Bertrand Russell e seus ensaios crédulos – Pt. 1 – A filosofia da projeção de paraíso

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Começarei aqui uma série que visa, em alguns textos, investigar de forma crítica o livro “Ensaios Céticos”, escrito por Bertrand Russell em 1928. Entendo que essa investigação é importante pois conseguimos ali mapear a essência de vários truques atuais da maioria dos humanistas. Para se ter uma idéia, livros como “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, e “A Morte da Fé”, de Sam Harris, não são nada mais que releituras de “Ensaios Céticos”.

Ao mesmo tempo em que refuto Russell, mostrarei as diferenças que o meu paradigma oposto provê. Você poderá notar, por exemplo, que a diferença que faz toda a diferença é o axioma de partida, e Russell toma como ponto de partida que “o homem é perfectível”, enquanto eu vejo pelo contrário, entendendo que o homem é falível e não poderá mudar esta contingência por sua ação. Minha constatação, cada vez mais endossada pela ciência, contrasta-se com a visão de Russell, que não passa de uma idealização utópica e infantil.

Eis, então, que Russell começa, nas páginas iniciais, com sua introdução, e a coisa já começa a complicar no primeiro parágrafo, onde ele faz uma “proposta ao leitor” de uma doutrina que, segundo ele, poderia parecer “paradoxal e subversiva”. Veja:

É indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira.

Aquilo que pode parecer justificável a primeira vista, é, como sempre se vê no caso dos humanistas, uma mentira a respeito do que é a espécie humana. Na verdade, pode ser plenamente desejável para qualquer pessoa acreditar em algo que seja falso, desde que essa crença gere vantagens para seu usuário (ou que pelo menos tenham vantagens percebidas por este usuário). E, independente de gerar vantagens ou não, uma crença é totalmente justificável caso seja uma crença genuína, e, mesmo assim, não seja sustentada por evidências. (Dessa questão das crenças genuínas, tratei neste texto sobre William James)

Como se nota, logo de cara Russell parte de uma premissa de um ser humano fictício, e, em cima disso, faz toda a sua teorização. Minha proposta é totalmente oposta, e diz o seguinte: “É indejável deixar de esmagar uma proposição de um oponente político seu, cuja proposição não tenha base para ser tomada como verdadeira”. Eis a absurda diferença entre o que Russell propõe e o que eu proponho: o britânico alega que os seres humanos devem submeter, dentro de seu íntimo, suas crenças a um crivo. Como mostrarei aqui, os seres humanos não fazem isso e nem sequer Russell, que demonstrará crenças bizarras. Meu paradigma, por outro lado, entende que os seres humanos não questionarão suas próprias crenças, caso estas tenham valor para seu usário. Mas ao mesmo tempo estas pessoas devem questionar as crenças dos oponentes. Este questionamento poderá ser observado empiricamente (já que é perfeitamente normal vermos um oponente de uma idéia questioná-la), mas não o questionamento que alguém faz a si próprio. Em suma, o questionamento que defendo é o único passível de ser observado empiricamente, mas o de Russell (de alguém “questionando suas próprias crenças”) não pode. Ironicamente, pode-se aplicar o modelo de Russell contra ele próprio, pois quando ele diz “é indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira”, basta entendermos que a idéia de que “os seres humanos podem questionar a si próprios, mesmo lutando contra suas consciências” não é válida, para que então possamos definir como “indejável” acreditar nisso. Enfim, Russell pode ser usado para demolir Russell. Eu poderia terminar minha análise por aqui, mas seria injusto, pois há mais credulidades dele pela frente.

Por exemplo, ele diz que sua idéia subversiva “tenderia a reduzir a renda dos clarividentes, bookmakers, bispos e outros que vivem das esperança irracionais daqueles que nada fizeram para merecer a fortuna”. Isso é provável, e, supondo a título de argumentação que o argumento de Russell fosse válido, não são apenas as crenças paranormais e sobrenaturais que existem. A crença em um mundo perfeito (um “paraíso na Terra”) é também o aproveitamento de esperanças irracionais de outros, e esta crença é propagada por Russell. Logo, o critério que vale para os paranormais, deve valer também para ele.

Aqui, ele resume seu “ceticismo”:

O ceticismo que eu advogo reduz-se a isso: (1) Quando os peritos concordam, a opinião contrária não pode ser considerada certa; (2) Que quando não concordam, nenhuma opinião pode ser considerada certa pelo não-perito; (3) Que quando todos afirmam não haver base suficiente para uma opinião positiva, o melhor que o homem comum tem a fazer é reservar seu julgamento.

A primeira proposição é naturalmente uma besteira, pois é difícil encontrar situações complexas onde “peritos” concordem em absoluto, até por que os seres humanos, mesmo sendo peritos ou não, estão envolvidos por suas paixões pessoais. Mas mesmo que os “peritos” concordassem, ainda assim é possível que em situações onde existam poucos deles, eles sejam corrompidos. Portanto, nota-se que Russell gosta de um apelo à autoridade. A segunda proposição também é estapafúrdia e não condiz com a realidade, já que temos situações onde peritos não concordam, como na teoria da evolução e até no Big Bang, e mesmo assim pode-se tomar partido. A terceira proposição não faz nenhum sentido, ao dizer que “quando todos afirmam não haver base suficiente para uma opinião positiva”, o homem comum deve “reservar o seu julgamento”. Mas não existem questões complexas para as quais “todos afirmariam não haver base suficiente para uma opinião positiva”. Até mesmo na teoria da evolução, existem peritos que adotam o criacionismo. Por que isso? Provavelmente por uma questão de paixões humanas, novamente. Como se observa, até agora, Russell parte de um cenário sem sentido baseado em seres humanos que existem só na mente dele. Mais um exemplo desse delírio pode ser visto quando ele diz que o “melhor que o homem comum tem a fazer é reservar seu julgamento”. Mas isso é o que o ser humano menos faz. O ser humano sempre vai fazer um julgamento com os dados que tiver à mão. Especialmente o homem comum, como se vê na época da Copa do Mundo. Todos sabem a melhor escalação para o time, e dizem que o técnico “não sabe escolher seus jogadores”.

Enfim, os vários erros de Russell somente nesta proposição:

  1. Entre “peritos” há consenso em questões complexas;
  2. Entre “peritos” há uma capacidade sobre-humana para que eles não sejam influenciados por suas paixões em tomadas de decisão;
  3. Pessoas podem reservar seus julgamentos.

Ao considerar 3 proposições em seu modelo, nota-se que Russell não tem uma teoria que preste a respeito de como o ser humano deveria executar o ceticismo. A investigação da realidade sempre nos mostra que as crenças 1, 2 e 3 são ilusões.

Para exemplificar seu raciocínio, Russell diz o seguinte:

Consideremos a questão do desemprego nos anos seguintes a 1920. Um grupo afirmava que se devia à pervesidade dos sindicatos, outro que se devia à confusão no continente europeu. O terceiro grupo, embora admitisse o papel dessas causas, atribuía a maior parte do mal à política do Banco da Inglaterra de tentar aumentar o valor da libra esterlina. Tenho elementos para acreditar que esse terceiro grupo continha a maioria dos peritos, porém ninguém mais. Os políticos não encontram atrativo algum numa opinião que não se presta a perorações partidárias, e os mortais comuns preferem opiniões que atribuem a desgraça à manobra de seus inimigos. Consequentemente, o povo luta contra e a favor de medidas inteiramente irrelevantes, enquanto que os poucos que tem opinião racional não se podem fazer ouvir porque não alimentam as paixões de ninguém.

Nota-se que Russell ou não entende as regras do jogo político ou finge não entendê-las. Na verdade, os “peritos” no caso, estavam do lado dos grupos que disputavam o poder, e que usavam as alternativas mais populares (as duas primeiras citadas por Russell) para capitalização. Dentre os peritos, alguns estavam de um lado, alguns estavam do outro lado. Como acontece em todas as questões políticas. Entretanto, os partidos políticos (e os grupos sociais que estão alinhados com estes partidos) vão naturalmente propagar as opiniões que podem ser mais absorvidas pela maioria da população. Através desta conquista da opinião pública, é que programas podem ser implementados, e neste ponto os “peritos” que estiverem do lado vencedor terão sua vez. O povo (no sentido do “homem comum”) luta a favor de seus interesses e suas impressões. Por isso, os tais “poucos que tem opinião racional” (embora muitas vezes os auto-alegados “racionais” são extremamente irracionais, mais ainda por que não tem noção de sua irracionalidade) que quiserem fazer acontecer algo dentro do jogo do poder precisam de fato serem mais inteligentes para, enfim, fazendo uso das paixões do povo, conseguir implementar suas idéias. A visão de Russell, portanto, parece a de que a política deveria ser um jogo “controlado pelos peritos”, quando na verdade é controlado pelos mais espertos. Se os “peritos” são tão bons, que desenvolvam melhor suas capacidades de influência no jogo do poder. Mas se quiserem ser reconhecidos somente por serem “peritos”, não serão ouvidos pelo homem comum. Isto, é claro, em uma visão realista da política, ao invés do mundo de Pollyana imaginado pelo autor inglês.

Outro exemplo de sandice vem a seguir:

Dr. Rigers [em seu livro póstumo, Psicologia e Política], “apresenta certos aspectos antropológicos que demonstram que o socialismo não é contrário à natureza humana na Melanésia; a seguir frisa que não sabemos se a natureza humana é a mesma na Melanésia e na Europa; e conclui que a única maneira de verificar se o socialismo é contrário à natureza humana é experimentá-lo.

Este é um exemplo de “perito” citado, que não tem nada a dizer, o que comprova a minha tese de que peritos não podem receber crédito apenas por serem peritos, mas sim pela validade de suas ideias, pois em muitos casos elas estão contaminadas por questões ideológicas e políticas. Este é o caso do Dr. Rigers, que inverte toda a questão do socialismo. Ora, o socialismo é uma tese que fala do fim da propriedade privada e disseminação dos meios de produção em uma sociedade que os tem como estabelecidos. Na tese socialista, temos um período de estado inchado, para que no futuro a nova sociedade retorne ao estado próximo ao dos tempos tribais, em que não havia grupos sociais estabelecidos. Mas se as tribos da Melanésia jamais saíram de seu estado tribal, então não podem ser uma evidência de socialismo, pois tais sociedades não possuem sequer as tais complexidades e contradições que (alegam os socialistas) seriam resolvidas pelo socialismo. Desta forma, a aplicação do socialismo real foi aquela que ocorreu na China, no Cambodja e em Cuba (com resultados devastadores em tempos de contagem de corpos), mas não o que ocorre em pequenas tribos na Melanésia.

Nem tudo que ele prega deve receber nota zero. Esta parte aqui, merece uma nota 2 ou 3:

Parece que o pecado é função da geografia. Desta conclusão, basta um passinho para a conclusão de que a idéia de “pecado” é ilusória, sendo desnecessária a crueldade habitualmente praticada ao puni-lo.

É verdade que alguns costumes de religiões particulares, como evitar comer carne de porco, ou coisas do tipo, não deveriam merecer punições graves em caso de não cumprimento. Aliás, não deveriam ser motivo de punição alguma. Entretanto, se um país dominado por uma cultura aplica uma punição, por exemplo, para quem gosta de filosofia, eu prefiro não ir àquele país. Por outro lado, se alguns pecados são função da geografia, outros são universais. Por isso a idéia de pecado nem sempre é ilusória, pois, sendo comprovado que pecados como “não roubarás” e “não matarás” são justificáveis em escala universal, independente do povo, isso não os demonstraria como tão “ilusórios” assim. Aqui, parece que a ânsia de Russell em tentar atacar a religião tradicional o impediu de concluir um parágrafo no qual poderia ter implementado um raciocínio razoável.

Este outro ponto é bastante miserável:

O nacionalismo, naturalmente, é um exemplo extremo de crença ardente a respeito de assuntos duvidosos.

Mais ou menos. O nacionalismo exacerbado, no qual alguém atribui um excesso de valor por pertencer a uma nação, é facilmente ridicularizável. Mas um nacionalismo sadio, onde a cultura do próprio país é valorizada, não possui nada de errado e pode ser plenamente justificável. A sensação de valor atribuído à própria tribo não é um “assunto duvidoso”, mas praticamente uma lei da natureza.

Já dá para notar onde isso vai descambar, não? Na idéia de que deve haver uma forma “racional” para todos discutirem todas as questões complexas, para que se chegue em um acordo mútuo universal e, enfim, não existam mais conflitos. Segundo ele, existe uma “recusa” em se usar a “razão” para definir as questões políticas. Conclui Russell: “a aplicação do raciocínio a esses sistemas de crença é considerada tão funesta quanto antigamente se achava a aplicação do raciocínio aos dogmas religiosos”. Parte ele de uma premissa na qual a razão era extirpada até da discussão religiosa no passado, o que é flagrantemente falso. Conforme já mostrei várias vezes aqui, o discurso dos oponentes da religião não era um primor de “razão”. O discurso de alguns religiosos do passado, como São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, tinha muitos componentes racionais. Notem que eu não estou definindo que os religiosos estão “do lado da razão” ou “contra ela”, e nem que um secular “está do lado da razão” ou “contra ela”. Quem faz isso é um humanista como Russell, que tenta ganhar o jogo por auto-rotulagem. Se ele desanda ao falar da religião tradicional, também desanda ao falar do nacionalismo. Ele já toma uma posição, a de que “o Governo Global” é a solução, portanto, só existem para ele “cidadãos do mundo”, e por isso o nacionalismo é uma irracionalidade. Mas como ele demonstra que a noção de um “Governo Global” é mais racional que as outras? Ele não demonstra. É mais um momento em que ele tenta de novo ganhar o jogo por auto-rotulagem, e não por argumentação. Vejam que não é exagerado chamar Russell de mitômano. E olhe que estamos somente na sexta página de um livro de 260.

Quem já leu “A Morte da Fé”, de Sam Harris, vai se familiarizar com a encenação abaixo:

Quando uma nação inteira partilha duma ilusão, sua fúria é do mesmo tipo da do lunático, cujas pretensões pomos em dúvida, porém, com exceção da guerra, nada a faz se submeter à voz da razão. O papel dos fatores intelectuais na conduta humana é assunto sobre o qual os psicólogos não concordam. Há duas questões perfeitamente distintas: 1) Até onde funcionam as crenças como causas dos atos; 2) Até onde derivam as crenças de provas lógicas adequadas, ou capazes de ser demonstradas?

O truque aqui é bem simples, e é baseado na exploração da catarse com uma fórmula chinfrim. Basicamente, a coisa envolve dizer que se há guerras e atrocidades, isso ocorre por que as pessoas tem ‘crenças irracionais’. Mas se todas elas se submetem à razão, então conflitos não mais ocorrerão. Claro que, como já mostrei no início, a idéia é uma bobagem, pois estes seres humanos baseados na “decisão universal única” só existiriam no universo Star Trek, e seria apenas o caso do Dr. Spock. Mas Russell joga no psicológico, pois em seguida começa aquele discurso questionando “até onde funcionam as crenças como causas dos atos”, embora qualquer um que estude o assunto já sabe que as crenças são fundamentos para os atos. E em relação as “crenças derivadas de provas lógicas adequadas, ou capazes de serem demonstradas”, elas somente serão aceitas pelos indivíduos, em sua maior parte, quando sua negação resultar em risco. Para o negador, obviamente.

A conclusão da introdução, pelo menos, já facilita muito o o trabalho do investigador, entregando toda a carta de intenções do autor:

No mundo moderno, aqueles que de fato detestamos são grupos distantes, especialmente nações estrangeiras. Concebemo-las no abstrato e nos engodamos, para crer que nossos atos (na verdade manifestações de ódio) são cometidos por amor à justiça ou outro motivo elevado. Apenas uma forte dose de ceticismo pode rasgar os véus que nos ocultam esta verdade. Uma vez o consigamos, poderíamos começar a construir uma nova moral, não baseada na inveja e na restrição, mas no desejo de uma vida pródiga e a percepção de que outros seres humanos são um auxílio e não um obstáculo, uma vez curada a loucura da inveja. Não é uma esperança utópica; foi parcialmente realizada na Inglaterra isabelina. Poderia ser realizada amanhã se os homens aprendessem a procurar a própria felicidade em lugar de provocar a desgraça alheia. Não se trata de moral impossivelmente austera, e no entanto a sua adoção transformaria o planeta em paraíso.

Incrível não? Se alguns humanistas atuais talvez escondam a terminologia do “paraíso em Terra”, Russel, na época, foi mais descuidado. Melhor para mim. É claro que ele fala muita bobagem, como por exemplo quando diz que “o desejo de uma vida pródiga” deve ser a base da moral. Mas onde que hoje não temos tal desejo? Talvez ele queira dizer que tal desejo só pode se coadunar com o fato dele ser exercido em um governo global. Outro ponto relevante é quanto ele diz que os homens deveriam “procurar a própria felicidade em lugar de provocar a desgraça alheia”, mas não é a busca da própria felicidade, e a conquista dela, o que pode levar à desgraça alheia? Em luta por recursos, sociedades podem destruir outras, o que é a busca da felicidade de uns às custas da desgraça causada aos outros. O nacionalismo, neste caso, surge apenas como um dourar da pílula para que consigamos conviver com a dura realidade de que a luta por recursos, especialmente em momentos de crise, levará a destruição de uns para a sobrevivência dos outros. Tentar conter instintos como o gregarismo, o territorialismo e outras facetas do animal humano é uma ilusão, embora Russell pareça acreditar nela. A promessa de Russell é a de que, em seu governo global, esses instintos humanos são eliminados, e, enfim, o paraíso na Terra surge.

Entretanto, todas as propostas que surgiram sob esse discurso foram aquelas que causaram as maiores atrocidades do século passado. O livro “Ensaios Céticos” foi escrito em 1928, quando muitos ainda não tinham dimensão dos massacres ocorridos na Revolução Russa, e que aumentariam ainda mais de volume com o advento da Segunda Guerra Mundial. Nesta época, Russell ainda definia os chineses como um “povo diferenciado, muito mais racional que os demais”. A história veio para negar-lhe esta esperança, e o governo de Mao conseguiu massacrar na China ainda mais que os stalinistas fizeram na União Soviética. Discursos similares como os da Alemanha Nazista também prometiam uma superação humana. Tudo bem que havia o nacionalismo, mas a crença na superação da condição humana era inerente ao discurso nazista. No Cambodja, essas promessas da construção do paraíso levaram à eliminação de um terço do país nas mãos do Khmer Vermelho. Em resumo, o discurso de gente como Russell é focado em projeção de um paraíso, desde que seja dado o poder totalitário a um grupo para construção desse paraíso. Para os marxistas, a ditadura do proletariado resolveria o problema. Para os humanistas, menos modestos, a coisa só se resolve com o governo global. Eis que os maiores promotores do “paraíso na Terra” são os principais responsáveis por transformar o mundo em um verdadeiro inferno.

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6 COMMENTS

  1. “…começar a construir uma nova moral … no desejo de uma vida pródiga e a percepção de que outros seres humanos são um auxílio e não um obstáculo, uma vez curada a loucura da inveja .. sua adoção transformaria o planeta em paraíso.”
    Bertrand Russell era um filho da puta e demagogo, está explicado o motivo da admiração dos neo-ateus por ele. Belo texto, Luciano. Anseio pelo resto da série!

  2. Até os admiradores dele o acham ingênuo

    “Bertrand Russell é considerado por muitos como um dos mais importantes pensadores que viveram no século XX, tendo forte destaque dentre suas idéias questões envolvendo a racionalidade e o ceticismo como bases de todo seu pensamento.
    Em Ensaios Céticos, temos uma coletânea de textos de Russell, onde percebemos essas características de seu pensamento de uma maneira marcante. Primeiramente, ele nos apresenta de maneira introdutória o valor do ceticismo como forma de tornar a existência social muito melhor, ao contrário do que muita gente pensa. Aqui temos uma característica fundamental de seu pensamento, que irá se perpetuar ao longo de toda a obra: a racionalidade, obtida por meio do ceticismo, pode ser um valor que revolucionará a vida humana.
    Em segundo lugar, Russell argumenta que a liberdade se encontra ameaçada por elementos que cerceiam o livre-pensamento humano, notadamente o dogmatismo, que se mostra presente em nossa sociedade nas mais diversas maneiras. Essa falta de ceticismo tanto em questões políticas quanto religiosas é, segundo Russell, a causa da maioria dos males do mundo moderno, pois a própria estrutura mental na qual os seres humanos são formados condena aqueles que buscam o questionamento sobre verdades já estabelecidas.
    Um livre-pensador é, segundo o filósofo inglês, aquele que rejeita a ortodoxia herdada desde seu nascimento. Nesse sentido, Russell atribui às religiões um papel negativo sobre a humanidade, pois essas são, por essência, instituições fundamentadas sobre dogmas, isto é, “verdades” inquestionáveis. Em suas próprias palavras (p. 138), “Por conseguinte, o pensamento é “livre” quando ele está liberto de determinados tipos de controle externo que estão com freqüência presentes.”
    É possível suspeitar de certa ingenuidade numa afirmação dessas, pois o ser humano é influenciado por todos os lados e até a neutralidade científica pode ser posta em xeque se forem levados em consideração os interesses por trás de uma constatação empírica. Porém, a observação de Russell vai mais a fundo no sentido de mostrar que não são apenas os mecanismos de validação empírica os potencializadores do livre-pensamento, mas sim, e fundamentalmente, a capacidade assegurada do ser humano de poder questionar tudo o que lhe é passado como verdade.
    Ensaios Céticos é um livro que traz uma discussão muito atual e na maioria das vezes renegada ou esquecida, qual seja, a de que a formação de um ser humano crítico, isto é, dotado de uma estrutura mental cética sobre todos os aspectos, é condicionada por interesses político-econômicos e por um autoritarismo tacanho. Esses elementos de perigo ao livre-pensamento, quando inseridos na sociedade, trazem consigo a maior parte das desgraças do mundo moderno.Leonardo Segura”
    http://litterata.wordpress.com/2010/10/22/ensaios-ceticos-bertrand-russell/

  3. Luciano, aproveitando o embalo dessa postagem anti-utopismo, queria pedir as referências que você utiliza para os paradigmas desse blog (que inclusive você citou os atores em algumas postagens sobre, mas, em geral, não as obras). Em quais livros, exatamente, encontro as teses da “Mentalidade Revolucionária”, do “Custo das alegações políticas”, da “Interpretação delirante” e das “Religiões Políticas” (esta última até sei alguns, mas como sei que vários autores usam essa expressão, pode citar todos os que você conhece)? E onde posso encontrar livros falando sobre a “Estratégia Gramsciana?

    No mais, ótimo texto. Espero pela parte 2.

    Abraços.

    • Olá Davi,

      Bom, alguns dos paradigmas deste blog foram defnidos por mim, com inspiração no material de outros autores. São estes os “meus” paradigmas, se podemos dizer assim:

      – Espiral do delírio (extensão da tese espiral do silêncio, publicada por Elisabeth Noelle-Neumann, em “Spiral of Silence”)
      – Ceticismo político
      – Custo das alegações políticas / controle de qualidade argumentativo (para estes me inspirei nas justificativas corporativas para o controle de qualidade e a auditoria)

      Entretanto, a mentalidade revolucionária é uma tese de Olavo de Carvalho que não foi publicada em livro, mas ele já a apresentou em várias palestras. Uma delas aqui:

      Esta palestra é excelente:

      Sobre as religiões políticas, além do livro “Religiões Políticas”, de Eric Voegelin, minha maior fonte são: “Cachorros de Palha”, “Missa negra”, “Al Qaeda e o que Significa ser moderno”, “Enlightment’s Wake”, “Two Faces of Liberalism” e “Heresies”, todos de John Gray. Os 3 primeiros foram lançados no Brasil. Recomendo todos.

      Um pouco do que me inspirou sobre o “custo das alegações políticas” pode ser visto no material de David Horowitz, em especial “The Art of Political War”, que traduzi aqui, e “Rules for Radicals”, do Saul Alinsky, que, veja só, é esquerdista radical. (Embora eu adapte seus conhecimentos para usá-lo contra a esquerda).

      Em relação a livros sobre a estratégia Gramsciana, cito os que eu tenho:

      “A revolução gramscista no Ocidente”, de Sergio Augusto de Avellar Coutinho
      “A nova era e a revolução cultural”, de Olavo de Carvalho (tenho em .pdf, pois não o encontrei para comprar)
      “Gramsci e o estado”, de Christinne Buci-Glucksman
      “Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político”, de Carlos Nelson Coutinho
      “Marx, Gramsci e o Conhecimento”, de Marcos Francisco Martins
      “A Concepção Dialética da História”, de Antonio Gramsci

      E, é claro, os “Cadernos do Cárcere”, que apenas li, mas não os tenho

      Como se vê, em relação a Gramsci, sou um especialista. rs.

      Para achar estes livros, recomendo http://www.estantevirtual.com.br. Tem muita coisa lá, especialmente fora de catálogo.

      Abs

      LH

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