Trecho de “A psicose de Richard Dawkins”, até então inédito neste blog

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Como eu despubliquei a série “Deus, um Delírio: Uma Refutação”, que está sendo retrabalhada como um livro completo, resolvo aqui apresentar um “aperitivo” do que virá pela frente. O trecho abaixo abre a refutação ao capítulo 6, em que Dawkins fala sobre a moral. Todos os demais textos despublicados retornarão reeditados, com uma nova perspectiva, mais assertiva, e com citações mais focadas (antes, havia um excesso de citações, que mais serviam para poluir o texto). Nenhuma refutação será deixada de lado. Pelo contrário, todas as refutações serão amplificadas e com mais exemplos.

Segue a seção que introduz o capítulo 6, entitulada “Um padrão para a moralidade dawkinista”.

Todos os autores humanistas utilizam um padrão de discurso que nos permite facilmente identificá-los. Basicamente, distorcem absolutamente tudo que seus oponentes dizem, capitalizam em cima destas distorções e orgulham-se disto. Quando estão em bando, repetem sem parar as distorções, de forma que o público desavisado as perceba como verdade. Isso, naturalmente, pode explicar uma má fama que, infelizmente, muitos ateus tem recebido, de forma que Dawkins tem mais prejudicado os ateus que ajudado-os.

Exatamente por isso, seu capítulo sobre a “moral” é particularmente delirante, pois esta é uma área na qual eles derrapam com extrema facilidade.

O capítulo começa logo com uma homérica distorção, que pode ser vista abaixo:

Muitas pessoas religiosas acham difícil imaginar como, sem a religião, é possível ser bom, ou mesmo querer ser bom.

Mas quem são estas “muitas pessoas religiosas”? Quais os autores? Ou será que ele se baseia na opinião do vendedor da barraquinha de cachorro quente? Ademais, não foi o próprio Dawkins que disse no primeiro capítulo (ao citar Ingersoll) que, se alguém faz uma coisa má, é “por causa da religião”? Desta forma, nota-se que a imposição de “maldade” (se pudermos mapeá-la como uma técnica) é algo que na concepção de Dawkins só pode moralmente ser feito por um neo-ateu contra um teísta, mas não o inverso. O curioso é que esta afirmação de que “se não for de minha religião, é do mal” é proferida por teístas simplórios, mas Dawkins não está entre os neo-ateus simplórios. Ele é da elite. Isto torna a sua situação muito mais constrangedora, e podemos avaliar a questão desta forma:

  • (a)  Um líder dos neo-ateus (se não o maior deles) define que “alguém de doutrina oponente, no caso a religião tradicional, é má por ser teísta”
  • (b) Um anônimo, que sequer representa a religião tradicional (ou até mesmo nem sequer existe), diz que “se alguém é ateu, é provavelmente mau, por não ser teísta”.

Para Dawkins (b) constitui evidência de que a moralidade religiosa é ruim, mas (a) não conspira nem um pouco contra a moral neo-ateísta. Eis então que ele cria uma tese bizarra na qual pessoas que “ao mesmo tempo não sejam representativas, e estão do lado do teísmo, mas dizem algo condenável” conspiram contra o teísmo, mas “pessoas que sejam representativas, e estejam do lado do neo-ateísmo, e dizem algo condenável” não conspiram contra o neo-ateísmo. É um reviralho no mínimo inusitado, mas que não pode ser justificado logicamente.  O fato é que Dawkins tenta se esconder sob anônimos do teísmo para omitir o fato de que acusações torpes contra o outro lado são especialidades muito mais do neo-ateísmo do que do teísmo[1].

Dawkins diz que o fato dele questionar o teísmo, leva algumas pessoas religiosas a “paroxismos de ódio contra aqueles que não compartilham de sua fé”, mas isto nem de longe acontece. Na verdade, podemos criticar exatamente o oposto em muitos teístas: tem faltado a eles uma carga natural de ódio, tanto quanto os neo-ateus possuem em relação aos teístas, para que o jogo seja mais interessante de ser assistido por uma perspectiva externa. Do jeito que está, vemos neo-ateus bufando de ódio de um lado, todos motivados por Dawkins, e os teístas agindo como bons moços (na maioria das vezes) e causando sono em quem assiste de fora esta instância da guerra cultural.

Enquanto observamos manifestações de ódio neo-ateu (contra religiosos) partindo da liderança neo-ateísta, as evidências do “ódio religioso contra os neo-ateus” surgem de exemplos como “cartas de leitores” de livros dele e obras de amigos, segundo o próprio. Dawkins faz uma encenação que pode impressionar os mais incautos ao dizer que algumas destas cartas são “horríveis e até cruéis”, sendo “as mais horríveis de todas […] quase invariavelmente motivadas pela religião”. Onde está “[…]”, como um bom ator, ele utiliza uma expressão “lamento dizer”.

Eu é que lamento dizer que as evidências dele são inexistentes, pois ele cita uma carta endereçada a Brian Flemming, um diretor de cinema neo-ateísta. Segundo Dawkins, esta carta a Flemming dizia “Queria pegar uma faca, destripar vocês, seus idiotas, e gritar de alegria quando suas tripas saírem para fora bem na sua frente. Vocês estão tentando deflagrar uma guerra santa em que algum dia eu, e outros como eu, posso ter o prazer de tomar medidas como a mencionada acima.” Mas como ele prova que esta carta de fato fora endereçada por um teísta em relação a Flemming e não criada pelo próprio Flemming (ou Dawkins) de forma a obter capitalização política?

Não me entendam mal. Quando eu leio uma diatribe de ódio em um livro de Dawkins, eu sei que são palavras escritas pelo próprio Dawkins, já que falamos de um livro com direitos registrados. Mas e quanto a uma carta criada por um autor anônimo? Especialmente quando ela destoa gritantemente do que dizem os teístas (na maioria dos casos, mansos em excesso, de forma condenável) nas redes sociais.

Dawkins cita outra carta, também provavelmente falsa, como sempre, na qual supostamente um teísta diria: “Vocês não sairão impunes. Se no futuro isso exigir violência, lembrem-se de que foram vocês que provocaram. Meu fuzil está carregado.” Vamos supor, só a título de argumento (pois não há evidências de que tal mensagem de fato foi escrita por um teísta), que esta carta de fato existiu. Dawkins distorce toda a mensagem, novamente para omitir sua culpa, afirmando o seguinte: “Por que — não consigo deixar de questionar — se acha que Deus precisa de uma defesa tão feroz?”

Mas supondo que algum teísta pense em pegar em armas quando for necessário, isso não é uma defesa que ele faria de Deus, mas de si próprio, pois qualquer um que esteja em sã consciência sabe que todo o trabalho de Dawkins funciona exatamente como o material anti-semita que começou a rondar a Alemanha várias décadas antes do Holocausto. Enfim, o hipotético teísta não está “defendendo Deus”, mas pensando em defender a sua própria pele. Ao perceber o neo-ateu como um propagador de ódio, em uma escala que faria os anti-semitas pré-Holocausto corarem de modéstia, uma reação na qual se pensa em uma situação futura na qual ele terá que lutar pela sua própria vida contra a campanha de ódio que está em curso hoje exatamente por causa de gente como Dawkins é plenamente justificável.

O truque de Dawkins seria exatamente como se um judeu escrevesse uma carta raivosa em relação aos anti-semitas na Alemanha Nazista, e estes respondessem dizendo “Quem disse que Deus precisa desta defesa?”. Enfim, ao tentar esconder que um oponente emitia uma justificável preocupação por uma reação futura para salvar a própria pele, Dawkins, em uma encenação para omitir sua culpa, fingiu que o oponente “defendia a Deus”.

É com truques deste naipe (com simulações de falso entendimento e apresentação de evidências da “falha moral” do oponente, com amostras não representativas e provavelmente falsas) que Dawkins quer falar sobre “moralidade”. Claro que não precisamos de religião para sermos morais, mas como mostrarei aqui o humanismo com certeza garante a amoralidade. Uma doutrina que se especializa em mentir de forma artística (sendo que nenhum de seus adeptos sequer é capaz de dizer algo como “Ei, Dawkins realmente mentiu feio agora”) realmente deve servir como um estudo de caso a respeito de uma religião claramente psicopática. E esta é a doutrina de Richard Dawkins, para a qual ele dedicará o restante deste capítulo.


[1] Que isso não seja mal compreendido, pois minha defesa é a de que os teístas devam equiparar os neo-ateus nas ofensas, portanto, ao constatar isso, não estou elogiando os teístas, mas chamando a maioria deles de ingênuos por não revidarem as ofensas à altura.

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2 COMMENTS

  1. Com certeza qq um que conheça muitos cristãos sabe que nunca um deles falaria essa bobagem ( talvez alguns psicopatas) , mas eu acreditaria se a mensagem fosse ” Deus irá pesar a mão sobre vc e te jogar no inferno ” ou algo do tipo. Mas , matar só mesmo uma besta neoatéia pra acreditar. Segundo ponto interessante é sobre o antisemitismo, que na época de hitler não havia internet e redes sociais, e portanto, pra alastrar um ódio cristão ou qq outra coisa é bem mais fácil que antigamente.Por outro lado, também mais fácil de ser detectável e isso impõe um dever de celeridade de defesa do cristianismo.Agora a questão da moral , eu acredito que vem da própria natureza, da dor e do sofrimento que certas coisas nos causam. O cristianismo colocou isso no papel. Não matar, não roubar, etc…mas citando Williaw Craig, a moral absoluta não existe se não existir Deus, e portanto sem Deus, só existe o relativismo moral, e citando outra frase ” se Deus não existe, então tudo é possível “, e portanto, não existindo um legislador absoluto no universo, todas as demais coisas são possíveis, sendo matar justificável, como foi na época do nazismo e tantas outras.

  2. “Muitas pessoas religiosas acham difícil imaginar como, sem a religião, é possível ser bom, ou mesmo querer ser bom.” (Dawkins)

    Eu nem desconfiava de que R.D. acompanhava os programas do Datena.

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