As prostitutas da filosofia

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Resolvi adentrar a um site de acompanhantes para coletar declarações de algumas das meninas por lá. Mesmo que as frases sigam um padrão, que provavelmente nem tenha vindo delas, é interessante a análise:

  • Anita: “Venha me conhecer. Você não vai se arrepender!”
  • Manuela: “Acompanhante de alto nível para pessoas de bom gosto.”
  • Wanessa Lima: “Destaque da Revista Sexy do mês de Junho/2010”
  • Aline: “Ex-Miss e modelo. Venha me conhecer”

O que há nisso tudo acima? Simples. O ato de alguém se vender ao outro através do uso de palavras (pelo menos no caso delas, existem as fotinhas também). Todas as palavras proferidas, de auto-elogio, tem tudo a ver com o que falei no passado ao tratar as rotinas Self-Selling Pessoal e Self-Selling Grupal.

Alguém poderia protestar: “Ei, Luciano, isso não ocorre em todas as profissões?”. Nem tanto, embora seja verdade que nas entrevistas de emprego os candidatos tenham que inevitavelmente recorrer aos auto-elogios. Mas, após a contratação, isso deve parar. Tanto que no dia-a-dia corporativo é melhor ver alguém afirmar “as pessoas que estiveram comigo neste projeto me ajudaram muito” do que “eu sou mais capaz que os demais que atuam aqui”.

O processo de auto-venda, no entanto, é algo que permeia a vida de todas as prostitutas, pois elas não estão vendendo um produto. Estão vendendo o próprio corpo. Em resumo, estão vendendo a si próprias. A cada turno, começa um processo de auto-venda que terminará quando ela retorna para casa (isso quando ela não atende por lá mesmo), e recomeçará no próximo.

Não quero usar nenhum senso de moralismo por aqui, e não tenho nada contra a profissão de prostituta. Aliás, é a profissão mais antiga da humanidade. Mas também não é algo de que alguém deveria se orgulhar.

Outra profissão onde a auto-venda é essencial é a área da política pública. (O que é bem diferente dos debates em qualquer nível, onde a maioria dos debates é política)

Mas de 300 anos para cá, outra profissão onde a maioria de seus integrantes é focada em uma auto-venda obsessiva é a de filósofo. Especialmente depois do Iluminismo, a idéia de executar uma série de pensamentos e proposições para se tentar alcançar a verdade (independente disso ser possível ou não, independente de alguém estar iludido por dogmas ou não) foi deixada de lado. A onda agora é “se vender”.

Saem de cena os argumentos complexos e entram em jogo truques semânticos e jogos linguísticos para tentar convencer o leitor com propagandas como “eu sou mais racional”, “estou do lado dos pobres”, “estou do lado da humanidade”, “estou do lado da ciência” e uma série de rotinas de auto-venda que se repetem a exaustão a cada vez que abrem a boca para falar. A cada página escrita.

Isso nos leva a conclusão de que, embora algumas frases divertidas surjam aqui e ali, assim como algumas idéias realmente interessantes podem aparecer aqui e acolá, grande parte do material deveria ser objeto do ceticismo.

Quanto às prostitutas, elas não deixam o cliente experimentar e depois decidir se vai pagar. Elas fazem a auto-venda e o cliente é obrigado a pagar antes de provar.

Mas com filósofos que se comportem feito prostitutas (não são todos, mas a grande maioria), podemos fazer um “teste”, avaliando cada alegação e verificando se de fato eles são pertinentes. Ou seja, se “compramos” a propaganda de auto-venda.

Em um tempo no qual o território filosófico é dominado pelas prostitutas da filosofia, o ceticismo em relação à quaisquer propagandas de auto-venda é a única arma para não deixarmos nossas mentes serem transformadas em território improdutivo.

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5 COMMENTS

  1. Este vídeo dá uma ideia de como é a rotina diária (ou noturna) desse tipo de filósofo. Divirtam-se com o self-selling de um humanista! 🙂

    • O oposto de “noturno” é *diurno*, e não “noturno”. 😉

      Mas obrigado pelo vídeo “intereXXXAnte” =^.^=

      — sem dúvida o “protagonista” está em melhor forma 🙂 do que os transgêneros que faziam ponto na entrada da USP em pleno horário de *almoço*, em 1981 🙂

  2. A primeira frase deste post pode render uns dois posts lá no Mensalão… hauahuhauhua

    Sobre a auto-venda, é interessante que para esses filósofos, a validação de seus argumentos está baseada na auto-venda, e não em seus argumentos. Se o cara diz “estar do lado da razão”, automaticamente seus ouvintes irão assimilar tudo o que ele disser como verdade, mesmo que seja ilógico, raciocínio circular, ou uma conclusão sem premissas válidas.

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