor por crente, e a expressão checador por cético, que você terá a exata dimensão do que ocorre até hoje, e esse foi um dos principais motivadores para a criação deste blog.

Na verdade, muitos humanistas seculares ou anti-religiosos de qualquer tipo resolveram utilizar o rótulo cético, ao invés de “cético em relação ao paranormal” ou “cético em relação a Deus” (o que seria, na mais completa acepção da palavra, um ateu). Ao contrário, utilizaram a expressão “cético”.

O truque, similar ao que ocorre na aldeia hipotética, é aquilo que em neurolinguística chamados verbos não especificados. Quando se usa este truque, o advérbio é omitido, e daí por diante não é possíver expressar a maneira como uma ação é feita. Assim, a expressão “ela faz o jantar” é substituída por “ela faz”, ou “ele realizou uma ação de vendas” é substituída por “ele realizou”. Sem a especificação relacionada ao verbo, fica fácil de executar o truque do cético universal.

Se tudo isso parece absurdo, veja o exemplo de vários cristãos que caíram no truque. O livro Answers to Tough Questions Skeptics Ask About the Christian Faith, de Josh D. McDowell e Don Stewart simplesmente é uma perfeita queda na arapuca humanista secular. Os autores não dizem responder aos ateus (que seriam os céticos quanto a existência de Deus), mas sim aos “céticos”. Alex McFarland também se deixa enganar ao escrever 10 Answers for Skeptics. Esses são apenas alguns dos exemplos em que cristãos aceitam que seus oponentes não são humanistas, ateus, mas simplesmente céticos. Pior ainda é quando eles se rotulam como “crentes”, ao invés de “crentes em Deus”.

Um amigo certa vez me disse: “mas Luciano, isso é apenas uma questão de semântica”. Nem de longe. É um jogo psicológico, no qual alguém (o mais ingênuo) aceita a postura de que “acredita”, portanto tem que dar satisfação a quem questiona, enquanto seu oponente “questiona”, mas não tem que dar satisfação nenhuma.

Para entender a conseqüência deste problema, vamos imaginar uma situação corporativa, onde um sujeito alcança um cargo de Gerente de Atendimento de contas. Aos poucos, ele vai usando a politicagem para definir sua função como ombudsman do cliente, e portanto sua função é criticar a Gerencia Operacional o tempo todo. Já vi casos em que Gerentes de Atendimento somente faziam esse trabalho, mas conseguiam maquiar suas ações para fugirem de serem julgados, pois faziam o papel de “ombudsman”. Ora, se um ombudsman age em defesa imparcial do cliente, naturalmente então ele não precisa ser julgado.

O fato é que um Gerente de Atendimento tem que ser julgado pelo seu trabalho, assim como todos os outros Gerentes, pois ele precisa apresentar resultados. Por exemplo, ele deve ser julgado pelo alinhamento dele com o cliente, pelo timing de seus relatórios, pela qualidade de sua comunicação com os gerentes seniores, e daí por diante.

Caso o Gerente de Atendimento finja que ele é apenas um “checador”, é claramente uma situação que irá resultar em conseqüências adversas no futuro, pois alguém adquire o poder de não ser questionado, ao passo que os outros Gerentes, principalmente aqueles que se reportam ao Gerente de Atendimento em questão, passarão por maus lençóis, pois estarão diante de alguém que não é julgado pelos seus atos.

Não demorou para os humanistas seculares descobrirem este truque, que foi facilmente implementado pelo uso da repetição. O sujeito diz que “é cético” tantas vezes que depois de um tempo os outros começam realmente a chamá-lo de cético. No caso, esta repetição ocorre simplesmente pelo fato de que o uso do termo “cético” irá causar a ele um benefício, no caso o de não ser questionado. Enquanto ele passa a ser reconhecido como “cético” (e portanto, aquele que questiona, não que é questionado), ele passará a enfiar goela abaixo dos outros todo tipo de crença absurda.

Veja por exemplo a CSICOP, entidade da qual participam vários esquerdistas. O objetivo deles é questionar alegações paranormais ou sobrenaturais, e só. Estão entre os tópicos questionados: quiromancia, homeopatia, existência de Deus, etc. Entretanto, observe que a organização não se refere a eles como “questionadores do sobrenatural”, mas simplesmente “questionadores”. Novamente, assim como vários religiosos caíram na arapuca e aceitaram ser chamados de “crédulos”, os membros da CSICOP referem-se a si próprios como “céticos”.

Em um dos casos mais gritantes, Paul Kurtz é chamado, pelos seus aliados, de “representante do ceticismo”. Entretanto, ele escreveu o Manifesto Humanista, na qual alegações absurdas são destiladas aos borbotões. Ou seja, ele faz a fachada de cético universal para, quando os outros deixaram de prestar atenção em suas crenças, começar a alegar o máximo que conseguir.

Antes de tudo, quero já ir avisando. Não estou interessado em defender o sobrenatural, e não possuo crenças no sobrenatural. Por ser agnóstico (e ateu fraco), não tenho procuração para defender a existência de Deus. Entretanto, meu foco aqui é mostrar que o ceticismo não é “só para a existência de Deus e para o sobrenatural”, e sim para qualquer coisa. O fato de eu estar mostrando que vários religiosos tem caído em um truque humanista não significa que eu esteja defendendo a crença religiosa. Muito pelo contrário, pois o método que apresento aqui serve tanto para questionar a crença religiosa como a crença esquerdista.

Dito isso, vejamos um exemplo de como se usa o ceticismo para desmascarar alguém que use o truque do cético universal, mostrando como isso ocorreria tanto no âmbito corporativo como também sendo utilizado por um neo ateu (no caso, o neu ateu é o anti-religioso raivoso, da linhagem Richard Dawkins).

Primeiramente, imagine a Empresa X, que presta serviços de Gestão do Conhecimento para várias empresas de grande porte, ele elas a RKTEL (empresa fictícia). A conta da RKTEL está sob crise e vários líderes de atividades são considerados incapazes. O Gerente de Relacionamento, Maciel, que deveria defender a percepção do cliente começa a dizer que não há problemas na gestão das atividades. O Gerente Operacional, Getúlio, é colocado sob suspeita de incapacidade na gestão, mas estranhamente Maciel não o critica.

Eis que começa o questionamento sobre Maciel:

  • CONSULTOR: Maciel, estamos suspeitando de que há realmente incapacidade na equipe e isso não tem sido monitorado pelo Gerente Operacional.
  • MACIEL: Isso não existe. A equipe é totalmente capaz.
  • CONSULTOR: Podemos, então, considerar que a equipe é capaz? Interessante. Você estende esse julgamento para o líder de produção?
  • ACIEL: Completamente.
  • CONSULTOR: Soubemos que Getúlio definiu Hugo como o líder de produção ideal. Você endossa esse ponto de vista?
  • MACIEL: Sim, ele é excelente. Tem muita experiência.
  • CONSULTOR: Você sabe que para alguém se tornar líder aqui requer 6 anos de experiência na função e atuação em 3 diferentes contas, correto?
  • MACIEL: Concordo.
  • CONSULTOR: Ainda assim, você considera Hugo qualificado?
  • MACIEL: Ele é muito bom. Sim, o considero qualificado.
  • CONSULTOR: Por quantas contas o Hugo andou? E qual o tempo de experiência dele?
  • MACIEL: Eu não sei.
  • CONSULTOR: Mas você acabou de defini-lo como qualificado e aceitou os critérios para qualificação. Ok, vamos mudar de assunto. Pensamos que o Getúlio iria assumir a gestão do projeto de melhorias. Por que ele não fará?
  • MACIEL: Por que ele não tem tempo.
  • CONSULTOR: Como sabemos que o tempo dele está escasso?
  • MACIEL: Ele tem muita coisa para fazer.
  • CONSULTOR: Você já me disse isso antes. Quais são as atividades?
  • MACIEL: Ele fica o dia inteiro resolvendo problemas.
  • CONSULTOR: Quantos problemas ele resolveu essa semana? E o tempo médio utilizado?
  • MACIEL: Eu não sei quanto tempo, mas que ficou resolvendo problemas.
  • CONSULTOR: Perfeito. Temos aqui dois endossos: (1) Alegação de que Hugo é qualificado e atende os requisitos, (2) Alegação de que Getúlio não tem tempo de assumir o projeto. Posso levar as duas adiante?
  • MACIEL: Não, veja bem…
  • CONSULTOR: Aha…

Observem que duas alegações não comprovadas eram utilizadas por Maciel e serviam POLITICAMENTE aos seus objetivos, que era estabelecer uma aliança com Getúlio, mesmo que a conta da empresa estivesse em risco. Para neutralizar o jogo político, o consultor optou por apelar ao ceticismo.

Agora, transferindo a questão para como um humanista usaria a tentativa de ficar na posição de cético universal, vejamos como poderia ser um diálogo em que um cristão usasse o ceticismo em relação a ele.

  • NEO ATEU: O que me diferencia é o fato de que sou cético, enquanto você é crédulo. Portanto, eu tenho reflexão, e você não.
  • REFUTADOR: Mas como você demonstra essa taxa maior de reflexão? Como ela é mensurada? E como comprovamos a mensuração?
  • NEO ATEU: O fato é que refleti mais.
  • REFUTADOR: Você já me disse isso antes. Mas ainda não demonstrou esse aumento de taxa de reflexão. Vou dar um exemplo. Alguém diz que o copo A está mais cheio que o copo B. Podemos medir o volume de água e descobrir que no copo A existem 200 ml de água, enquanto que no copo B existem 150 ml de água. Se ambos possuem a mesma capacidade, a alegação está comprovada. Como você mede e comprova essa maior “reflexão”?
  • NEO ATEU: Eu tenho mais liberdade.
  • REFUTADOR: Novamente temos uma alegação. Noto que você desistiu de seu argumento de auto-venda anterior e tentou outro. Se duas pessoas estão com correntes amarradas ao pescoço, e permitimos que ambas corram até onde a corrente os deixar, podemos medir. Por exemplo, a pessoa A pode correr 20 metros, enquanto que a pessoa B somente 3 metros. Logo, a pessoa A tem no mínimo 6 vezes mais liberdade de ação que a pessoa B. Isso é um exemplo de comprovação de liberdade. Como você comprova essa sua “maior liberdade” e como você a demonstra?
  • NEO ATEU: Eu tenho liberdade por que não preciso acreditar no sobrenatural.
  • REFUTADOR: Mas alguém poderia dizer que você perdeu a liberdade por não poder acreditar no sobrenatural. Ainda ficou faltando você demonstrar sua maior “liberdade”. Já são duas alegações não comprovadas até agora.
  • NEO ATEU: Mas como você quer que eu prove minha maior liberdade?
  • REFUTADOR: O alegador é você. Achei que você tivesse preparado um Power Point, com gráficos e estatísticas, e como confirmaríamos esses números…
  • NEO ATEU: Isso é ridículo.
  • REFUTADOR: Mas pelo menos eu não aleguei algo para tentar me vender sem ter provas para justificar essa venda.
  • NEO ATEU: Mas eu sou o cético aqui.
  • REFUTADOR: Não. Você é um ateu, que é cético em relação a existência de Deus. E eu sou um não-ateu, portanto cético em relação ao discurso ateu. Não tente usar truques de verbos não especificados aqui…

No exemplo acima, ficou claro como o uso do recurso cético universal serviria para garantir que o neo ateu não fosse mais questionado. Aqui vimos um exemplo no qual ele estava perdendo o debate, ao ser questionado justamente pelo religioso, e tentou apelar para o ceticismo universal.

Quando começamos a pensar ceticamente, transformamos argumentos, ideologias, propostas políticas e tudo o mais em alegações, e a partir daí somos testadores dessas mesmas alegações. Fazemos os alegadores suarem frio durante essas extensivas sessões de questionamento? Possivelmente. Mas conseguimos reduzir muito risco, seja organizacional ou social, somente com esta ação.

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