Quando a verdade é mais importante do que “afirmar buscar a verdade”

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Um dos pontos centrais do ceticismo político aqui defendido foca na luta contra a obtenção de falsa autoridade. Truques de auto-venda como afirmar “sou da razão” ou “estou do lado da verdade” são exemplos de apelos à autoridade.

Em priscas eras, um líder tribal podia dizer que, pelo poder dado outorgado pelos deuses, ele poderia ter acesso aos recursos da tribo, assim como as melhores mulheres. Isso é o apelo à autoridade, mas também o são as iniciativas de auto-venda. Todas essas iniciativas tem um único fim: obter autoridade a partir do CONVENCIMENTO de uma outra parte de que você tem a autoridade moral declarada.

Tempos atrás, fui questionado a respeito da hipótese de não ser alguém a “favor da verdade”, somente por defender um paradigma que automaticamente questiona qualquer um que alegue ser o “dono da verdade”. Eis então que temos um problema de valores. O que é mais importante? Falar a verdade ou convencer os outros de que se está “com a verdade” a partir do discurso repetitivo, mas não lógico?

Ora, se eu defendo uma abordagem que questiona TODAS as alegações políticas, é natural que chegar em um grupo e querer ser reconhecido como o “dono da verdade” é uma perda de tempo, desde que o ceticismo político esteja em ação, já que este paradigma é feito ESPECIALMENTE para esse tipo de alegação. Relembremos: uma alegação é política quando, se aceita, provê benefício a pessoa ou o grupo que a propaga.

No caso de alguém convencer a platéia de que é o “portador da verdade” (mesmo sem ter vencido um duelo de argumentos), ele obtê o benefício psicológico de ser considerado o “mais sincero” pelo público. A partir daí, ele obtem o benefício político que essa impressão causada na platéia pode prover.

Às vezes, alguém mais eufórico pode questionar: “Luciano, você realmente não está em busca da verdade”, no que eu respondo: “E você? Como pode ao mesmo tempo provar que eu não estou em busca da verdade e você está?”. É óbvio que ele terá tantas provas para essa alegação como tem para a validade do horóscopo.

Portanto, a única forma de encarar o paradigma aqui defendido é se desapegar da busca automática de obtenção de autoridade pelo fato de querer impor o rótulo de “portador da verdade”. Ao contrário, a verdade independente de VOCÊ ser reconhecido como alguém praticante dela.

Recentemente, um debatedor erroneamente disse que eu, pelo aceite do darwinismo, jamais poderia encontrar um “valor para a verdade”, e portanto devia ser um mentiroso. O problema é que é irrelevante se alguém encontra ou não esse “valor para a verdade”. O que importa é se os argumentos dessa pessoa estão corretos ou não.

Ao gastar mais tempo para auto-promoção do que para debates efetivamente argumentativos, a verdade em si está sendo cada vez mais deixada de lado. Se existe uma verdade absoluta (e eu não digo que ela não existe), ela com certeza não depende da auto-venda dos debatedores.

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3 COMMENTS

  1. Luciano,

    Você diz: “um debatedor erroneamente disse que eu, pelo aceite do darwinismo, jamais poderia encontrar um “valor para a verdade”, e portanto devia ser um mentiroso”

    Cara, na boa, não sei se este texto é a resposta que você ficou de dar à minha objeção de incoerência interna de seu método (tenho sérias dúvidas disso); mas, CASO seja e caso a referência a esse debatedor seja feita a mim, confesso que pensei três coisas: ou (1) você não entendeu a objeção que anteriormente disse que havia entendido, ou (2) não está afim de responde-la, ou (3) não conseguiu responde-la e então supôs que ela significasse outra coisa, para que, assim, você tivesse uma resposta.

    Enfim, SE a resposta é para mim, peço que confronte novamente com a objeção e veja você mesmo que ela está péssima enquanto resposta, que erra drasticamente o alvo, e assim, acaba levando você a uma falácia de espantalho, já que está respondendo a uma pergunta que eu não fiz, supondo que eu a tivesse feito. Prefiro, no entanto, acreditar que seja uma má compreensão da objeção.

    Abs.
    Eduardo

    • Não foi a resposta a você, mas quando escrevi isso me referi a outro debatedor (Jairo). às suas objeções, estou ainda devendo uma resposta. Abs, LH.

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