O ceticismo em toda a sua crueza

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No passado o ceticismo foi definido como uma doutrina afirmando ser impossível obter a certeza absoluta a respeito da verdade, resultando em uma situação de contínuo questionamento.

Outra variação, mais recente, é a do ceticismo científico, onde qualquer alegação é questionada com o uso do método científico para corroborá-la ou refutá-la.

Basta notar com atenção que os alegadores do primeiro tipo de ceticismo não sobrevivem ao segundo.

Suponha que alguém afirme: “Eu sou cético, tão cético, a ponto de me auto-questionar, e portanto não tenho certeza de nada. Por isso, vivo em dúvida, sem certezas. Certeza é má, duvida é do bem. Eu sou da dúvida, portanto sou do bem”.

Essa é a rotina Auto Cético, que, pelo ceticismo científico, não sobrevive.  Basta exigir que esta pessoa comprove que é cética desta forma, pelo método científico, que você ouvirá algo como um “veja bem” ou um monte de xingamentos (se o alegador for do tipo bravinho).

Portanto, vamos simplificar a coisa e deixar as frescuras de lado.

O que é ceticismo? É o ato de questionar uma alegação, de qualquer tipo. E o que significa ser “um cético”? É uma situação contextual na qual alguém coloca-se como questionador de algo. Portanto existem “céticos quanto à religião”, “céticos quanto a Deus”, “céticos quanto a religião política”, “céticos quanto ao paranormal” e assim por diante. E o tal rótulo “cético”, no caso da rotina Cético Universal? O próprio ato de ceticismo tende a colocar essas pessoas em maus lençóis, pois você poderá desmascarar o praticante deste truque mostrando-o como um desonesto usuário do estratagema verbos não especificados.

Ora, se o ceticismo é apenas o ato de questionar uma alegação, usando o método científico, a lógica ou ambos, podemos dizer que o ceticismo está em todos os lugares. E isso é verdade. A diferença é que nem sempre o ceticismo é executado de forma metodológica. (Esse post aqui dá um exemplo de método para o ceticismo)

Mas o ceticismo é um mecanismo instintivo do ser humano, portanto, mesmo sem um método, ele será inevitavelmente executado.

Imagine uma organização quando um gerente diz que todos os empregos estão garantidos até o fim do ano. Será que o funcionário deve confiar neste gerente? Ou não será apenas que o gerente quer manter uma tranquilidade temporária para não afetar os projetos, e depois, em uma estiagem de projetos, as demissões começarão? Esse mero questionamento já é a prática de ceticismo.

Muitos adeptos de Carl Sagan podem não gostar de ver o ceticismo simplificado desta forma, mas é assim que as coisas são. Mistificar um tema tão simples, criando fantasias a respeito dele, pode até colocar alguém como vítima do ceticismo. Um saganista diria “O ceticismo me traz uma aura de contemplação, de amor pela natureza, que me permite amar mais a espécie humana”. Outro poderia lhe retrucar com: “E isso prova o que? Como você prova sua “aura” de contemplação? Como você prova o seu maior “amor” pela espécie humana?”.

Quer dizer, assim como alguém afirmando existir um lobisomem no quintal pode ser questionado, alguém que diz “representar a ciência” pode sê-lo exatamente da mesma forma. Em ambos os casos temos alegações não provadas.

Empolgados, leitores de Dawkins poderiam protestar: “Mas o lobisomem é uma entidade sobrenatural”. É verdade, eu concordo plenamente. Aí basta executar o “ceticismo contra o sobrenatural”. Mas quando Dawkins afirma que “por ser cientista, só acredita nas evidências”, pode ser executado contra ele o “ceticismo contra o humanismo” ou contra “praticantes da rotina auto cético”. O efeito é o mesmo e o ato de questionamento é exatamente o mesmo.

O que estou mostrando aqui é que ceticismo deixa de ser algo que provocará uma catarse e fará leitores de “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan, molharem as calças e se arrepiarem de emoção ao citarem esta obra. Na verdade, é apenas uma ferramenta de investigação baseada em um instinto humano que quer dizer:  “você não vai me enganar”.

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