Tirar o esquerdismo de um funcional não é crueldade excessiva com ele?

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Ao contrário de Carl Sagan, eu não nutro esperanças no ser humano. Tecnicamente, eu mesmo duvido que Sagan tivesse essa esperança. Mas, como humanista, Sagan poderia fantasiar uma crença para poder continuar militando em prol da “humanidade que nos conduzirá ao mundo melhor”.

Como a única coisa que assimilei de Sagan foi a idéia de que devemos ter um método para o ceticismo, aprendi o método mas não ganhei a ingenuidade do falecido astrônomo.

Na concepção de Sagan, devíamos ser aqueles que “esclareciam” e “mudavam a vida” dos outros através de nosso questionamento. Pessoas que viviam em trevas passariam a viver na luz depois que suas crenças eram demolidas pelo ceticismo implacável dele e de sua turma. *suspiros*

Alguns poderiam dizer que essa é uma visão arrogante. Eu já diria que é uma visão completamente iludida.

Já falei várias vezes do efeito backfire e não posso esquecer que o cérebro humano não aceita “negociar” quando suas crenças estão suportando valores pelos quais a pessoa se apaixonou.

Portanto, eu não vou perder meu tempo me considerando um “iluminador” da vida dos outros, mesmo quando estou transformando suas crenças mais queridas em pó.

Há o fenômeno de “correr com a matilha”, que garante que as crenças demolidas em um debate, sejam reforçadas a posteriori (quando os questionados se juntam ao grupo que reforçará a crença), e voltem mais fortes.

Já vi várias vezes em debates humanistas ficando mansinhos, praticamente sendo obrigados ao duplipensar para abandonarem suas crenças e até reconhecerem que sua ilusão… não passa de uma ilusão. Mas dias depois eles voltavam com as crenças ainda mais reforçadas. Isso ocorria por que eles iam para as comunidades de crentes no esquerdismo e no humanismo e, entre eles, ficavam REFORÇANDO as crenças que eu havia questionado. Sob uma nova série de estímulos, o orgulho esquerdista havia retornado para ele. E a confiança também.

Mesmo assim, vamos considerar que é possível que um ser humano realmente ABANDONE sua crença querida. Isso é realmente possível, e já ocorreu de vários ateus virarem teístas, como teístas virarem ateus. Da mesma forma, esquerdistas já viraram direitistas, e vice-versa. (Embora o número de esquerdistas que tenham abandonado o esquerdismo é bem maior do que o último caso, o que pode ser explicado pela extensiva doutrinação de esquerda que é feita na infância e adolescência nas escolas públicas)

Teríamos neste caso pessoas que, por causa de nosso questionamento, abandonariam sua ilusão no governo global, no estado inchado e daí por diante. Passariam a ver o mundo como ele é, com toda a sua crueza, e até perderiam sua tradicional neurose, que já deveriam ter abandonado desde a tenra infância.

O problema é que essas pessoas na maioria das vezes tem o esquerdismo como sua cosmovisão, e encontram o sentido da vida ao adotarem essa cosmovisão.

Ao aniquilarmos o esquerdismo de suas mentes estaremos tirando parte da identidade desta pessoa. Seria como se tirássemos o cigarro de alguém que não admite parar de fumar. Eu, aliás, sou adepto de não incomodarmos os fumantes. Desde que a fumaça não me incomode.

Suponhamos que o caseiro do sítio acreditasse no bicho da fortaleza. Segundo ele, é um monstro de duas cabeças que aparece nas encruzilhadas. Por isso, ele evita passar por encruzilhadas de madrugada. Essa crença dele no bicho na fortaleza nunca me incomodou. E sempre a achei uma crença divertida. Por isso mesmo, nunca gastei muito tempo questionando-a. Quando ele me contou a história do bicho da fortaleza, retornei com um sorriso. Até compreensivo, diga-se.

Se a crença no esquerdismo fosse como a crença no bicho da fortaleza, algo que não causasse incômodo nenhum a mim e aos demais não esquerdistas, eu não gastaria muito esforço no questionamento a eles. Acharia um folclore divertido e curioso. Nada mais que isso.

O grande problema é que o esquerdismo, enquanto não questionado, afeta em excesso a vida daqueles que não acreditam no esquerdismo. Se os esquerdistas adotassem uma variação aceitável de seu esquerdismo, no qual ele afetasse o mínimo possível a vida daqueles que nele não acreditam, eu responderia a coisas como crença no homem, na ONU e no governo global com uma sonora gargalhada.

Mas infelizmente, ainda não encontrei um esquerdista que aceitasse adotar uma visão adaptada de seu esquerdismo. A crença dele DEPENDE de uma visão absolutista, na qual todos aqueles que não acreditam no esquerdismo precisam ser afetados por ele.

Entendo que esse é um componente central da crença esquerdista. “Modificar o mundo”, a partir de crenças focadas na idolatria ao homem, em especial os que alegam “corrigir o mundo” (e para isso pedirão o poder de forma totalitária). Portanto, o esquerdista não aceita que você deixe de viver longe dos paradigmas esquerdistas.

Para um esquerdista, se devemos tolerar o crime, isso vale tanto para criminosos que matariam ele como também matariam você.  Se o poder deve ser totalitário, isso vale para o poder acima dele, como também acima de você. Se os impostos são cavalares, isso vale para ele, como também para você. Em suma, qualquer escolha esquerdista, por mais danosa que seja, sempre vai resultar em impactos para os não esquerdistas.

Por isso, não é cruel atacar a crença esquerdista a ponto de correr o risco de retirá-la do sistema límbico profundo do outro. A crença esquerdista é cruel em essência, para aqueles que nela não acreditam.

E, ao se livrar desta crença, o antigo esquerdista tende a nos agradecer.

E, sempre sem esquecer do foco central do nosso questionamento: se alguém deixar de acreditar no esquerdismo por nosso questionamento, que este seja um efeito colateral. Pois a ênfase desse questionamento está em conscientizar os nossos e auxiliar a platéia.

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