A Arte da Guerra Política – I – É a política, estúpido!

Durante o debate sobre o impeachment, o povo americano sabia que Bill Clinton era corrupto e o desprezava como pessoa, mesmo que não o quisessem afastado do cargo. A maioria dos americanos sabia que ele era culpado de perjúrio, mas estavam relutantes em vê-lo cassado. Clinton escapou do julgamento porque baseou sua defesa em princípios conservadores, e também porque os republicanos ficaram em silêncio por oito meses decisivos, o que permitiu-lhe definir os termos do debate. Quando os republicanos finalmente encontraram sua voz coletiva, eles ignoraram as preocupações imediatas do eleitorado americano e basearam o seu julgamento em questões que eram demasiadamente complexas para serem digeridas pelo público.

É a política, estúpido.

Durante oito meses entre o momento em que Monica Lewinsky surgiu e o presidente Clinton admitiu sua relação, os republicanos não falaram nada sobre o escândalo sexual em efervescência. Enquanto isso, a Casa Branca lançou sua própria campanha nacional para definir os termos do debate para o público americano. O silêncio republicano era baseado na esperança de que os Democratas de Clinton se auto-destruiriam por eles próprios, e também no medo de que os próprios republicanos talvez não pudessem lidar com a questão sem atirarem no pé [1]. Os dois sentimentos tinham o mesmo raciocínio por trás: os republicanos tinham medo de lutar a batalha política. Foi pelo fato dos republicanos não confiarem neles mesmos em relação à habilidade para enquadrar o escândalo a seu favor que esperaram por uma implosão do Partido Democrata.

Na guerra política, se apenas um lado atira, o outro lado em breve cairá morto. Embora os republicanos ignoraram o campo de batalha entre Janeiro e Agosto de 1999, os aliados do presidente aproveitaram todo este tempo para retratá-lo como uma vítima dos abusos do governo. Eles definiram as questões relacionadas com a investigação como se fosse uma luta contra a invasão de privacidade pelo governo (um princípio conservador) assim como a resistência a promotores públicos fora de controle (uma preocupação conservadora) [2]. Que os americanos tenham respondido a este apelo deveria ter sido motivo de satisfação conservadora, não desânimo. Não é o povo americano que os republicanos deviam culpar pela sua incapacidade de remover o presidente. Eles deveriam culpar sua própria inépcia política.

Quando os republicanos finalmente construíram o seu caso, eles montaram seus argumentos baseados em motivos legais que eram tanto ininteligíveis para a maioria do eleitorado como também baseados em princípios esquerdistas aos quais os próprios conservadores se opuseram no passado – princípios estes que tinham sido rejeitados pelo público. [3]

Mesmo que o impeachment sempre seja um processo político conduzido pelo Poder Legislativo, os republicanos não conseguiram se concentrar no principal caso político para a remoção do presidente (o escândalo da política externa com a China teria sido uma questão óbvia). Ao invés disso, eles contaram com interpretações da lei e argumentos legais decorrentes da fracassada ação judicial de Paula Jones na apresentação de seu caso para a retirada de Clinton.

A existência de um estatuto sobre assédio sexual permitindo que o tribunal investigue as vidas pessoais dos réus em casos de escândalos sexuais levou à descoberta de Monica Lewinsky. Este estatuto, na verdade, é uma lei radical que se afasta das normas da justiça americana, que consagra o princípio de que o réu é presumidamente inocente até que se prove como culpado. Mesmo reús que cometeram assassinato têm o direito de serem julgados pelas acusações presentes, ao invés de serem condenados pelo que cometeram no passado. Mas a lei de assédio sexual permite aos tribunais trazer a tona não somente  condenações anteriores (das quais Clinton não tinha nenhuma), mas supostos crimes do passado também. Uma vez que as alegações são introduzidas no processo e um “padrão” é estabelecido, a presunção de culpa pode se tornar irresistível – é por isso que a lei americana, muito antes de ter sido traduzida por teorias feministas, descartou tais práticas.

“Macartismo Sexual” – uma acusação que os Democratas utilizaram com sucesso contra os promotores republicanos – foi uma invenção da esquerda radical. Leis de assédio sexual foram desenhadas por feministas radicais, enquanto os conservadores se opuseram a elas. Como conseqüência da loucura republicana em abraçar a filosofia dos seus inimigos, todo o debate sobre o impeachment foi pautado pela discussão da conveniência ou não das leis de assédio sexual.

Além disso, o debate sobre o impeachment girava em torno de questões para as quais apenas advogados e especialistas em constituição podiam discutir adequadamente sem qualquer pretensão de alegar autoridade (O testemunho do presidente em um caso de assédio sexual é uma evidência material ou não? Por que o testemunho em um caso sobre assuntos que deveriam ser privados? O que constitui perjúrio? Casos civis de perjúrio são de fato objeto de processo? Esse é realmente um delito passível de impeachment?). Como o debate foi baseado em causas legais, muitos pensaram que era simplesmente irrelevante, sobretudo porque os republicanos estavam constantemente lembrando-lhes que o impeachment foi um processo político e que os jurados políticos dariam o veredito.

Em outras palavras, os republicanos decidiram lutar em um território onde o público não poderia (ou não conseguiria) segui-lo. Se os argumentos legais dos republicanos não conseguiram ganhar força com a maioria do público, os argumentos políticos dos Democratas prevaleceram. A privacidade do presidente havia sido invadida, os procuradores do governo abusaram de seu poder, um ato sexual não era razão para remover um presidente eleito pelo povo [4]. Um público cético foi prontamente convencido de que o presidente foi vítima de ataques partidários. Em termos políticos, “vítimas” são aqueles oprimidos, indefesos, ou seja, o próprio povo. Em uma disputa política democrática, o vencedor é aquele que convence as pessoas a se identificarem com ele. Em uma democracia, este é o primeiro – e talvez único – princípio supremo da guerra política: o lado dos oprimidos, que é o lado do povo, ganha.

No conflito do impeachment, a sonora estratégia Democrata foi reforçada por uma economia de pleno emprego, um índice Dow Jones em alta, tendências sociais positivas (declínio da taxa de crimes, aumento de índices de moralidade), reduzindo um significado político claro para o impeachment. Nestas circunstâncias, a resposta do público (conservador) americano de permanecer com um presidente duas vezes eleito era perfeitamente compreensível, até reconfortante.

Claro, a campanha Democrata em defesa do presidente foi uma notável exibição de hipocrisia e enrolação, o que quer dizer que foi uma demonstração virtuosa de como uma estratégia puramente política é capaz de servir um partido político em grave dificuldade. Graças à uma superior compreensão de estratégia política, os inventores reais do Macartismo Sexual (lembram-se da caça promovida pelo juiz Clarence Thomas?) foram capazes de imputar a mesma acusação aos republicanos. Os esquerdistas que passaram quatro décadas reescrevendo a Constituição de repente emergiram como os campeões nacionais da promoção da intenção original do texto (“as exigências constitucionais para crimes políticos não foram cumpridas”). Os veteranos de meio século de cruzada anti-guerra contra os militares americanos se tornaram entusiastas, do dia para a noite, de ataques com mísseis ao Sudão, Afeganistão e Iraque. Os criadores do escritório especial do promotor, que tinham utilizado impiedosamente seus poderes para perseguir três presidentes republicanos, tornaram-se críticos instantâneos dos excessos do Ministério Público, assim como os mais fervorosos defensores de uma reforma deste sistema.

Como o partido das políticas desacreditadas e falidas, além de argumentos políticos duas-caras, os Democratas demonstraram de forma dramática o quão efetiva a arte da guerra política pode ser nas mãos de um partido que entende seus princípios. Uma ilustração de como os republicanos ainda visualizam a guerra política de forma ingênua pode ser vista em um slogan postado em um programa de circuito fechado de televisão que o Comitê Político Republicano transmite aos membros da Casa: “Republicanos miram nos problemas, Democratas miram na política” [5].

Não poderia haver uma explicação mais sucinta justificando o motivo pelo qual os republicanos são tão facilmente despistados por seus adversários democratas em batalhas como o processo de impeachment. É a política, estúpido. Se você não se concentrar em vencer a batalha política, você não consegue atingir os problemas [6].

Antes que os republicanos possam começar a mudar essa situação, eles precisam parar de ficar choramingando dizendo que a vida é injusta, que Bill Clinton “roubou” os seus programas, que os democratas são pessoas sem princípios ou que eles vivem seguindo uma linha partidária. (Claro que eles fazem isso. É a política, estúpido.) Republicanos precisam aceitar que os democratas vão praticar uma política de destruição pessoal e atribuir aos adversários os pecados que eles mesmos cometeram. Eles fazem isso porque é a maneira que encontraram para vencer.

Quando os republicanos se queixam de forças que não podem controlar, se comportam como vítimas e desistem do poder de tentar determinar o seu destino. Democratas sempre serão democratas. Eles não possuem princípios sólidos e mentem aos borbotões. Os republicanos podem até se iludir achando que os democratas vão se comportar melhor da próxima vez, mas se forem para a batalha esperando que os esquerdistas “melhorem”, vão apenas continuar terminando como vítimas constantes de emboscadas políticas. Em vez de reclamar sobre a atuação dos outros, os republicanos deviam estar se perguntando: Como eles fazem isso? Como eles se safam? O que eles sabem que os torna capazes de empacotar uma agenda política falida e vendê-la com sucesso para o eleitor americano?

David Horowitz

***

[1] Essa característica é notória em vários debates políticos já abordados neste blog, como no exemplo do embate com os neo ateus. Muitos cristãos falam “vamos deixar pra lá”, mas só estão perdendo batalhas a cada dia. Esse é um exemplo de um abandono ingênuo de uma guerra, achando que o inimigo se auto-destruirá por si próprio.

[2] Um exemplo claro pôde ser visto recentemente na questão da cassação do deputado c0nservador Demóstenes Torres. Durante a investigação, toda a sorte de conversas gravadas foi disponibilizada para o público, tornando a Polícia Federal praticamente um braço do governo do PT. A parte mais abjeta, no entanto, veio recentemente quando a PF divulgou um áudio de uma conversa mostrando que a atual esposa de Carlinhos Cachoeira, Andressa, traiu seu ex-marido com o atual. Onde está o direito à vida privada? Não é humilhante demais para o ex-marido traído ter sido exposto desse jeito? Não é falta de ética demais recorrer a subterfúgios desse tipo? Enfim, no jogo praticado pelos esquerdistas, contra os seus adversários vale tudo. Mas se isso tivesse ocorrido contra um esquerdista, obviamente eles recorreriam a princípios como o da privacidade da vida íntima (com o qual os conservadores concordam) para evitar que o julgamento fosse adiante.

[3] Esse é um dos pontos muito difíceis de rastrear para a questão brasileira, pois não há uma direita organizada por aqui, portanto quando vemos os partidos duelando, vemos os MESMOS princípios. A questão de Demóstenes é uma exceção, pois ele era um dos raros políticos conservadores, mas o seu antigo partido (DEM) é praticamente inexistente em termos eleitorais.

[4] Isso lembra muito a questão Collor/Lugo, onde todos os petistas apoiaram em uníssono o impeachment de Fernando Collor, no início dos anos 90, mas rejeitaram ferrenhamente o impeachment de Fernando Lugo, presidente paraguaio, em junho agora. Como pode ser visto aqui, quando não há argumentos legais para justificar a censura ao impeachment de Lugo, apenas argumentos políticos são usados. Como, por exemplo, dizer que o impeachment é um golpe pois “Lugo foi eleito pelo povo”. Mas legalmente todo impeachment ocorre sobre governos eleitos pelo povo, e o fato de um governo ter sido eleito pelo povo não evita que ele possa ser objeto de impeachment. Isso é óbvio, mas apenas se considerarmos a tradicional argumentação legal/constitucional, mas não uma argumentação essencialmente política, conforme nos aponta Horowitz.

[5] Esse é um exemplo espetacular de orgulho da vergonha, que eu defino como se orgulhar daquilo que alguém deveria se envergonhar. Não raro vejo conservadores dizendo “eu não ligo para vencer debates, quero apenas saber a verdade”. Enquanto isso, os oponentes ligam para vencer debates e acabam levando a melhor. Eu já disse no passado que não defendo a apologia da mentira, muito pelo contrário, mas muito menos defendo a ingenuidade no jogo político. Falarei disso a seguir.

[6] Este é o melhor trecho do primeiro capítulo, que bate com tudo que venho falando aqui neste blog, principalmente desde a publicação de um texto sobre o controle de frame, entitulado “Uma introdução ao controle de frame OU Como começar a vencer os esquerdistas”. Erroneamente, o texto foi entendido como se eu estivesse apoiando a idéia de que “os fins justificam os meios”, no qual eu estaria justificando o uso da mentira para vencer os esquerdistas. Não, eu estava defendendo o uso do controle de frame na guerra política, o que não necessariamente tem a ver com mentir. Além do mais, se os “meios estão dominados, os fins já não fazem mais diferença”. Isso significa que não adianta se “recusar a lutar” por que acha que ficar arraigado aos seus princípios é suficiente, pois se o outro lado conseguir o poder totalitário, você já não terá direito sequer a ter os seus princípios. Voltando ao que Horowitz quis dizer (e fazendo um gancho com o que explanei), se você quiser ter programas implementados, com base em ideais conservadores, terá que entrar na guerra política – ou ao menos outros terão que entrar nesta guerra, defendendo o lado conservador, enquanto você assiste de camarote. Não é reclamando das regras do jogo político que fazemos alguma coisa. Na verdade, ao ignorar essas regras, perdemos o jogo. O slogan republicano citado por Horowitz é um exemplo de orgulho da vergonha.



Categorias:Guerra política (ensaios)

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6 respostas

  1. Só uma correção é Senador Demóstenes Torres, não deputado.
    Abçs.

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  2. Luciano, vc concorda com Olavo de Carvalho, quando ele diz q o destino inevitável do Brasil é se tornar comunista? E quanto aos Estados Unidos? Os presidentes não são obrigatoriamente maçons? Maçons não são favoráveis a liberdade religiosa? Obama não é esquerdista? Esquerdistas não são anti-religiosos? Se Obama é maçom, como pode ser anti-religioso?
    Organizando:
    1- Brasil
    2- Obama
    Abcs! Jeremias

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    • Enquanto o Igor não aparece pra dar a respeitável opinião dele…

      Penso que a Maçonaria americana se contenta em ter o presidente sob a sua esfera de influência, e isso não requer que “todos os presidentes americanos” sejam membros da Irmandade. Quanto ao ateísmo fanático, basta lembrar que a Maçonaria especulativa, sendo anti-católica e anti-monarquia, fomentou o Iluminismo e a Revolução Francesa. Que vários maçons encerraram seus dias embaixo da lâmina da guilhotina, isto não passou de mais uma das ironias do destino 😛 Já que o objetivo principal das cúpulas maçônicas é sempre a obtenção de *mais pudêrrr*, então não é impossível, nem inesperado, que eles se utilizem do fanatismo materialista e anti-religioso como instrumento de subversão.

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      • Eu também pensei nisso, JMK.
        Acaso vc já assistiu a palestra na OAB q o Olavo de Carvalho dá sobre a Nova Ordem Mundial? Ele diz q os meta-capitalistas q vivem na aristocracia de hoje são tão cínicos q não se importam em se valer do comunismo para alcançarem uma subversão bem sucedida. Mas sobre a maçonaria Olavo disse q realmente NÃO DÁ pra rastreá-los. Ele diz q não dá pra julgar generalizando, porque uns maçons são bem intencionados, outros não. E ele disse q o problema não estaria na ordem como um todo, mas estaria com DETERMINADA pessoa, ou pessoas. Caso não tenha visto o vídeo q falei, aqui vai ele:

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