Planos e tempos em uma análise de comportamentos crédulos

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Este texto falará de todos os crédulos de qualquer tipo de religião, política ou não, e será escrito por uma perspectiva “de fora” de qualquer uma delas. Como é um texto técnico, espero não ofender pessoas mais sensíveis.

Os místicos falam (e corretamente) a respeito da existência de três planos: físico, mental e astral, que seriam dimensões da existência (alguns místicos, como Leadbeater, falam em 5 planos de existência, mas tratá-los aqui desta forma somente tornaria a abordagem desnecessariamente mais complicada).

O plano físico é aquele no qual os eventos podem ser observados de forma empírica, como, por exemplo, na gravação de um vídeo. Se alguém der um soco em outro, e este evento for gravado por uma câmera, significa que ocorreu no mundo físico. Após este texto ser escrito, passa a ser parte do mundo físico, pois poderá ser gravado (por qualquer um que queira). No plano astral, por sua vez, os eventos não podem ser observados de forma empírica. Note que isso pode gerar alguns problemas teóricos, mas é fácil resolvê-los. Primeiro, o plano mental nada mais é que uma extensão do plano físico, considerando a abordagem monista, da mente como uma extensão do corpo. Segundo, o PET SCAN, por exemplo, pode fornecer imagens do cérebro, e neste caso falamos do plano físico, mas quando alguém diz “sonhei com você”, não conseguimos visualizar o sonho para transpor esta declaração ao mundo físico. É por isso que não podemos observar um sonho como se fosse um filme, e portanto temos que acreditar na palavra de alguém quando esta pessoa diz que “sonhou com X”. Por último, o plano astral seria uma dimensão além dos dois planos anteriores, e não é testável empiricamente também. Quando não se crê no sobrenatural, tal plano é considerado inexistente.

Em relação ao tempo, temos 3 possíveis situações: passado, presente e futuro. Eventos no plano físico podem ocorrer em qualquer tempo. Por exemplo, se alguém costuma viajar de avião, no momento em que compra sua passagem, este é um evento no tempo presente, mas quando a pessoa pensa no horário de sua chegada, temos um evento a ocorrer no futuro.

Desta feita, podemos tratar alegações sendo relacionadas tanto a plano (físico, mental, astral) como tempo (passado, presente, futuro).

Toda a disciplina História basicamente fala de eventos que ocorreram no plano físico e tempo passado. As evidências de que tais eventos ocorreram (ou não) estão em documentos, registros históricos, e, portanto, podemos considerá-los como parte da História. Já ciências naturais de vários tipos muitas vezes falam de eventos que ocorreram no plano físico, no passado, e, através do estudo destes eventos, pode-se prever outros eventos que ocorrerão, como sempre, no plano físico, e no futuro. Sei que tudo isto é muito óbvio, mas devemos deixar as coisas bem claras.

Agora, vamos sair do básico, e tratar algumas alegações como “há um dragão invisível e incorpóreo no meu quintal”, que falaria de um evento no plano físico, o qual deveria ser testável, mas foi descrito de tal forma que o quintal (plano físico) não pode ser um objeto de estudo para encontrarmos o dragão, já que ele seria incorpóreo, portanto parte unicamente do plano astral. Carl Sagan, em um de seus raros momentos de lucidez, abordou esta questão em “O Mundo Assombrado pelos Demônios”.

Hm, eu sei, eu falei que iria sair do básico, mas não o fiz. Então, vamos a mais uma abordagem. Um líder religioso diz que recebeu uma “revelação” divina, e esta revelação contém informações vitais para a raça humana. A revelação ocorreu puramente no plano mental (ou em uma interface do plano mental com o plano astral), e portanto não pode ser observada. Logo, teremos que confiar unicamente na palavra deste líder religioso para acreditar que existiu de fato tal revelação. Lembrando do que eu escrevi logo no início em minha abordagem sobre os planos: se a coisa está no plano mental ou astral, não pode ser validada empiricamente. Talvez por isso tenhamos uma pista do motivo pelo qual a religião tradicional foi tão afetada por questionamentos de empiristas ao longo dos anos.

Entretanto, alegações que utilizam-se de planos e tempos não submetidos à validação empírica não são exclusividade dos religiosos tradicionais. Um exemplo é a expressão “eu tenho apenas dúvidas em minha cabeça, portanto sou alguém do lado do puro ceticismo”, que é uma alegação sobre o plano mental, e se encaixa exatamente na mesma categoria que a alegação do líder religioso sobre sua “revelação”. Alguns mais “cricas” poderiam objetar: não sabemos se Deus existe, mas sabemos que dúvidas existem, portanto a revelação de um Deus pode ser questionada mais duramente que a existência de dúvidas na mente de alguém. Até capaz, não fosse o fato de que se não temos evidências empíricas de que Deus existe, temos evidências empíricas em relação ao fato de que o homem questiona as coisas conforme sua conveniência e auto-interesse, e não como um “validador universal”. Portanto, a alegação “minha mente só tem dúvidas, sou um puro cético, me compre” se encontra em situação até pior que “eu recebi uma revelação de Deus”. Nesta, temos ausência de evidências empíricas, na outra, temos evidências em contrário.

Nossa investigação pode levar a pontos ainda mais interessantes, como quando estudamos a alegação “o ser humano irá criar um mundo fraterno, através da comunhão universal” (discurso humanista), que é uma alegação do plano físico, mas pertencente ao tempo futuro (mas, obviamente, em um tempo não especificado). Pode-se até suspeitar de que a transposição da “comunhão universal” para o futuro (plano físico, tempo futuro) é uma forma de fuga do teste empírico tal qual o fato do dragão ser invisível e incorpóreo (plano astral, tempo presente). Uma objeção pode surgir em relação ao fato de que se já foi possível prever que um governo seria totalitário (como previu Edmund Burke, antecipando o que ocorreria na Revolução Francesa), então seria possível prever que um futuro terá “felicidade global”. O problema é que a tese de Burke se baseava em evidências empíricas de como o homem de fato era (plano físico, tempo passado e presente – isso na época em que Burke fez a avaliação), enquanto a alegação humanista foge disto. Ao ignorar a essência humana, o humanismo não faz uma alegação que preste relacionada ao plano físico, relacionada a eventos do tempo passado e/ou presente, mas dá uma esperança baseada no plano astral com eventos a ocorrerem, é claro, no futuro.

Eis que temos aqui uma fórmula que pode lhe servir como um guia de investigação para questionar qualquer tipo de religião que se queira (sei que alguns religiosos tradicionais podem ficar bravos comigo, mas os religiosos políticos tem muito mais motivos para se irritarem):

  1. Alegações sobre o plano físico, e tempo passado e/ou presente, dificilmente são demolidas se existirem boas evidências empíricas;
  2. Estas mesmas alegações, caso não sustentadas por evidências empíricas, podem ser trucidadas, sem dó;
  3. Alegações sobre o plano físico e tempo futuro, são mais imunes ao esmagamento caso sejam sustentadas por evidências empíricas que sustentem as alegações de suporte que devem tratar, é claro, do plano físico e tempo passado e/ou presente. Sem evidências, a vulnerabilidade existe (e deve ser aproveitada pelos oponentes destas alegações);
  4. Todas as alegações relacionadas ao plano mental e astral, independente do tempo, são igualmente vulneráveis.

As quatro regras acima são suficientes para servirem como um “guideline” básico para o questionamento, e, caso você preste atenção nestas regras, conseguirá mais facilmente entender como é muito lógico considerarmos a afirmação “eu sou um representante da ciência, por isso minha mente funciona como se fosse um método científico” do mesmo naipe que “eu sou um vampiro que é capaz de mudar de forma e se tornar um morcego”. Por sua vez, quando ignoramos a questão dos planos, acabamos sendo enganados muitas vezes por crédulos que se dizem céticos, mas estão fazendo alegações tão pouco testáveis como os leitores da borra de café.

Agora você já deve ter percebido por que é tão fácil para mim deixar os esquerdistas desesperados. No momento em que algum deles diz “minha mente só aceita idéias racionais” ou “só aceito uma idéia depois de muita reflexão”, este modelo automático de quatro regras entende: “É uma alegação sobre o plano mental? E mesmo assim gera capitalização política em torno de seu aceite? Ah, então é hora de surrar alguém (*)”.

(*) Falo de surra em termos intelectuais, e não de vias de fato.

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10 COMMENTS

  1. Luciano escribió:

    «
    Primeiro, o plano mental nada mais é que uma extensão do plano físico, considerando a abordagem monista, da mente como uma extensão do corpo.
    »

    Essa definição não é “mística” nem na China, é picaretagem pura -.-

    Falando em picaretas, citar Leadbeater sem enfatizar que ele também foi um *disseminador de bobagens*, é…

    … [ sem comentários ].

    Criticar os humanistas e os esquerdistas é ótimo e necessário — desde que você evite falar de assuntos que você entende pouco / nada / muito-mal. Eu te avisei que o materialismo é um beco-sem-saída, eu te avisei -.-

    • Claro que Leadbeater é um picareta. 😉

      O fato de eu citar os planos não significa que eu esteja sequer validando a existência de todos eles. Basicamente, o argumento foi o seguinte:

      Há o plano físico, mental e astral (mesmo que Leadbeater aponte uns 5, que só complicam a explicação), e pode-se fazer uma alegação empírica a respeito do primeiro. Por isso que a alegação “um carro passou aqui a 100 kms” por hora pode ser alegado de forma fácil, mas “um pensamento de paixão por Angelina passou em minha cabeça”, que está no plano mental, não.

      Algumas questões:

      (a) que parte do meu texto define o materialismo como válido? (aliás, eu jamais tentei validar materialismo, e, aliás, esta não-validação do materialismo é parte fundamental do meu sistema de pensamento, pois eu teria um ônus de prova em relação ao que eu não posso alegar)
      (b) por que a citação de Leadbeater seria inconveniente em um texto que cita planos de existência diferentes? (detalhe: eu não tentei validar os “cinco” planos de Leadbeater, embora ache que os meus 3 planos são bem interessantes)

      Ponto adicional que deveria fazer parte do texto:

      – plano “espiritual”, ou qualquer coisa do tipo, é parte do plano mental

      • Primeiro, desculpas pela demora em responder =^.^=

        “Secondly”, e começando pelo fim:

        Nada especificamente relacionado a este artigo, mas o fato é que existe sim uma “atmosfera materialista” pairando no blog desde o dia em que você “voltou dos mortos” 😛 , e a tua adesão pouco crítica (não sou o único que pensa assim, aliás) a coisas como “Psicologia Evolucionária” e “Dinâmica Social” também impõe um forte viés materialista a todos os teus textos desde então O_o De maneira direta e consciente, é claro que você não tenta “impor” a suposta correção da abordagem materialista aos teus leitores, mas de acordo com um dos poucos acertos da Psicanálise, o inconsciente é muitas vezes bem-explícito para quem “está do lado de fora” 😉

        Sobre o Leadbeater e similares: ele falou de 5, enquanto que outros teosofistas falam de SETE planos >__<

        Outro ponto importante: postular "extensões do plano material" para tentar definir, ou explicar, o que é "mental", "psíquico", ou "espiritual", também não passa de uma trucagem intelectual, a fim de angariar adeptos entre os de mentalidade academicista ou "sientêfeka" 😛 A título de comparação, seria mais ou menos como confiar na física quântica para "explicar" os fenômenos PSI, os quais, de material, na verdade, só têm os efeitos [ *impropriamente chamados de* ] "físicos". E ao contrário do que muitos acreditam, o *não-material* também é físico (NO SENTIDO DE SER UMA FORMA diferente DE ESTRUTURAÇÃO DE ENERGIA), e [o mais importante] também é *matemátizável* 😉 Em 1998, eu mesmo coloquei várias fórmulas e demonstrações no site de um colega australiano, mas infelizmente isso foi uma burrice e uma grande perda de tempo 🙁 , pois quem entendia de modelos matemáticos, teimava (mas nem tentava provar!) que eu estava enganado, e quem não entendia, continuava a ver navios -.-

      • Olá JMK.

        Se eu sou materialista, não o sou de forma dogmática. Eu não tento impor o meu paradigma aos demais. Portanto, eu não alego inexistencia do sobrenatural, por exemplo, embora eu não creia nele. Daí, minhas abordagens excluem o paranormal, por exemplo.

        Alguns pontos.

        Quanto ao inconsciente ser bem visível para quem está do “lado de fora”, isso é verdade, e é uma objeção que devo tratar no meu texto. A leitura corporal pegaria muitos elementos que estão na mente do sujeito.

        Meu objetivo em relação a este texto, no entanto, não foi validar as visões de teosofistas (que são picaretas absolutos, eu concordo), mas sim explicar que podemos fazer algumas alegações.

        Exemplos.:

        “Olhe agora que vou atirar e acertar o alvo” (plano físico)
        “Há um Deus, responsável por criar o mundo” (plano astral)
        “Eu sou alguém que questiona todas as idéias” (plano mental)

        O que eu quis expor no texto é que uma afirmação que está no plano astral é tão testável quanto aquela que está no plano mental.

        A afirmação “eu sou alguém que questiona todas as idéias” não pode ser considerada empírica tal qual “olhe agora que vou atirar e acertar o alvo”.

        Uma coisa é dizer “estou pensando na Katia” (mental) e outra é “observe agora este dashboard” (fisico).

        Esse era o objetivo do texto.

        A essencia do texto era nos lembrar o seguinte.

        Alegação 1: “Há um Deus” (alguém pode duvidar)
        Alegação 2: “Há um espírito aqui” (alguém pode duvidar)
        Alegação 3: “Domino minhas paixões e questiono todas as idéias que entram em minha mente” (não há dúvidas)

        Por que alegações 1 e 2 tem sido objeto de ceticismo e do tipo 3 não?

        O texto foi para que jamais esquecer deste tipo de detalhe.

      • Bom, conforme eu ia dizendo:

        «
        Sobre o Leadbeater e afins: ele falou de cinco, enquanto que outros teosofistas falam de 7 planos ¬¬
        »

        Na seqüência:

        de acordo com Guénon, nas doutrinas hindus, três “planos” ou níveis bastam, e o teosofismo adicionou mais 4 “planos”, porque eles teriam cismado com o número SETE, passando a enxergar o dito-cujo em todos os lugares O_o

        De qualquer modo, os “planos” não-materiais NÃO se confundem com o mundo material, e nem são uma “extensão”, “derivação” ou “apêndice” do mesmo. Era mais ou menos isto que eu tentei dizer, e que o maledetto WordPress censurou.

  2. OFF-TOPIC que vale um comentário:

    http://oglobo.globo.com/blogs/pagenotfound/posts/2012/10/03/ativistas-do-femen-atacam-louvre-posam-diante-da-venus-de-milo-468338.asp

    Sobre o texto, um questionamento preliminar: você já leu Leadbeater e demais teosofistas (Annie Besant, Olcott, Powell, Alice Bailey…), em primeira mão? Estou aqui com uma crítica do René Guénon à Teosofia – achei no Scribd – e estou tentando decidir se me aprofundo no assunto, que parece interessante, mas cuja real importância ainda não consegui dimensionar.

    Abraços!

  3. Resposta ao post “19 de outubro de 2012 em 2:18 am”:

    Ah bom, então estamos nos des-entendendo menos, isto é ótimo =^.^=

    Agora, sobre o livro que você prentende lançar: corrija-me se eu estiver errado, mas eu suponho que as objeções feitas por nós outros, os leitores do blog, estão fazendo você re-escrever as páginas do original vezes-sem-conta 🙂

    A propósito, por aqui ninguém mais dorme de madrugada não? 😀

    • Com certeza. Essas objeções sempre tem mostrado pontos que eu preciso explicar melhor, ou até mesmo retificar. 😉

      Aliás, trato as objeções tanto de leitores do lado “amigo”, como inimigo.

      Por isso, dormir ficará para depois. rs. 🙂

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