Tornando a guerra política mais divertida: uma introdução ao jogo de rótulos

Tempos atrás eu escrevi um texto sobre controle de frame. Também escrevi no passado sobre a rotina self-selling. Em sequência, descrevi um modelo de quatro níveis de questionamento, focado em encontrar as rotinas de self-selling e/ou controle de frame no discurso oponente e refutá-las, ao invés de considerar apenas os argumentos centrais. Como adendo, já trouxe 4 rotinas de frame: Dono da Razão / Sou liberal / Auto-cético / Cético Universal.

Tudo isso é muito técnico, embora extremamente útil. Mas e se pudéssemos tornar a coisa mais divertida?

Como já mostrei no modelo de quatro níveis, há mais de um nível em um debate. Um deles é aquele no qual os argumentos centrais são colocados. O outro é aquele onde as rotinas de frame são executadas. Muitos nem sequer percebem esse nível, aquele onde o duelo é vencido na mente da platéia. (Lembremos da perspectiva do triângulo para os debates)

Vamos agora às regras do jogo.

Pensando no duelo de frames, tente imaginar que, embutidos em seu discurso (durante o debate), você insira uma série de rótulos que são atribuídos a você, ao passo que outros rótulos são atributos ao seu adversário.  Imagine também que o seu oponente faça exatamente o mesmo, ou seja, atribuído alguns rótulos a você, e outros a ele próprio.

Categorize agora os rótulos em dois tipos: de conotação positiva ou conotação negativa.

Algumas regras:

  • A cada rótulo de conotação positiva atribuído a qualquer participante, conte 1 ponto a favor deste participante.
  • A cada rótulo de conotação negativa atribuído a qualquer participante, conte 1 ponto a favor do oponente.
  • A cada rótulo de conotação positiva atribuído a um participante, mas ridicularizado/refutado/questionado pelo outro, dê 1 ponto a este.

Antes, um critério importante que pode lhe ser útil: caso você vença o duelo de argumentos (ocorrido em um outro nível, mesmo que na mesma discussão), cheque se você ganhou o jogo de rótulos. Se você ganhou o jogo de rótulos e venceu o duelo de argumentos, ganhou o debate. Independente de ter ganho ou não o duelo de argumentos, se você perdeu no jogo de rótulos, perdeu o debate. Logo, o jogo de rótulos é a parte decisiva do debate.

Parece complicado? Sim, um pouco, principalmente por que você ainda não viu alguns rótulos. Abaixo alguns deles, com a conotação indicada (“-” para negativa e “+” para positiva).

  • Liberal [+]: O rótulo liberal é positivo, pois ficará cravado no psicológico da platéia a idéia de “libertação”. O efeito psicológico é quase como o de ver uma corrente que lhe prende ser quebrada. Essa “quebra” é a âncora obtida ao ouvir a expressão liberal.
  • Fundamentalista [-]: Não importa se você já usou a expressão fundamentalista para si próprio. Ela sempre é negativa, pois irá lembrar alguém fixo a dogmas, e que não irá mudar de opinião. No psicológico da platéia, este aparecerá como alguém “irredutível”.
  • Racional [+]: O efeito eu já expliquei no verbete da rotina “Dono da Razão”. Imagine-se em um longínquo passado e há dois bancos, cada um com um dono. Ambos estão prontos para você embarcar. Você precisa escolher um deles. Existe aquele que não se guia pelos fatos, dados, etc. Este é o irracional. E há aquele que usa mapas, rotas, informações, etc. Este é o racional. Você preferiria embarcar no barco do irracional ou do racional? Está explicado por que este é um rótulo sempre positivo.
  • Ciência (Representante da) [+]: Não é preciso investigar muito para ver os benefícios já trazidos pela ciência. Temos cirurgias poderosas, remédios que salvam vidas, os aviões e o iPhone. Na cabeça da platéia, um representante da ciência é o mesmo que um representante disso tudo aí. Basta começar um discurso dizendo que “A ciência nos diz isso” ou “Em nome da ciência, faço isso”, que este rótulo terá sido implantado e seu usuário terá obtido um poderoso efeitopsicológico.
  • Ignorante [-]: Um ignorante é alguém que não tem ciência de algo. Mas em alguns casos o efeito pode parecer o de alguém que não está interessado em saber mesmo. Na dúvida, é negativo.
  • Defensor dos pobres [+]: Sempre esse rótulo contará de forma positiva para a platéia, pois alguém que defende os pobres será percebido como alguém que se preocupa com os demais.
  • Nazista [-]: Quem for associado ao Nazismo está fora do debate, pois além da Alemanha ter perdido a Segunda Guerra Mundial, provocou um dos maiores genocídios da história recente.
  • Fascista [-]: Similar ao anterior, mas o impacto psicológico é muito menor.
  • Verdade (Portador da) [+]: Não importa se você é niilista, relativista, ou o que valha. Dizer que está lutando pela verdade irá provocar um efeito psicológico na patuléia de que você é mais confiável para eles. Voltando ao tempo das cavernas, imagine alguém que diga que não há um tigre perigoso fora da caverna. Alguém sai e é devorado.  Outro diz que não há um tigre perigoso. Alguém sai e sobrevive. Logo, quem afirma representar a verdade se dá bem no aspecto psicológico.
  • Mentira (Praticante da) [-]: Isso é exatamente o oposto do anterior. Aliás, caso o oponente utilize rótulos positivos facilmente refutados, o rótulo de mentiroso aplicado a ele contará um ponto para você. E vice-versa.
  • Desonesto [-]: Idem ao anterior.
  • Hipócrita [-]: Funciona de maneira similar aos dois anteriores. Um hipócrita é alguém que propaga algo diferente do que acredita. Tecnicamente, é um mentiroso.
  • Dúvidas (Cheio de) [+]: Esse rótulo depende do momento e é mais útil para debates políticos. No mundo corporativo, não ter certeza do que faz é perigoso e pode transmitir aos outros a imagem de fraco, especialmente se você for líder. Mas em duelos ideológicos, é o oposto. Alguém cheio de dúvidas passa a imagem de que está apto a ouvir novas opiniões, sendo distante da imagem de “irredutível”.
  • Obsoleto [-]: Embora em muitos casos exista a falácia do ad antiquitatem (algo só é ruim por ser antigo), no aspecto psicológico isso funciona sempre para desmoralizar alguém.
  • Ingênuo [-]: Alguém ingênuo será reconhecido pela platéia como aquele que aceita idéias de outros sem julgá-las o suficiente.
  • Direitos Humanos (Adepto dos) [+]: O motivo para este rótulo ser positivo é óbvio. Toda a platéia de debates é composta de humanos, que por sua vez possuem direitos que precisam ser respeitados. Alguém que se auto-intitula defensor dos direitos humanos é percebido como um defensor da platéia do debate.

Vamos agora a um exemplo, em um debate entre um esquerdista e um direitista.

  • ESQUERDISTA: Eu sou defensor das minorias, e luto pela justiça social. (1×0 para o esquerdista, pois ele cravou um rótulo positivo)
  • DIREITISTA: Não, você mente ao dizer que é defensor dos injustiçados. Você quer um estado inchado, e por isso dá poder aos burocratas. Ademais, se você e seus amigos esquerdistas se juntassem para ações filantrópicas, o estado inchado nem seria necessário. (2×1 para o direitista, pois refutou o rótulo positivo que o esquerdista havia implementado a si próprio, e ainda o chamou de mentiroso)
  • ESQUERDISTA: Mas é preciso defender os pobres, e para isso o estado precisa ser forte. (2×2, pois o esquerdista repete a implementação do rótulo usado anteriormente)
  • DIREITISTA: Não seja desonesto. Eu já lhe disse que não é preciso que o estado seja inchado para que os pobres sejam ajudados. Eu prefiro tirar dinheiro dos burocratas para que ele vá para o povo. Você tira dinheiro do povo para dar aos burocratas. (4×2 para o direitista, pois o rótulo “desonesto” funciona similar ao “mentiroso”, e novamente o direitista se mostra mais protetor do povo do que o esquerdista)
  • ESQUERDISTA: É por isso que você é um fascista… (4×3 para o direitista, com o ponto feito pelo esquerdista agora).
  • DIREITISTA: Além de mentiroso, é ignorante. Eu sou adepto do estado enxuto, e o fascismo prega exatamente o estado inchado. Exatamente como você… (A partir deste momento o placar já está 6×3 para o direitista, por motivos evidentes)

No exemplo acima, a coisa foi fácil (e já peguei vários embates nesse naipe), pois o esquerdista entrou implementando rótulos a si próprio, enquanto o direitista ficou apenas questionando e ridicularizando os rótulos auto-imputados pelo esquerdista e ao mesmo tempo emplacando rótulos negativos de volta para ele.

Várias estratégias podem ser elaboradas, mas o que importa é sempre evitar descuidos no jogo de rótulos,  e AO MESMO TEMPO vencer o duelo de argumentos. Provavelmente, eu faça em breve um Dicionário do Jogo de Rótulos, e expanda este conceito.

Encarando cada debate como um “jogo”, podemos gerar uma âncora para não esquecermos que em debates políticos, entramos para vencer ou para perder.

Monitorar os rótulos é uma forma de entendermos se vencemos ou não os debates.

Ao fazer a sua próxima discussão acalorada no Orkut ou Facebook com os adversários politicos, tente ver se os rótulos implantados em você e no outro causam efeitos positivos ou negativos para cada parte perante a platéia. E aos poucos, vá monitorando estes aspectos.

Podemos com o tempo tornar a arte do debate algo mais divertido do que parece.



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9 respostas

  1. Eu sugeriria o termo “humanista” a favor do esquerdista.

    Soa como humanitário, alguém que se dedica ao bem da humanidade e do indivíduo. Isso cativa a plateia.

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    • Concordo plenamente.

      Aliás, Luciano, já tinha questionado isto em algum momento anterior: a acepção que você dá aos termos “humanista” e “humanismo” é muito particular e, creio, original. Até ler seu blog, nunca tinha visto a carga de sentido daqueles termos como “crença no homem”, na “bondade da natureza humana”, na “capacidade do ser humano de superar todas as contingências materiais”.

      Eu entendo seu ponto de vista: o humanismo, nessa acepção, é a “mãe” de todos os esquerdismos, é fonte de onde vem a semente da mente revolucionária. Afinal, o que o revolucionário faz (segundo Olavo de Carvalho) é acabar com a transcendência e aprisionar o homem na imanência, na medida que situa a “utopia da redenção final” num momento “dentro do Tempo”, não “fora”, como fazem as religiões tradicionais (o Apocalipse bíblico, nesse sentido, está “fora do Tempo”, não se aplicando a ele as noções de passado, presente e futuro). E o humanista crê que a razão humana, por sua natureza benévola (ideias da “tábula rasa” e do “bom selvagem”) e por sua infinita capacidade de evolução, irá, cedo ou tarde, tornar possível esse tempo (que ocorre “dentro do Tempo”), essa utopia. O revolucionário é o humanista gone crazy: não só ele crê que o homem vai fazer isso como acha que viu o “Fim” do “Tempo”, e se sente no dever – e, principalmente, no direito – de acelerar a marcha do “Tempo”, o devir histórico.

      Acho a sua acepção a mais exata em termos técnicos. Ocorre que nem o Olavo, que é o próprio formulador da ideia de mentalidade revolucionária, usa “humanismo” e “humanista” com essa carga de sentido. Aliás, são termos que ele usa muito raramente em seus escritos (pelo menos dentre o que eu li) e em colóquios (e acompanho o True Outspeak já há algum tempo). Em palestras mais formais, não sei, porque não sou aluno de nenhum dos cursos dele.

      O meu ponto é que nem conservadores “de raiz” costumam usar os termos com o sentido que você lhes dá. O Reinaldo Azevedo, por exemplo, sempre usa “humanista” com sentido positivo, elogioso, e nega esse rótulo a alguém que ele veja justamente como o que você entenderia como humanista. Entende o imbróglio terminológico, a discrepância de nomenclaturas? São sentidos praticamente opostos conferidos por você – e, até onde já descobri, só por você – e outros conservadores de peso, inclusive outros blogueiros. Em relação à direita liberal (Rodrigo Constantino, Flávio Morgenstern, toda a galera dos Institutos Mises Brasil, Liberal e congêneres), então, nem se fala: “humanismo” é algo positivo e “humanista” é elogio.

      Portanto, eu entendo que o sentido corrente e majoritariamente em uso (apesar de tecnicamente incorreto) do rótulo “humanista” lhe empresta caráter positivo, exatamente como o Marco Antonio mencionou. Tachar alguém de “humanista” num debate triangular irá, creio, até confundir, porque é quase certo que tanto adversário quanto platéia entederão como elogio.

      O que você acha? Seu feedback nessa questão é importante, especialmente porque o correto entendimento dos textos do seu blog pressupõe que se conheça uma terminologia pouco usual. Ou, melhor dizendo, que se saiba e se aceite que termos que têm uma acepção consagrada são usados aqui com acepção diversa e, em verdade, quase oposta.

      Abraço!

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      • Certo mesmo estava o saudoso Millor (ou teria sido o igualmente saudoso Leon Eliachar?), que disse:

        “o único humanista autêntico é o canibal” 🙂

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      • Olha, eu não tinha pensado por esse aspecto ainda e CONCORDO com você. Ultimamente eu tenho ampliado o foco, tal qual faz o John Gray, e tratando toda a esquerda como religião política, pois isso tem muito a ver com uma abordagem que falarei em um dos próximos posts, que é o desconstrucionismo de TODO o material escrito pelos neo ateus para usá-lo contra os esquerdistas.

        Nesse caso, o humanismo deixaria de ser citado de forma central (e concordo que é um rótulo que PODE ser considerado positivo), mas denunciado em suas alegações, incluindo o manifesto humanista. Concordo também que é preciso de um estágio para um dia chegarmos ao ponto em que a platéia perceberá o rótulo “humanista” de forma negativa.

        Vou rever algumas terminologias e ser mais econômico na denunciação ao humanismo, focando mais na denunciação ao esquedismo/religião política, o que automaticamente engloba o humanismo. Nesse caso, o seu feeback foi bastante útil.

        Abs,

        LH

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  2. OFF-TOPIC:

    Olavo dando uma palhinha sobre… rotinas de controle de frame! Com outra terminologia, é óbvio.

    http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13133-a-palavra-gatilho.html

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  3. Mais OFF-TOPIC:

    “Ah, que isso
    Elas estão descontroladas”

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  4. Cara… acabei de ganhar um de lavada só com a tua dica prática. Valeu Ayan! As vezes uma bobeirinha que agente muda na abordagem da coisa já é a diferença entre ganhar e perder!

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  5. Estou sendo tachado de “nazista” e “ignorante” por estar desmentindo a ATEA. Devo me preocupar com isso?:) Ehheheeheh

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