Pode um suposto direitista vira latas questionar a esquerda?

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O leitor Marcos escreveu uma mensagem, que reproduzo abaixo:

Sem dúvida, pra mim, tu tem contribuído muito na questão de discurso e comportamento. Mas não te vejo como completo conservador. Talvez você seja um esquerdista tentando tornar-se conservador, ou um cara da direita da esquerda [risos]. Não me leve a mal, nem te conheço, mas é que vejo muita gente que pretende ser conservador proferindo discursos revolucionários, a esses chamo direita da esquerda enquanto o totalmente esquerdista é esquerda da esquerda[ risos]. Sempre leio teus artigos com desconfiança, justamente por ver idéias que não me parecem conservadoras. Explico…

Na minha opinião, você não é bem um conservador, pelo menos não um conservador devotado à verdade.

Penso que conservador é conservador por se esforçar em agir de acordo com a verdade. Quero dizer, o conservador quer conservar a verdade e a sanidade. Vou tentar me explicar melhor.

Você disse: “Acredito que o aborto deva ser liberado para os casos em que o bebê não sinta dor.”

Pra mim, isso não é discurso conservador, pois abortar forçadamente é contra a natureza da gravidez, contra a natureza da coisa é o que posso dizer contra a verdade.

Você disse: “Em relação aos direitos dos gays se casarem e adotarem crianças, eu acho aceitável”.

O casamento homossexual também é anti-natural, e deve ser tratado com distinção do matrimônio que é a união entre homem e mulher com fins de gerar filhos, ou seja, uma família natural. Filhos é algo que a união homossexual não pode fazer, o natural é a criança ter pai/homem e mãe/mulher. Portanto, penso que o conservador não deve promover adoção para solteiros, nem para casais homossexuais, pois na verdade não é solteiro ou em união homossexual que se consegue filhos.

Não pretendo entrar na discussão sobre aborto e casamento homossexual, mas demonstrar como vejo o que é o pensamento conservador, ou seja, um servo da verdade.

Bem.. é isso.

Se você viu algum erro meu de definição ou raciocínio, e tiver paciência, mostra-me.

Valeu pelo teu esforço nesse blog, até mais.

Esse comentário teve alguns pontos interessantes, que devo discutir. Alguns dos quais acho absurdos, outros razoáveis.

Segundo ele, há suspeitas sobre pessoas de direita que “proferem discursos revolucionários”. Bem, não creio ter proferido qualquer discurso deste tipo aqui.

Quando eu afirmei “Acredito que o aborto deva ser liberado para os casos em que o bebê não sinta dor”, ele comentou o seguinte: “Para mim, isso não é discurso conservador, pois abortar forçadamente é contra a natureza da gravidez, contra a natureza da coisa é o que posso dizer contra a verdade.”

O problema é que minha OPINIÃO a respeito do aborto não é um argumento, e nem tenta ser um discurso. Tanto que declinei de apresentar argumentos a favor do aborto, principalmente quando bons argumentos CONTRA o aborto foram colocados aqui. Logo, se reconheço ter apenas uma OPINIÃO, não tenho um DISCURSO pró-aborto.

Quando Marcos diz que o casamento homossexual é “anti-natural”, eu concordo com ele. E também acho que deva ser tratado com distinção do matrimônio. Alias, eu nem chamaria de “casamento”. No máximo, uma união por contrato, e com direitos, por exemplo, de herança. Tudo isso, é claro, mantendo o pleno direito dos casais conservadores acharem tudo isso ridículo, como eu também acho. Até pela dinâmica social, a visão sobre um casal de gays não é nada favorável. (Aliás, a maioria dos jogos amorosos estudados pela dinâmica social levam em conta a diferença entre homem e mulher para os jogos de corte)

Como já expus no texto “O Novo Herege: Aborto, Eutanásia, Drogas, Casamento Gay e um Método para o Ceticismo”, minhas posições em relação ao aborto e casamento gay são bastante díspares daquelas promovidas pelos esquerdistas.

Seja lá como for, vamos supor que eu fosse, conforme diz Marcos, um direitista “vira latas”.

Imaginemos, então, um ateu que resolvesse questionar a religião tradicional e fizesse questionamentos realmente incisivos a ela. Suponha também que, tempos depois, este ateu descreva aspectos espirituais. Aliás, até Sam Harris fez isso no final de seu livro “A Morte da Fé”.

Tecnicamente, eu já demonstrei que os argumentos de Harris são bem ruins. Mas se os argumentos fossem bons, não é o fato dele ser um “ateu vira latas” que tornaria seus argumentos ruins.

Da mesma forma, suponhamos agora que eu fosse um “esquerdista”. Ora, no máximo o que teríamos é o fato de um esquerdista que resolveu questionar os argumentos da esquerda de forma contundente. No máximo, teríamos um esquerdista fazendo o serviço que OS DIREITISTAS DEVIAM ESTAR FAZENDO.

Mas, enfim, não sou esquerdista e não vejo no que uma opinião (e não um argumento) a respeito do aborto, além de uma concessão (com muitas reservas) à união entre gays, me tornaria um esquerdista.

Agora, suponhamos que eu fosse talvez um “direitista de segunda categoria”. Quais os critérios para avaliação? Qualidade dos questionamentos aos esquerdistas? Quantidade de desmoralizações feitas aos esquerdistas? Em relação a quesitos como esse, modéstia a parte, eu supero alguns direitistas “puro sangue” que acabei encontrando pelas interações virtuais, especialmente em redes sociais.

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