Um raio X das regras para radicais de Saul Alinksy – Pt. 1 – O Propósito

O texto anterior desta série é “Um Raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Introdução”. Como sempre convém avisar nesta série, assumo um tom não crítico (ao invés da maioria dos meus textos, em que refuto a esquerda), pois meu objetivo aqui é capturar a essência do pensamento de Saul Alinsky como um todo. Enfim, entender como pensava o arquiteto das estratégias democratas para conquista do poder.

A primeira coisa que devemos ser obrigados a reconhecer é que Alinsky foi um esquerdista versátil. Um exemplo disso está em sua capacidade de ao mesmo tempo citar ensinamentos cristãos como anti-cristãos. No início deste capítulo ele cita Jó 7:1 (“A vida do homem sobre a terra é uma guerra”). Mas logo anteriormente ele dizia que o primeiro radical, de todeas as lendas, mitologia e história era Lúcifer, “o primeiro a se rebelar contra o status quo, fazendo-o tão efetivamente que ao menos conquistou seu próprio reinado”.

Outra característica do autor, que ele demonstra logo no início, é a capacidade de “não associação” a uma corrente específica de pensamento, mesmo que ele a defenda por completo. Exemplo: ele defende que os seres humanos se dividem em três classes: Os que tem, o que não tem, os que tem um pouco e querem mais. Ele faz isso ao mesmo tempo em que diz não ter nenhum tipo de associação com o marxismo. Mas essa terminologia, no entanto, é simplesmente a releitura do marxismo, na qual existiriam os Burgueses (Os que tem), os Proletários (Os que não tem), e os Pequeno-Burgueses (Os que tem um pouco e querem mais). Se adaptarmos utilizar o paradigma de Alinsky para a direita (embora não com suas motivações, obviamente), basta adicionarmos uma nova categoria, Os que tem tudo, e mudarmos algumas das demais categorias, convertendo “Os que tem” para “Os que tem muito”, e “Os que tem pouco e querem mais” para “Os que tem pouco”. Isso por que todos “querem mais”, independente do quanto tenham. Assim, ficaríamos com as seguintes categorias:

  1. Os que tem tudo: Os burocratas donos de um estado inchado, seja ele de bem estar social ou uma ditadura do proletariado.
  2. Os que tem muito: Os mais bem sucedidos homens de negócio.
  3. Os que tem pouco: Os que não alcançaram o estágio 2.
  4. Os que não tem nada:  Esses seriam os moradores de rua.

Alinsky afirma o seguinte: “O Príncipe foi escrito por Maquiavel para os que tem muito manterem o poder. Regras para radicais é escrito para aqueles que não tem nada tomarem tirá-lo dos que tem muito.”.  Portanto, uma reconstrução de Regras para Radicais conforme nós, da direita, possamos percebê-lo adequadamente deveria ser a seguinte: “Regras para radicais é escrito para dar o poder aos que tem tudo, que são os burocratas, através de um discurso em que ideólogos simulam que estão do lado dos que não tem nada.” Minha adição: “Esta refutação é escrita para atrapalhar os planos de quem tem tudo.”

Um ponto interessante é quando Alinsky diz que quer dar aos seus leitores uma chance de “viver por valores que dão significado à vida”. É por isso que esquerdistas tem conseguido capitalizar  bastante com um discurso de que “lutam pelos oprimidos”. Uma análise deste discurso mostra que a direita somente pode reverter o quadro demonstrando que ao mesmo tempo em que os esquerdistas na verdade não lutam pelos oprimidos (é possível demonstrar que a direita pode fazer mais pelos oprimidos do que a esquerda), quem é de direita pode ter como sentido da vida lutar contra a tirania e a favor da liberdade individual, a qual seria eliminada com o estabelecimento do totalitarismo de esquerda. A regra é clara: sem um sentido claro para a luta, não vale a pena sequer começar, pois não haverá motivação para ações que causem revoluções.

Este é outro ponto em que preciso fazer um esclarecimento antes de prosseguir. O termo “revolução”, no contexto dos esquerdistas é a busca de um paraíso, ao passo que a direita deve utilizar o termo de uma maneira diferente. Um país que aumenta seus impostos de 10% para 30% está fazendo uma revolução de esquerda, pois o estado está sendo inchado. Mas um programa seríssimo de austeridade, que reduza os impostos a níveis baixos, também é uma revolução. O movimento original Tea Party, ocorrido em 16 de dezembro de 1773 em Boston, no qual colonos atiraram várias cargas de chá ao mar, eram um protesto revolucionário contra aumento de impostos. Diante disso, pode-se utilizar o material de Alinsky (com as devidas adaptações, especialmente quanto ao capítulo 2, cuja análise será publicada nos próximos dias) para qualquer causa revolucionária, seja ela utópica ou não. Os esquerdistas gostam de dourar a pílula com utopias, mas quem é da direita não. Alinsky apresenta o seu material da seguinte forma: “Neste livro eu proponho certas observações gerais, proposições, e conceitos do ciclo de ação e reação nas revoluções.” As técnicas aqui são utilizadas para ações revolucionárias.

Alinsky não raro entra em contradição, não quando apresenta suas técnicas, mas sim quando define a si próprio. Por exemplo, ele diz que “detesta e teme o dogma”. Entretanto, diz que o lema dos pais fundadores (“Pelo bem estar social”, o qual é um dogma) é um defendido por ele. Ele reconhece, páginas a frente, que sua crença “no ser humano” pode ser um dogma, o qual entraria em contradição com sua rejeição aos dogmas. Em relação a isso, declama: “Tudo bem, o ser humano é contraditório em essência”. O que nos leva a seguinte constatação: no jogo político, dogma é algo que o outro tem. Sendo o que o outro tem um dogma, isso significa que a posição do outro é condenável por não ter sido questionada o suficiente. O inverso deve ser aplicado às próprias crenças, que não serão afirmadas como dogmas, mas sim como idéias passíveis de correção contínua. Não faz diferença se eles são dogmas imutáveis ou não, o que importa é como elas são transmitidas. Assim, sendo que suas idéias são declaradas como “passíveis de mudança”, o público o perceberá como mais tolerante e menos inflexível. Por isso, não se deve declarar nenhuma crença particular como imutável, mas suscetível a mudança. Esta é uma das primeiras lições ensinadas por Alinsky: “Dogma é algo que pertence ao seu oponente, jamais a você”.

O lema central de Alinsky é o pragmatismo, e para ele as ações devem ser focadas em resultados. Ele afirma: “Eu espero que estas páginas contribuam para a educação dos radicais de hoje, e para a conversão de paixões quentes, emocionais e impulsivas atuais, que são impotentes e frustrantes, em ações que sejam calculadas, focadas e efetivas”. Ele cita o caso de centenas de advogados que foram protestar contra a prisão de quatro deles pelo juiz Hoffman. Ao redor do fórum se reuniram vários militantes, um grupo de estudantes radicais e Panteras Negras junto a uma multidão de advogados. Eis que surge o juiz Campbell, avisando que se a baderna não fosse interrompida, prisões começariam a ocorrer. Um dos manifestastantes gritou “Foda-se, Campbell”. Após um silêncio tenso, os manifestantes abandonaram o local. Vejam como Alinsky avalia o ocorrido, relatado por Jason Epstein em “The Great Conspiracy Trial”, de 1970:

Os advogados militantes jogaram por terra uma maravilhosa oportunidade de criar uma questão em nível nacional. Ali parecia haver duas escolhas, ambas capazes de criar pressão sobre o juiz e manter a questão sob discussão: um dos advogadores poderia ter caminhado junto ao juiz Campbell, após a voz solitária ter gritado “Foda-se, Campbell”, e afirmado que os advogados não davam apoio à obscenidades pessoais, mas mesmo assim eles não iriam abandonar o local; ou então que todos os advogados juntos começassem a gritar “Foda-se, Campbell”. Eles não fizeram nenhum dos dois; ao invés disso, deixaram a iniciativa passar deles para o juiz, e, em consequencia, não conseguiram nada.

Ele diz que os radicais devem ser “resilientes, adaptáveis a circunstâncias políticas móveis, e sensíveis o suficiente ao processo de ação e reação para evitar serem capturados por suas próprias táticas e forçados a caminhar por uma estrada que não escolheram”. Em resumo: “os radicais devem ter um controle sobre o fluxo de eventos”. Em nome disso, Alinsky defende uma “ciência da revolução”.

Preparando o seu leitor, ele avisa que “todas as sociedades desencorajam e penalizam idéias e escritos que ameaçam o status quo vigente”. Deve-se notar que “status quo vigente” pode ser descrito também como o status quo esquerdista, em todo Ocidente que hoje paga impostos absurdos, tolera a criminalidade e permite que alguns esquerdistas ainda consigam implantar ditaduras, como ocorre na Argentina e na Venezuela. Por isso, desafio ao status quo, como já afirmado antes, não é prioridade de esquerdistas, na verdade é o oposto: hoje em dia o status quo é esquerdista, portanto as regras de Alinsky hoje devem ser mais úteis a quem está na direita do que na esquerda.

Alisnky entende que, por causa da Guerra Fria, a luta entre esquerda X direita ficou conhecida como uma luta dos conservadores contra o marxismo. Segundo ele, isso criou a noção de que “a revolução dos que não tem induz um  medo paranóico” na população, mas o mesmo pode ser dito da noção de que “a revolução de direititas, como os do Tea Party atual, geram um medo paranóico” na esquerda. Diz ele: “Nós aceitamos uma revolução se é garantido que esteja do nosso lado, e mesmo quando percebemos que a revolução é inevitável”. Em tese, portanto, “revoluções são coisas a serem evitáveis” pela maioria. Em relação ao marxismo, ele afirma: “nós [os esquerdistas em geral] permitimos que uma situação suicida se desdobrasse quando o comunismo e revolução se tornaram um só”. Por isso, o autor defende que todas suas páginas são “comprometidas a dividir este átomo político, separando esta identificação exclusiva do comunismo com revolução”. Diante disso, afirma: “Esta é a razão principal pela qual eu forneço um manual revolucionário que não está sedimentado nos moldes comunistas ou capitalistas, mas como um manual para os que não tem do mundo, independente da cor de sua pele, ou sua preferência política. Meu objetivo aqui é sugerir como se organizar para obter poder: como obtê-lo e como utilizá-lo”. Em uma adaptação, devemos também seguir Alinsky no que diz respeito a algumas separações, evitando que o termo “revolução” fique apenas associado aos esquerdistas. Outro ponto, seguindo ainda a idéia de Alinsky, deveria ser “separar o anti-esquerdismo do conservadorismo do tipo cristão”,  o que significa que conservadores cristãos e conservadores ateus devem lutar pelo mesmo fim de atacar o esquerdismo, mas um não pode ser identificado como o outro. Se a associação com o marxismo, torna um esquerdista facilmente atacável, a associação direta com o cristianismo, faz o mesmo em relação a um conservador de direita. Note que isto não é ser contra o cristianismo, mas simplesmente evitar a associação, mostrando que o conservadorismo de direita pode existir com uma identidade particular, que transcende o cristianismo.

Eis uma parte importante:

A revolução sempre avançou como uma lança ideológica, assim como o status quo inscreveu sua ideologia sobre o estudo. Tudo na vida é partidário. Não há objetividade desapaixonada. A ideologia revolucionária não se limita a uma fórmula específica limitada. É uma série de princípios gerais, enraizados na declaração feita por Lincoln em 19 de maio de 1856: “Não vos enganeis. Revoluções não voltam atrás.”.

Mesmo que alguém da direita se incomode com Alinsky, não dá para deixar de reconhecer o realismo desta declaração. Sim, é fato que não existe objetividade desapaixonada, e que tudo na vida é partidário. Um exemplo pode ser a questão da causa gay. Muitos pais conservadores de direita se incomodam com o fato dos gayzistas tentarem impor sua bandeira aos seus filhos, impondo o casamento gay como algo normativo. Qualquer questão da vida humana é politizável, portanto neutralidade não existe. Sendo que revoluções podem ser feitas por ambos os lados (se o status quo é esquerdista, como atualmente, ser da direita é mais revolucionário do que ser de esquerda hoje em dia, ou seja, o jogo virou), o conhecimento dos princípios gerais de revoluções devem pertencer a ambos os lados da contenda.

A ideologia da mudança

Nessa seção, Alinsky continua ao mesmo tempo em que se declara absolutamente não-dogmático, afirmando que possui uma única convicção, a de que “as pessoas, se tiverem poder para agir, a longo prazo irão, na maior parte do tempo, tomar as decisões corretas”. Essa afirmação significa que alguém que diz lutar do lado do povo, crê que a decisão do povo é soberana, o que deve ficar como um puxão de orelha para muitos da direita. Ao renegar “a soberania do povo”, estão, ao mesmo tempo, dizendo que a opinião do povo não importa, e, então, saindo do jogo político. Ao contrário, Alinsky diz que “quando se acredita no povo, o radical assume a função de organizá-los de forma que eles tenham poder e oportunidade para melhor reagir a cada crise futura imprevisível assim como caminham em sua eterna busca por valores como igualdade, justiça, liberdade, paz, e todos aqueles direitos e valores propostos pelas tradições político-democrática e judaico-cristãs”. Ele diz que a “democracia não é um fim, mas um meio para se alcançar estes valores”. Conclui ele: “esse é o meu credo, pelo qual eu vivo e, se necessário, morrerei por ele”.

Eu seu pragmatismo, Alinsky diz algo bastante contundente (seja para alguém da direita ou da esquerda), ao dizer que o processo de mudança em política passaa por “reconhecer o mundo como ele é”. Citando Maquiavel, ele diz que deve-se observar o mundo da mesma maneira que todos os realistas políticos, nos termos do que “os homens fazem, e não do que deveriam fazer”. Alinsky diz que devemos nos livrar da rede de ilusões que temos sobre a vida. Segundo ele, “a maioria de nós visualizamos o mundo não como ele é, mas como gostaríamos que fosse”. Somente em programas da televisão, “onde o bem sempre vence”, isso é possível

Alinsky é perspicaz ao reconhecer que o mundo é uma “arena de política pelo poder movida principalmente por auto-interesses imediatamente percebidos, onde a moralidade é uma racionalização retórica para justificação de ações relacionadas a auto-interesse”. Sendo assim, “neste mundo, leis são escritas pelo alegado objetivo de ‘bem comum’ e então orquestradas de fato na base da ‘ganância’ comum”. Sobre este mundo, ele ainda afirma que “a irracionalidade se apega ao homem como uma sombra, de modo que coisas certas sejam feitas por razões erradas –  depois, arrumam-se razões certas para justificação”.  Não dá para negar que em uma abordagem realista do animal humano, Alinsky está correto neste caso. Ainda em sua análise crua, ele diz que este não é “um mundo de anjos, mas de ângulos”, onde “os homens falam de princípios morais, mas atuam em princípios de poder”, um lugar “onde nós sempre somos morais, e nossos inimigos sempre imorais”. Enfim, “um mundo onde ‘reconciliação’ significa que quando um lado obtem o poder e o outro lado aceita a situação, então nós temos reconciliação; um mundo de instituições religiosas que tem, como foco principal apoio e justificação do status quo de forma que hoje em dia a religião organizada está materialmente desfeita e espiritualmente corrupta”. Especificamente sobre a religião, ele afirma: “Nós vivemos em uma ética judaico-cristã que não só acomodou-se a si própria, como também justificou escravidão, guerra e todas outras perversas explorações horríveis que o status quo desejava”.

Eis, então, o ponto de partida de Alinsky:

Nós vivemos em um mundo onde “o bem” é um valor que depende do quanto nós queremos algo. No mundo como ele é, a solução de cada problema inevitavelmente cria um novo problema. No mundo como ele é, não há felicidade permanente ou tristeza sem fim. Tais coisas pertencem ao mundo da fantasia, o mundo como nós gostaríamos que fosse, o mundo dos contos de fadas das crianças onde “eles viveram felizes para sempre”. No mundo como ele é, temos um fluxo de eventos com picos intermitentes, sendo que a morte é o único ponto terminal. Alguém jamais alcançará o horizonte; mas sempre focará no futuro, sempre acenando à frente; enfim, a busca vital em si própria. Isto é o mundo como ele é. Este é seu ponto de partida.

Alinsky segue dizendo que, após o leitor reconhecer o mundo como ele é (ao invés de como gostaríamos que fosse), é possível esmagar falácia por falácia da visão antiga.  Como por exemplo, na derrubada da ilusão de que as coisas podem ser vistas separadas de suas contra-partidas. Assim, em sua visão, pode-se notar que “a ameaça de destruição a partir da energia nuclear traz em si própria a oportunidade de paz e prosperidade”,  e assim tudo funciona no universo. Segundo ele: “Nestas contradições e suas tensões que constantemente interagem é que a criatividade começa.  Assim que começamos a aceitar o conceito das contradições, passa a ser possível visualizar cada problema ou questão em seu sentido como um todo e inter-relacionado.” Assim, “reconhecemos que para cada positivo há um negativo, que não há nada positivo sem o seu negativo concomitante, nem qualquer paraíso político sem seu lado negativo”.

A mensagem que ele quer passar é ainda mais profunda, ao constatar que, em qualquer discussão ou análise de movimentos de massa, não se pode afirmar que se “X é feito, Y será resultante”. Uma visão modesta, assumida por Alinsky, é a de que podemos no máximo “esperar entender as probabilidades inerentes a certas ações”. Alinsky também quer precaver seu leitor de que com certeza aquilo que “beneficiará um lado, tende a prejudicar o outro”. Por isso, ele diz que definir os pontos como “positivos” e “negativos”, de forma dogmática, é a marca de um iletrado político. Há uma conseqüência ainda mais profunda deste raciocínio, que é notar que para cada ação revolucionária, há uma ação contra-revolucionária, e que, se aqueles que atuam no processo de mudança aceitarem este fato, “aprenderão a antecipar a inevitável contra-revolução”, e, daí, alterar o padrão histórico de uma revolução seguida por uma contra-revolução, isto é, abandonar um processo de mudança lento, definido por dois passos para a frente e um passo para trás.

Distinções de classe: a trindade

Não podemos esquecer as três classes de Alinsky para seu mapeamento de classes no conflito político, ao passo que, em uma visão de direita, aqui proposta, existem quatro.

A argumentação dele para arregimentar a classe dos que não tem nada contra os que tem muito é baseada em várias dicotomias que, com certeza, foram extremamente úteis para o convencimento dos adeptos. Segundo ele, os que tem muito querem se opor à projetos de mudança, pois viveriam rodeados de poder, dinheiro, segurança e luxo. Ele constata o óbvio ao dizer que estes estão em menor número, enquanto aqueles que tem muito são os de maior número. Eis então, as dicotomias: “Os que tem muito querem reter, e os que não tem querem obter. Termopoliticamente, estes são uma massa de resignação e fatalismo, mas dentro deles há uma crescente quantidade de esperança que pode ser ativada pela construção de meios para obtenção de poder”. Alinsky lança a seguinte constatação: “Uma vez que a febre se inicia a chama irá se seguir. Eles não tem para onde ir, a não ser para cima”.

Alinsky nota que os que não tem odeiam o que ele chama de “opulência arrogante” dos que tem, e isso significa tudo o que representaria, em sua visão, o status quo da burguesia. Assim, as leis, políticas e igrejas são representações desta burguesia. Para ele, termos como “justiça, moralidade, lei e ordem” são apenas palavras para a justificação do status quo. Em outra mensagem com ênfase no “levantamento da moral da tropa”, Alinsky diz que o poder dos que não tem reside apenas em seu número. Mais uma dicotomia com efeito potencial efeito psicológico é a seguinte: “Os que tem vivem encarando a questão ‘quando nós dormimos?’, enquanto os que não tem pensam o tempo todo em ‘quando nós comemos?”.

Ele diz que entre os que tem e os que não tem, estão os que tem um pouco e querem mais, o que é exatamente igual o termo pequeno-burguês do dialeto marxista. Estes seriam a classe média, que em sua visão são seres de personalidade dividida. Por exemplo, estes sempre buscariam a maneira segura de levar a vida, “onde eles podem lucrar com a mudança mas ainda assim sem riscos de perder o pouco que tem”. Por isso, Alinsky diz que os pequeno-burgueses são “enraizados na inércia”, entretanto, mesmo vivendo com interesses conflitantes e contradições, são uma fonte de criatividade. Daí ele constata que estas contradições, na classe média, geraram grandes líderes de mudança na história recente. Alinsky afirma que esta classe expressa comprometimento com mudanças sociais para “ideais de justiça, igualdade e oportunidade”, e daí “se abstém da luta e desencorajam todas as ações efetivas para mudança”. Ele reconhece a classe média pelo seguinte lema: “Eu concordo com seus fins, mas discordo de seus meios”. Chegando até a citar o conservador de direita Edmund Burke, Alinsky diz que a pequena burguesia é composta daqueles referidos pela famosa frase do autor: “A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada”.

Voltando aos que tem muito, Alinsky se ilude ao ilustrá-lo como aqueles que vivem em um estado no qual estão “anestesiados”, portanto, podem cometer erros na proteção de seu status quo, menosprezando o poder dos que não tem. Daí, para motivar aqueles que ele garante representar, afirma que “a grande lei da mudança prepara o anestesiamento da vítima antes da cirurgia social ocorrer”. Seja lá como for, independente do mapeamento das classes de Alinsky ser contestável, a proposta dele é reta: “são páginas para cooperar com a grande lei da mudança”.

Logicamente, ele também entende que sem palavras de motivação, nada funcionaria, portanto sua ação tem que ser baseada no otimismo, de forma a contagiar os outros. Assim, o ato de se imaginar um futuro belo, não significa que ele vai ser conquistado, mas sim que esta esperança dará uma motivação para a mudança. Exatamente por isso ele já alerta seu leitor: “Às vezes nós desanimamos, mas isso não significa que não estejamos fazendo progressos”. Esta é a mensagem que ele quer transmitir: “A busca da felicidade não tem fim, e a felicidade está nessa busca”.

Alinsky doura todo e qualquer escrito seu constatando que todas as revoluções são “geradas por valores espirituais e considerações sobre justiça, igualdade, paz e fraternidade”. Daí, ele conclui que a “maior revolução a ser ganha no futuro imediato é o desmantelamento da ilusão do homem de que o seu bem estar pode existir separado de todos os outros”. Feito isso, o ponto de partida dele é baseado em idealizar esta utopia, mesmo que ele tenha afirmado o contrário anteriormente. Ainda mais rancoroso, ele diz que o “desapego ao bem estar dos outros é imoral de acordo com os preceitos da civilização judaico-cristã, mas ainda pior, sendo uma estupidez digna dos animais mais baixos”.

Tentando racionalizar seus idéias, ele diz que a constatação de que cada um deve ser “o protetor de seu irmão” não deve surgir por causa da “boa natureza” humana, mas por auto-intereresse, pois: “Se ele não divide o seu pão, pode ter medo de dormir, já que seu vizinho irá matá-lo. Para alimentar e dormir em segurança o homem deve fazer a coisa certa, mesmo que pelas razões erradas, e, na prática se tornar o protetor de seu irmão”.

Por fim, Alinsky conclui seu capítulo sobre o propósito de sua iniciativa afirmando que esta é sua “base moral”, sempre profetizada em tom ameaçador, copiado do estilo marxista: “O homem precisa aprender que ou ele divide parte de seus bens pessoais ou perderá tudo; e que ele precisa respeitar e aprender a viver com outras ideologias políticas se ele quiser que a civilização avande”. Alguns pensariam: por que Alinsky usa este tom? Eis a resposta, com a qual ele conclui seu primeiro capítulo: “Este é o tipo de argumento que a experiência atual do homem o permite compreender e aceitar. Esta é a estrada vil para a moralidade. Não há outra”.



Categorias:Guerra política (ensaios)

Tags:, , , , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: