Relembrar é viver: entrevista ao site Teismo.Net

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Em 13/02/2011, Snowball (do blog Quebrando o Encanto do Neo Ateismo), me entrevistou para o site Teismo.Net. Como tanto o site como o blog do Snowball estão hoje em dia desativados, achei interessante recuperar a entrevista e publicá-la aqui. (Como o blog do Snowball está indisponível, acabei achando o material no site Realidade.org).

Em azul, meus comentários atuais, mostrando um ou outra retificação que possa ser necessária, pois revisei algums opiniões minhas em comparação a 1 ano e meio atrás.

Introdução de Snowball

Luciano Ayan é um dos mais antigos refutadores do neo-ateísmo em redes sociais. Tudo começou com seu Neo-Ateísmo, Um Delírio até evoluir para o atual Luciano Ayan. Não seria exagero dizer que a partir da atuação dele em divulgar suas idéias e seu método de aplicar o ceticismo nas alegações neo-ateístas muitos outros passaram a o fazer da mesma forma, mudando o paradigma de debate nessa questão. Dessa forma,  uma entrevista com Luciano não poderia deixar de ser feita. Hoje também a data na qual ele passou a ter um domínio .com.br – http://lucianoayan.com.br/ – fato que também merece destaque.

Nessa segundo entrevista do site, falamos sobre neo-ateísmo, iluminismo, esquerda, Libertarianismo, John Gray, Richard e Dawkins e Carl Sagan! Não perca!

Luciano, você se tornou, sem dúvida alguma, uma das principais referências sobre refutação ao neo-ateísmo na internet. Não é um erro dizer que graças ao seu esforço outros sites na mesma linha surgiram. Dessa forma, começo com a mesma pergunta que fiz para Paulo na primeira entrevista: quando surgiu a idéia de criar o seu blog?

Primeiro de tudo, obrigado pelas palavras. E realmente quando iniciei as atividades do blog, não via outros sites tentando realizar esse tipo de abordagem. Geralmente, era no máximo uma argumentação apologética, mas nada focado em refutação e contra-ataque direto ao neo ateísmo. Hoje em dia, existem vários blogs nessa linha. Se eu tive uma ação influenciadora, isso é algo que eu não tinha previsto inicialmente, mas aos poucos assumi realmente a idéia de que precisávamos nos portar como um movimento, pois o que estamos combatendo é um movimento ideológico contra nós. Eu debatia em fóruns da Internet, principalmente o Orkut, há pelo menos uns 5 anos. O tom também sempre foi de refutação, mas reconheço que o blog tenha uma estruturação mais formal de refutação. A idéia surgiu com a leitura de livros de autores conservadores, e poucos deles focados em refutar o neo ateísmo. A maioria deles refutava a ideologia esquerdista. Entre eles incluo Olavo de Carvalho, Ann Coulter, Glenn Beck. Após assistir a um vídeo que trazia Olavo de Carvalho esculachando Richard Dawkins e sua turma, pensei comigo mesmo: “É preciso dar um foco maior nisso”. E aí surgiu a idéia de criar o blog. Não posso esquecer que na mesma época também li “A Verdade sobre o Cristianismo“, de Dinesh D’Souza, que me influenciou muito no início. É desse livro que li uma frase muito importante, que dizia mais ou menos assim: “Em tempos em que o cristianismo está sob ataque, não é hora de mansidão, mas sim de expulsar os gentios do templo“.

Hoje em dia eu ainda acho interessante o material de Dinesh D’Souza, mas não tanto do livro “A Verdade Sobre o Cristianismo”. Acho equivocado o fato de Dinesh criticar o ateísmo, quando na verdade deveria ter atacado o humanismo. Uma influência que eu esqueci de citar nesta época foi de David Horowitz, de quem traduzi seu livro mais influente para mim, “A Arte da Guerra Política”, cuja tradução pode ser consultada aqui.

O blog alcançou sucesso imediato ou demorou para ficar conhecido? Se não havia nada assim no Brasil, algum site americano abordava uma linha parecida com essa?

Eu cheguei a ver um site norte-americano, Investigating Atheism, que é de universitários de Cambridge. Mas é um site, digamos, mais “light” que o meu. O site começou em agosto de 2009, e já tinha uns 300 a 400 acessos por dia 4 meses depois.

Sem dúvida, um ótimo indice para um site independente. Mas isso se deveu pela qualidade do seu trabalho. Algo que eu achei particularmente interessante foi um método que até então era completamente novo – ao menos dentro do meu círculo de conhecimento – no que tange ao duelo ideológico: o uso do ceticismo puro e simples por parte dos teístas. Normalmente ouvimos dizer que a postura cética é contra a religião. Mas você nos ajudou a entender que ele é um antídoto muito mais poderoso ainda contra o neo-ateísmo ou contra o ateísmo popular. Você fez alguma preparação ou estudo sobre princípios de investigação antes de começar o blog?

A noção de que o ceticismo pertence a ateus é oriunda de um erro praticamente linguístico. Ele se baseia no uso de frases curtas, intencionalmente mutiladas, para fins de propaganda. Um exemplo disso é a expressão “Eu faço”, que é totalmente diferente de “Eu faço pizzas” ou “Eu faço pastéis”. O neo ateu (assim como qualquer humanista), usa e abusa deste recurso de mutilar a frase para vender a idéia de que o ceticismo é inerentemente ateu. Para isso, mutilam a frase “Eu não acredito em Deus” para “Eu não acredito”. Aí, tecnicamente, alguém que não acredita em absolutamente nada só poderia ser um cético absoluto. Mas naturalmente essa idéia que vendem não tem nenhuma conexão com a realidade. A questão a partir disso fica mais fácil. Temos argumentos para a existência de Deus, e argumentos contra a existência. Assim como em qualquer questão a ser discutida, a ausência de posicionamento não é uma alternativa para a discussão. A simples tomada de posição entre escolher a alternativa da crença em Deus como a alternativa da ausência de crença em Deus não é o suficiente para configurar ausência ou não de ceticismo. Foi aí que comecei a notar que os neo ateus, mesmo alegando serem céticos, eram não só extremamente crédulos como absolutamente irracionais. A quantidade de alegações que faziam é impressionante, e foi aí que comecei a pescar algumas idéias do uso do ceticismo corporativo, que surgiu por causa de minha experiência como Consultor e Gerente de Auditoria, assim como influências do James Randi, que, aliás, era ateu.

Do Randi, eu particularmente gostava do modelo incisivo de questionamento, detalhando pedaço a pedaço uma alegação. Eu via no site dele o como ele pegava uma alegação de alguém que fazia leitura na borra de café e colocava a alegação em pedaços. Tecnicamente, gosto desse modelo para avaliar as alegações neo ateístas. Por exemplo, quando Richard Dawkins diz que o gregarismo da espécie humana diminuiria com o fim da religião, isso é uma alegação, e tem que ser investigada. Quando um neo ateu diz que refletiu mais para chegar ao ateísmo, isso é também uma alegação.

Qualquer afirmação que o ser humano utiliza para posicionar a si mesmo no mundo é uma alegação. E toda alegação deve ser colocada sob investigação. Vamos a um exemplo do passado. Comunistas usaram a idéia de que “representavam o povo” para chegar ao poder. A alegação de que se “representa” o povo deveria ter sido mais questionada. Muitos neo ateus dizem que “usam mais a razão”. Questionemos, portanto, essa alegação. Comecei a notar que sob estrito questionamento, eles começavam a ficar encurralados. Foi aí que veio a idéia: se é isso que sempre funcionou para os melhores auditores (a quem eu devo respeito), por que funcionaria diferentemente com o neo ateísmo ou qualquer grupo ideológico que tenta se impor? Na minha opinião, esse é o melhor caminho para a investigação ideológica. Acho que a frase que mais gosto é: “Alegou? Agora prove”. E isso vale tanto para a atividade profissional como o debate argumentativo.

Esse último parágrafo, em especial, tem tudo a ver com a criação de meu paradigma central, o ceticismo político.

E, partindo desse tipo de pensamento, você começou a analisar não só “chavões” neo-ateus, mas os próprios autores. O mais extensivamente analisado até agora foi Richard Dawkins, cujo livro “Deus um Delírio” sofreu uma crítica quase “parágrafo por parágrafo”. Você acha que Dawkins é o “pior” em termos intelectuais ou de influência? Nesse processo, você chegou a alguma conclusão sobre o porquê do livro fazer tanto sucesso, mesmo contendo erros lógicos crassos?

Hoje em dia, claramente Richard Dawkins é o “pior” por causa de sua influencia. Mas antes, podíamos citar o Carl Sagan, que fazia o lado “good guy”, mas era também um mentiroso de primeira. Em relação ao Dawkins fazer sucesso, acho que funciona o mesmo princípio que funcionou para o Carl Sagan. Uma parte da propaganda anti-religiosa é dizer que o religioso vive “nas trevas”, enquanto que o ateu seria alguém “da razão”. Esse é o truque iluminista que eles aprenderam e não largaram até hoje. Logo, cataliza-se a atenção para “cientistas” que seriam advogados da causa anti-religião. Essas pessoas são elencadas não por sua produção científica (que quase sempre é nula), mas sim por unirem os atributos “cientista” e “anti-religioso”. Dawkins já fazia sucesso em 1976 com o livro “O Gene Egoísta”, uma teoria completamente pseudo-científica que só serviu para reviver o atomismo, de Demócrito e Epicuro, em um formato diferente. Antes, o foco era na “intenção” dos átomos. Com Dawkins, o foco era na “intenção” dos genes. No fim, é tudo picaretagem, que não serve nem como discurso filosófico e nem como científico. Para a patuléia neo ateísta, isso não importa nem um pouco, pois ele será endeusado. O fato é que ao lermos “Deus Um Delírio” com atenção, podemos encontrar uns 20 a 30 estratagemas por capítulo. Acho que é justamente por isso, por mentir tanto, que seus leitores o adoram.

Carl Sagan apresenta um comportamento estranho. Apesar de passar uma imagem de “tolerante” e “agnóstico”, ele ajudava com seus slogans (do tipo “Um religioso acredita por uma profunda necessidade de acreditar, eu não”, que é uma leitura mental, e “Você pode fazer duas coisas se seu filho ficar doente: ir ao médico ou ficar em casa rezando”, que é uma falsa dicotomia) a disseminar a idéia de oposição entre Razão e Teísmo ou entre Ciência e Religião. Ainda hoje vemos algumas tiras e outras manifestações que expressam esse tipo de pensamento – sempre com um dedinho do Sagan estando aí por trás, de alguma forma, visto que ele ajudou a propagar essas idéias.

No ponto em que fraudes desse tipo já estão quase como senso comum, que tipo de papel um teísta pode ocupar para ajudar a passar uma borracha nessas pressuposições falhas?

Vou contar uma história que eu vivenciei corporativamente, para ilustrar como eu penso que devemos reagir. Uma vez eu gerenciei uma equipe de consultores em um projeto de revisão de processos. Um dos gerentes sênior teve vários deslizes cometidos por ele descobertos durante a fase de levantamento e auditoria que fizemos. A partir disso, ele tomou uma posição padrão, que era de tentar tirar crédito do trabalho de consultoria e auditoria que estava sendo feito, e para isso elencou a líder de equipe que eu tinha eleito. Ele começou a difundir a idéia de que ela tinha se recusado a passar alguns documentos padrão e se negado a auxiliar durante um processo. O engraçado foi que o gerente sênior começou a suar frio a cada solicitação de evidência de que ela tinha agido do jeito que ele tinha alegado. Obviamente, ele estava mentindo. Aquela sessão de questionamento estava definindo que ele era o mentiroso tentando salvar a sua pele e tentando sabotar um trabalho de consultoria. Se eu não tivesse feito esse questionamento, provavelmente meu projeto fracassaria, o desonesto ia se sair bem, uma excelente profissional iria pagar o pato e a empresa perderia dinheiro. Jogos políticos desse tipo são feitos nas organizações todos os dias, e bons consultores com enfase em auditoria percebem isso rapidamente. E dentre esses jogadores, existem aqueles que agem de forma explícita e os mais dissimulados. No jogo de Carl Sagan, ele optou pela postura mais dissimulada. É o tal perfil “amigão”, mas que no ato de se difamar alguém ou um grupo para tirá-lo de seu caminho, ele executa o mesmo papel que Dawkins hoje faz. Eu diria até mais: pela sua dissimulação, ele poderia até ser mais eficiente. Por exemplo, esse gerente sênior poderia ser mais pacificador e realizar suas difamações nas entrelinhas. Daria até mais trabalho para descobrir seus truques. Entretanto, auditores estão treinados até para esse tipo de dissimulação. Naquele exemplo do jogo corporativo, se eu não tivesse percebido o truque em tempo, facilmente cairia no senso comum da organização a idéia de que “a líder de projeto era sabotadora” e que o gerente sênior era “vítima da sabotagem”. Eu recomendo o livro “Jogos Políticos nas Empresas“, de Mauricio Goldstein e Philip Read, que pode ajudar a quem quiser antídotos contra esse tipo de jogo. E o livro mostra informações importantes, vindas de vários CEOs: em algumas organizações, existem executivos que gastam grande parte do seu tempo jogando. Da mesma forma que os jogos políticos ocorrem nas empresas, eles também ocorrem no cotidiano político, e é aí que gente como Carl Sagan executava o seu papel de jogador. Quando lemos gente como William Lane Craig, vemos uma argumentação honesta, não panfletária, focada em dialética. Já quando lemos Carl Sagan, o que temos era um sujeito que fazia seu jogo político anti-religioso.

Você acha que ele executava de forma consciente o papel dissimulado?

Eu não tenho dúvidas quanto a isso. Pessoas como Carl Sagan e Richard Dawkins participaram de vários fóruns com religiosos. Por isso, Sagan sabia que a religião não era do jeito que ele a apresentava. Se Sagan não tivesse acesso à esse conhecimento, é claro que poderíamos achar que ele estava “enganado”. Mas ele tinha a informação. Aliás, um dos fatores que ajuda a levantar suspeitas sobre um fraudador corporativo é quando este age como não tivesse uma informação que ele realmente possui. Voltando ao exemplo da investigação corporativa. Tínhamos um gerente que dizia que não recebia o status dos projetos sob andamento, mas descobrimos que as atas de reunião provavam o contrário. Ele tinha acesso a uma informação e comportava-se como se não tivesse e aí passava a exprimir suas opiniões de forma enfática. Jogo político, naturalmente. Sagan com certeza discutiu com líderes religiosos que lhe diziam o quanto é importante usar a razão e a argumentação para estudar a Deus. E o que ele fazia? Chegava em público e dizia que “a religião proíbe questionamentos”. Ou seja, é jogo político e dos mais sujos.

Eventualmente, seu blog cresceu. Ele deixou de ser focado apenas no neo-ateísmo e passou a falar da esquerda em geral. Nos seus estudos, você encontrou pontos de encontro entre essas ideologias, uma vez que trata desses diferentes temas em único blog?

Muitas vezes tratamos Dawkins e seus leitores como representantes do neo ateísmo. Essa é uma definição boa para trabalho investigativo. Mas aos poucos os estudos nos apontam que o neo ateísmo é apenas uma faceta mais radical da anti-religiosidade. O humanismo secular, por exemplo, é basicamente uma ideologia anti-religiosa, que usa diversos slogans da esquerda. Quando estudamos o passado das ideologias da esquerda, vemos também que a anti-religiosidade é um padrão inerente a esses grupos. O mais interessante é quando vemos que as próprias sub-ideologias dos neo ateus e humanistas também são totalmente alinhadas com as ideologias da esquerda. Se ambos possuem a mesma origem e possuem funcionalidades similares, então se forem investigados juntos podem resultar em análises mais completas. Curiosamente, foi depois de que ampliei os estudos sobre o neo ateísmo para também estudos sobre a esquerda, senti que foi ficando mais fácil prever comportamentos deles. Basicamente, são pessoas que vendem a idéia de um futuro utópico, isento de males. Este futuro será trazido por eles, claro, desde que eliminados os seus adversários, que são os conservadores, religiosos, etc. Essa é a descrição de um esquerdista padrão, e também de um neo ateu.

Eu considero que uma boa definição (embora um pouco mais técnica) de neo-ateísmo, para diferenciá-lo do ateísmo tradicional, seria um ateísmo militante baseado em humanismo iluminista com sua base moral de mente revolucionária. Até que ponto essa visão estaria certa ou errada?

Na minha opinião está quase certa. Eu diria só um pouco diferente. O neo ateísmo é o ateísmo militante baseado em humanismo iluminista e POR ISSO tem como base moral algo que atende o perfil da mentalidade revolucionária.

Falando em humanismo, que papel ideologias como o Humanismo Secular ocupam no “jogo corporativo” ideológico? Muitos gostam de dizer que “humanismo secular” não defende nem direita nem esquerda, só “direitos humanos para todos”. Não é exatamente o tipo de fraude de dissimulação que esperamos encontrar baseado nos seus exemplos anteriores?

Exatamente. Você acertou na mosca. É muito interessante alguém dizer que “não defende nem direita e esquerda”, mas só agir de acordo com os padrões da ideologia esquerdista. Visualizei isso em uma comunidade do Orkut, também de neo ateus, em que alguns se declaravam “libertários”. Curiosamente, odiavam gente como Glenn Beck e Ann Coulter, que tecnicamente defendem aquilo que os libertários querem, certo? É aí que a dissimulação ficava evidente. Mesmo que eles aparentem uma suposta neutralidade, eles se posicionam somente contra um grupo, justamente o da direita.

Minha crítica, neste ponto, foi não aos libertarios, mas sim a pessoas que se portavam como libertários mas dedicavam seu tempo mais para atacar a direita do que a esquerda. 

Glenn Beck e Ann Coulter não seriam exemplos de pessoas mais direcionadas ao conservadorismo do que ao libertarianismo, Luciano?

Foi por isso que mencionei “libertários” entre aspas. Voltando ao exemplo dos jogos políticos corporativos. Muitas vezes algumas pessoas podem ser movidas para um lado somente para ajudar ao outro lado. Alguns libertários (não todos) podem ir para esse lado. Vejamos o que seria um conservador. Se eu fosse viajar para Israel, eu iria respeitar o direito dos israelenses exibirem a estrela de Davi por lá. Entretanto, algumas pessoas, como Ayn Rand, ficaram tão obcecada em lutar contra a religião, que podemos definir que mesmo que elas pensassem ir a favor do livre mercado, estavam na verdade ajudando a esquerda. Na luta a favor da esquerda, existem vários “funcionais”. O “funcionais” não precisa ver o todo, somente a sua parte. Vamos resumir da seguinte forma. É como aquele funcionário que emite as faturas. Ele pode fazer o seu papel, embora na linha estratégica outros pensem de outra maneira. Se um ateu for de direita, ele teria que tomar a decisão lúcida de não executar ações que sirvam para favorecer a esquerda. E se a esquerda quer diminuir o poder das religiões, então o ideal seria ele tomar uma posição low profile em relação à religião. Mas aí surgiu um tipo específico de libertarianismo em que as pessoas poderiam continuar defendendo o livre-mercado e ao mesmo tempo criticando a religião. Ou seja, foi criado um perfil “funcional”. Foi por isso que citei a Ayn Rand. Tecnicamente, ela seria esse tipo de perfil. Pensa ajudar a direita, mas servia para ajudar a esquerda com sua anti-religiosidade. Na religião cristã, por exemplo, existe o mais poderoso dos argumentos contra a esquerda, através do estudo da natureza falível do homem. Esquerdistas não admitem esse tipo de crença. Ela é um impeditivo para a ideologia esquerdista. Mas eu reconheço que mesmo alguns desses “libertários” ainda acreditem que defendem a direita. É uma ingenuidade da parte deles.

Entendo. É como uma velha discussão sobre o papel do marxismo cultural.

Exatamente.

No seu trabalho, vemos influências de intelectuais como Olavo de Carvalho e William Lane Craig. Naturalmente, ninguém concorda com tudo que uma pessoa diz. Mas quais autores você considera importantes para o entendimento dos temas que você trata no blog ou para assuntos em geral? Na mesma linha, se você pudesse levar um – e apenas um – livro para uma ilha deserta, qual seria?

Sim, esses autores são influência, mas existem outros, como Dinesh D’Souza, Glenn Beck, Ann Coulter, Bernie Goldberg, Russel Kirk e vários outros. E, curiosamente, um dos autores que acho mais importantes para compreender o meu ceticismo quanto ao humanismo é um ateu, John Gray. John Gray não tem muitas palavras agradáveis em relação ao cristianismo, mas é muito mais letal em sua críticas ao humanismo. Acho que livros de Gray, como “Cachorros de Palha”, “Al Qaeda e o que significa ser moderno” e “Missa Negra” são essenciais nesse entendimento. A forma como Gray apresentou o seu ceticismo em relação ao humanismo é uma base sólida para montar um caso contra o humanismo. A partir daí, é só executar o ceticismo argumentativo. Em relação a um livro que eu levaria para uma ilha deserta? Seria “Dialética Erística”, de Schopenhauer. É um guia ótimo para investigações argumentativas. Muitos dos estratagemas neo ateus não passam de truques erísticos. Claro que um guia de falácias sempre é importante, mas a dialética erística é ainda mais profunda.

Luciano, algo que eu (e talvez vários leitores da mesma forma) espero saber é o seguinte: você pretende lançar um livro?

Sim, pretendo. Na verdade, já tenho um concluído e outro quase lá. Mas só quero estar pronto para lançá-los depois de revisões, pois uma coisa é escrever em um blog, em que um texto não possui compromisso direto com os anteriores e posteriores, e outra coisa é converter essas idéias em um livro. Prefiro não lançar expectativas de datas quanto a isso.

Aliás, os trabalhos prosseguem. Mas a coisa ainda segue sem data. A diferença é que o trabalho é baseado em uma trilogia.

Quais os principais temas que você desenvolveu nesses dois livros? A sua linha de pensamento mestra se orienta em que direção nas críticas dos livros que virão?

Vou explicar um pouco mais sobre esses projetos. Minha primeira idéia de livro seria um refutando “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins. Uma prévia do que poderia ser está na seção do meu blog nos vários capítulos em que critico, ponto a ponto, o livro dele. Mas aos poucos comecei a mudar de idéia, pois aquilo que funcionou bem no blog talvez não funcionaria tão bem em um livro. Além do mais, um livro de umas 600 a 700 páginas somente para refutar um outro livro seria um excesso. Foi quando comecei a escrever um livro sobre a refutação ao neo ateísmo como um todo. A espinha dorsal dele está na série “Desvendando a Ilusão do Neo Ateísmo”, que publiquei no blog. Mas aquilo que está no blog é só a idéia inicial, e a versão do livro é mais complexa, estruturada e apresenta um enfoque maior na origem iluminista do neo ateísmo. Eu concluí o primeiro draft deste livro na metade de 2010. Mas todo ele segue uma linha base que só é justificada a partir de uma defesa do ceticismo aplicado de forma metodológica ao estudo argumentativo. Foi aí que resolvi elaborar um livro que antecedesse minha refutação ao neo ateísmo. É um livro mais simples, mas que abre um “caso” a favor do ceticismo para se estudar argumentos. Novamente, muito do que está no site será utilizado no livro, em uma forma mais embasada, com mais exemplos, buscando uma facilidade ainda maior de leitura e conexão entre as idéias. Qual a principal diferença em termos de trabalho? Eu vejo que escrever no blog não requer tanto planejamento, mas para estruturar o livro eu uso técnicas, como elaborar um mapa mental antes, definir o que tenho que ter apresentado ao final de cada capítulo, etc. Foi aí que decidi levar um tempo maior para essa estruturação e revisão dos livros, e não setar uma data, e me preocupar mais com o conteúdo do blog. Mas o plano de publicá-los ainda segue de pé.

Muito interessante. Vamos todos esperar ansiosos pelo seu trabalho. Antes de terminarmos, uma pergunta fora de tópico: qual o seu hobby preferido?

Eu gosto bastante de cinema. Acho que se eu não tivesse um blog de religião e política, talvez tivesse um de cinema.

Algum filme em particular que mereça menções especiais?

Sobre filmes preferidos, deixe-me pensar. Eu gosto muito de “Apocalypse Now“, “Scarface” e os filmes de Martin Scorsese em geral. Atualmente, tenho dado atenção especial aos filmes de Christopher Nolan, principalmente o último, “A Origem“.

Nessa conversa, abordamos uma variedade de temas, desde o neo-ateísmo, passando por iluminismo, esquerda e projetos pessoais. Muito ainda poderia se falar, mas nossos leitores já devem estar satisfeitos. Luciano, muito obrigado por sua paciência e disposição em responder às perguntas. Digo, em nome de todos os seus leitores, que seu sucesso é merecido e torceremos para você no futuro. Minhas saudações.

Eu agradeço suas ótimas perguntas, e desejo todo o sucesso também ao site “Teismo.Net”. E aproveito para convidar cada vez mais leitores que se sintam estimulados a criar um blog, que o façam. E que sejam incisivos em suas respostas ao neo ateísmo. Assim como fiz o meu papel no exemplo que citei em que tive que defender uma funcionária que estava para ser trucidada corporativamente, sinto que esse é o tipo de atitude que precisamos para defender o cristianismo das mentiras de seus opositores. Quanto mais cristãos responderem e agirem, melhor. Um grande abraço.

Como abandonei meu teísmo, hoje em dia eu não me sinto na obrigação de defender o teísmo. Eu defendo, por outro lado, que o humanismo (especialmente em sua variação do neo ateísmo) seja fortemente atacado.

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4 COMMENTS

  1. Ótimo! Gostei muito, um verdadeiro achado, as vezes é um pouco complicado compreender a totalidade das exposições desse blog, com certeza essa entrevista ajudou bastante, a propósito, Luciano você ainda mantem contato com snow e o pessoal do teismo.net? pra mim foi uma grande perda os dois sites saírem do ar, saberia dizer se o site voltará? ou se eles pretendem disponibilizar o material em outro lugar de repente?

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