Os libertários fundamentalistas como idiotas úteis da direita (e da esquerda)

16
11

Sempre que me afirmam que o libertarianismo é uma ideologia de direita, torço o nariz. Basicamente, o libertarianismo é uma variação bizarra do esquerdismo, que levou o mito central da religião política (a crença no homem) a um outro patamar. Mais que isso. Fizeram um reviralho geral no mito da perfectibilidade humana.

É mais ou menos assim. Imagine se todos tomássemos por base o teísmo padrão, do cristianismo, judaísmo e islamismo, de que há um Deus criador de tudo, infinitamente bom e que se preocupa conosco, e que há um céu e um inferno, sendo o céu o lugar para os crentes em Deus e o inferno para os não crentes. Imagine agora que surja uma nova religião dizendo que há um Deus, com a maioria dessas características, mas que este Deus mandou tocar o terror, e para quem fizer isso direitinho há o céu, mas o inferno está reservado para os que se comportarem bem.

Basicamente, o libertarianismo faz a mesma coisa com o mito da perfectibilidade humana, que eles aceitam de forma apaixonada. Só dessa forma podemos aceitar que é possível uma sociedade totalmente desregulada (em alguns casos, até sem a existência da polícia) em um mundo como o nosso, com tanta tecnologia de morte à disposição. Se antes a vida tribal e sem leis era perigosa, hoje seria muito mais.

Por isso, não dá para definir os libertários senão como utópicos, e, como tal, adeptos da crença no homem. Uma sociedade definitivamente sem estado (ao passo que o conservador pede um estado mínimo, não ausência de estado), que só pode ser viável se nutrirmos confiança no homem.

Mas é aí que surge o pulo do gato: mesmo confiando no homem, os libertários (esquerdistas no “core” de sua cosmovisão) fazem tamanho reviralho com esta crença, que esquecem-se que ela tem apenas uma serventia: dar poder aos interessados em poder totalitário. É justamente aí que eles, de forma rebelde, ignoraram a parte principal do programa para os funcionais. Com este programa, o esquerdista pode até dizer que luta por um estado inexistente (como os marxistas), mas somente após a ditadura do proletariado – ou seja, o “futuro sem estado” é a cenourinha atrás da qual os esquerdistas funcionais correrão, mas qualquer pessoa sem retardo sabe que no fundo o que importa mesmo é o estabelecimento do estado gigante, como ocorreu na Rússia e China. Mas ao fugir do programa, o libertário já cai na luta pelo estado praticamente inexistente, e com isso sua crença possui um ar de direita.

É mais ou menos como o budismo, que muitos chamam de religião ateísta, no contexto em que eles acreditam em espiritualidade, mas não acreditam em Deus.

Pela manutenção deste perfil híbrido e bizarro, quando abre a boca para falar, geralmente um libertário acaba ajudando a esquerda em algumas vezes, mas em outras vezes ajudando a direita.

Por exemplo, vários libertários, como Rodrigo Constantino e Daniel Fraga (foto), possuem tamanha ojeriza da religião tradicional que passam grande parte de seu tempo lutando contra ela, fazendo a alegria dos marxistas culturais (especialmente os neo ateus), que colocaram entre suas prioridades derrubar a religião cristã. Em momentos como esse, podemos chamar pessoas como Constantino e Fraga de idiotas úteis da esquerda. Eles estão falando, e a esquerda dizendo “continuem assim mesmo, mais, mais!”.

Por outro lado, em sua luta contra o estado inchado, os libertários apontam todos os equívocos possíveis demonstrados nas formas tradicionais da esquerda, como o marxismo e o estado do bem estar social, mostrando as falhas destes sistemas. Nesse ponto, ajudam a direita. Muitos libertários são especialmente talentosos nas críticas aos governos de esquerda, especialmente os totalitários.

Colocando as coisas na balança, o que fazemos com os libertários? A resposta é simples: usemos eles como nossos idiotas úteis também.  Sabemos que a utopia de um mundo “sem estado” é infantil, mas também sabemos que a utopia marxista “da sociedade com estado inchado, para depois entregar (haha) o poder ao povo, quando não existirá mais estado” é muito pior. Que usemos as críticas (boas) que eles fazem ao marxismo, enquanto rimos na cara deles enquanto defendem a utopia anarco-capitalista.

E, justiça seja feita, alguns libertários são moderados e, nesse caso, a maioria deste texto não se encaixa a eles. Os libertários moderados não são foco de minha análise, mas sim os fundamentalistas.

Essa espécie híbrida, de essência esquerdista, mas uma rebeldia ao pensamento consequente da esquerda, pode ser muito útil quando está atacando o esquerdismo tradicional. A dica é utilizá-los como idiotas úteis da direita nesses momentos, pois, em outros, a esquerda os está usando como idiotas úteis também.

O negócio é usar e jogar fora.

Anúncios

16 COMMENTS

  1. Com todo o respeito ao trabalho deles, e apesar de eu gostar do que eles escrevem – especialmente sobre Economia -, eu li este post pensando em Rodrigo Constantino e em Flávio Morgenstern. Eles atuam – o Constantino que o Morg, é preciso frisar – em muitas oportunidades como idiotas úteis à esquerda, quase todas elas relacionadas a eventuais libelos antirreligiosos que escrevem.

    Os dois são ateus; não são, a rigor, neoateus, mas resvalam no discurso neoateísta de vez em quando. O Flávio com muito menos frequência que o Constantino, que acho limitado fora do campo econômico e menos versado em Filosofia. O Morg tem um treinamento filosófico mais completo e conhece William Lane Craig e os quatro cavaleiros do neoateísmo. Apesar da arrogância (já disse que Craig “não aguenta 5 minutos de porrada” com ele), ele tem noção do que difere o ateísmo do neoateísmo, e sabe que este é de extrema-esquerda. Mas ainda sim, de tempos em tempos, ambos atacam e ridicularizam a religião e os religiosos.

    E, igualmente, vivem zoando e desmoralizando os poucos conservadores de renome que restaram, sendo sua “vítima” preferencial o Olavo de Carvalho. Talvez porque ele seja o maior dos intelectuais brasileiros de matiz conservador que restaram. E nessa empreitada usam de todo o repertório da esquerda, que, por sinal, conhecem bem: falácias, estratagemas erísticos, rotinas de controle de frame como as mapeadas por você… e a impressão que eu tenho é que a “direita” no Brasil se resume a isso, porque todo o pessoal do Mises Institute, do Instituto Liberal e do Instituto Millennium têm perfil muito similar.

    É triste… a esquerda, por incrível que pareça, é mais dividida que a direita. Esta tem dois grandes blocos bem divididos: a direita liberal e a direita conservadora, que são os únicos grupos com várias diferenças de base irreconciliáveis entre si. As divisões internas desses dois blocos existem, mas as diferenças são de menor relevância. Oposição, mesmo, ali nos alicerças, é entre conservadores e “liberais”.

    Já a esquerda tem blocos muito mais compartimentados, com diferenças bastante contundentes entre si: humanistas (na acepção do termo que você usa); marxistas “puros”; marxistas-leninistas; trotskystas; maoístas, apesar desses terem se diluído em outras correntes; gramscianos “puros”; marxistas culturais “puros”; marxistas culturais que buscam mesclar a Escola de Frankfurt e seus caudatários com os ensinamentos de Gramsci e Lúcaks. Enfim, a fauna é mais diversificada.

    Mas essa cizânia só aparece, na disputa política, no âmbito interna corporis; perante a platéia e, sobretudo, contra “a direita”, essa galera toda marcha em ordem unida. Roupa suja eles lavam em casa; da porta para fora, tudo é coordenado, esquematizado e feito “for the greater good”, já que é da própria natureza deles a centralização do poder na mão de uns poucos. Vejam o PT: tantas correntes se degladiando lá dentro, vozes em uníssono aqui fora.

    Enquanto isso, “liberais” e “libertários” empenhados em batalhas políticas fratricidas…

    • Thiago – RJ

      Só uma observação:

      Esta tem dois grandes blocos bem divididos: a direita liberal e a direita conservadora, que são os únicos grupos com várias diferenças de base irreconciliáveis entre si.

      Na verdade, infelizmente existe também a “extrema-direita”, mas que na verdade, como o Luciano Ayan mostrou ela é mais de esquerda… há outras coisas que assemelham a “extrema-direita” com a esquerda também: assim como a esquerda tem sua eterna cisma com capitalismo, a “extrema-direita” tem sua eterna cisma com judeus.

      Assim como a esquerda odeia o cristianismo mais do que tudo, o pessoal da “extrema-direita” também o odeia, pois acreditam ser uma “conspiração judaica/sionista”, “que enfrequeceu o povo Ocidental”, “que é incompatível com o Ocidente”, “que destruiu o espírito ocidental” e que “Jesus era gay”.

      Essa “extrema-direita” também odeia negros e vivem culpando negros e judeus por tudo de ruim.

      Enquanto que nós da direita tradicional não somos assim, mas podemos sim, é claro, mostrar que há negros que não são santos, que são até racistas com os brancos e que atacam muitos brancos inocentes como fazem na África do Sul e nos Estados Unidos e que existem alguns judeus que fazem coisas muito erradas também (ainda mais na política) e se acham. Isso não é ser racista e nem nazista, pois muitos provocam sim.

      Mas o problema é a generalização desse pessoal todo da “direita-raivosa” e o ódio que eles mostram, sem contar que muitos negros e judeus fizeram coisas boas também e até tem coisas em comum, como a perseguição que sofreram.

      Muitos também ficam falando que a raça branca vai acabar (o que em teoria pode acontecer), mas se analisarmos bem, quem está promovendo muitas coisas como aborto, feminismo, casamento gay, multiculturalsimo e anti-cristianismo são pessoas que, em sua maioria das vezes são brancas e que estão se desviando e muito os valores ocidentais cristãos.

      Como foi mostrado no Blog do Mr. X.: “O progressismo é branco”

      http://blogdomrx.blogspot.com.br/2011/07/o-progressismo-e-branco.html

      • Adalberto,

        Eu deixei de fora tanto a extrema-esquerda quanto a extrema-direita, de propósito, por considerar que ambas são degenerações advindas de distorções que beiram o patológico de algumas ideias-força mais marcantes.

        Como direitista conservador, é claro que – e admito minha falta de equidade neste ponto – vejo um marxista-leninista “normal” muito próximo de um esquerdista radical, da mesma forma que os humanistas também podem se tornar bem extremos (os neoateus são os melhores exemplos). É uma distância, na minha opinião (que não, não é isenta), muitíssimo menor do que aquela que separa um extremista de direita de um conservador normal – e por normal, quero dizer mentalmente equilibrado.

        Veja que o conservador está mais distante da esquerda (ou do “centro”, o que quer que isso seja) do que dito liberal, o que, logicamente, o coloca, sim, mais próximo da extrema-direita. Mas essa proximidade é relativa: em termos de distância absoluta, eu faria a medição em parsecs. Já a distância entre o extremismo esquerdista e várias das espécies esquerdistas pode ser medida em algumas centenas de metros…

        Mas, no fim, acho que algumas coisas tendem a não ser tão lineares, mas circulares: na ponta, há muitas interseções entre os extremismos de esquerda e de direita, sendo que eles compartilham do mesmíssimo elemento emocional, utilizado como força-motriz: o ódio. Um redneck racista, machista e xenófobo tem muito em comum com vários tipos de esquerdistas: um neoateu humanista que investe tempo e esforços para violentar verbal e mentalmente as religiões e os religiosos; um revolucionário leninista ou trotskysta que odeia tanto a “sociedade burguesa” e os “burgueses” que pega em armas para, pura e simplesmente, exterminá-los; um gayzista ensandecido em luta contra a “heteronormatividade”… os exemplos são muitos.

        Eu deixei os extremistas de fora porque quis fazer uma comparação entre coisas que podem ser tomadas, objetivamente, como estando dentro da normalidade. Ainda que eu, subjetivamente, não considere como normal nenhum esquerdismo…

  2. Por Zeus, a bronca de vocês em escrever um artigo paupérrimo como esse é por conta do desprezo que temos em relação às religiões. Nenhum libertário que se preze irá se opor à crença de outrem (muito pelo contrário, cada qual que exerça sua individualidade como bem entender), então fiquem tranquilos. Não fomentar e não entender que essas crenças – milenares ou não – sejam essenciais e obrigatórias pra formação moral e intelectual de um povo, daí já é outra coisa. Ninguém quer proibir nada: se você se sente bem indo ouvir o sermão do Padre enquanto deseja a mulher do seu vizinho, amém! Fundamentalista seria alguém que desejasse extirpar esse costume, o que não é o caso. Não há fundamentalismo algum aqui, e sim divergência de opiniões. Em uma sociedade livre, todo mundo tem que saber lidar com isso.

    De resto: buscamos sim a redução do Estado e desregulamentação esdrúxula da sociedade, mas isso não significa que acreditamos em utopia e muito menos em revoluções para alcançá-las. Novamente, nenhum libertário que se preze entende que do dia para a noite tudo deverá ser derrubado, todas as instituições destruídas e um novo mundo irá surgir, onde ng usará nem lei nem força e não haverá Estado.

    Resumo do artigo: esses “mitos” e “fundamentalismos”, se existem, contemplam uma pequena e insignificante parte dentro do libertarianismo. Mas pra saber se somos “de direita ou não”, só definindo muito bem o conceito… o que certamente não agradaria a gregos e troianos.

    Abraços!

    • “nenhum libertário que se preze entende que do dia para a noite tudo deverá ser derrubado, todas as instituições destruídas e um novo mundo irá surgir, onde ng usará nem lei nem força e não haverá Estado. ”
      —————————–
      Frequentei por alguns meses o site do Mises Brasil, li muita coisa lá e vi muitos comentários e a impressão que me ficou foi exatamente o contrário da acima: os libertários creem que o estado deve cair de um dia para o outro, abruptamente. Não aceitam nenhuma forma de atingir seus objetivos por etapas como seria o caso de aceitar inicialmente uma minarquia.

  3. pelo jeito você mudou de ideia no novo artigo.
    não existe libertarianismo de esquerda, esse pessoal idealizou uma direita estatizante sem sentido que é um espantalho, tipo um Pinochet.
    Eu criei outro diagrama que coloca o Estado mínimo no centro e ao redor os serviços assistencialistas periféricos que dependem deste mesmo estado mínimo para serem implementados. Ou seja, liberal de esquerda é inversão de culpa. São histéricos que protestam contra o autoritarismo da família tradicional, da igreja, do estado mínimo e com sua dialética (tal como uma reversal russa) só faltam denunciar os males da ditadura da liberdade.

  4. normal os libertários agirem deste jeito esquerdista.. Já li em algum lugar que “o libertarianismo é uma espécie de doutrina esotérica. Só os iniciados a conhecem e têm o direito de opinar sobre a mesma”… Leandro Roque, Chiocca, Rodrigo Ulrich, etc. que o digam! Até camisetas com os nomes deles formando a palavra “Austrian” eles fizeram!

  5. Espero que você tenha mudado de ideia em relação a esse texto, o tanto de desconhecimento dele em relação ao libertarianismo é impressionante.

    A filosofia política libertária é a menos utópica de todas. Todos os outros regimes precisam confiar cegamente em alguns seres humanos. A democracia é isso, santificar os políticos, dizer que eles são incorruptíveis, ou o rei na monarquia. Essa é a condição básica para a estatolatria.

    O libertarianismo é diametralmente o oposto. Já que a humanidade não é boa, não vamos dar o monopólio da violência para ninguém, cada um que cuide de si mesmo e quem tentar cuidar da vida dos outros sem a vontade dos proprietários originais, será violentado.

    Esse texto me dá preguiça, é tanto erro… Poderia escrever um livro só para refutá-lo. É um texto puramente tático, sem a substância da verdade. O autor desse blog vendeu sua alma ao jogo político, aos fins que justificam os meios.

    • “O libertarianismo é diametralmente o oposto. Já que a humanidade não é boa, não vamos dar o monopólio da violência para ninguém, cada um que cuide de si mesmo e quem tentar cuidar da vida dos outros sem a vontade dos proprietários originais, será violentado.”
      —————————-
      Supondo um mundo libertário, se eu resolver matar meu vizinho e toda a sua família não deixando qualquer outra pessoa prejudicada em virtude desses atos, pois que eu honraria todos os compromissos que o morto assumiu, eu poderia continuar minha vida normalmente, sem temer qualquer reação? É uma dúvida honesta da minha parte, não é uma provocação.

      • Não, alguns libertários(como eu por exemplo) usam o “Princípio da não agressão” para explicar esse tipo de situação. Resumidamente e isso vai por agua abaixo o texto acima, os libertários assim como os liberais tem por principio moral da relação de propriedade privada, ou seja, se você invadir a propriedade do outro visto que a primeira propriedade que todos possuimos é o seu próprio corpo, você terá de pagar na justiça pelo crime que você cometeu. Tanto não cremos no fim do estado que acreditamos que o estado tem um alto senso de responsabilidade de prover sistemas judiciais que conduzam o país de forma livre(liberdade de propriedade e econômica) para todos os indivíduos(a palavra povo não é muito agradável aos libertários pois acreditamos nos individuos).

        Acho que consegui sintetizar a idéia.

Deixe uma resposta