Um raio X das regras para radicais de Saul Alinksy – Pt. 2 – Dos meios e fins

O capítulo 2 (ver a parte anterior, “Pt1. – O Propósito”, de “Um Raio X das regras para radicais de Saul Alinsky”) de Regras para Radicais é o mais complicado, em termos morais, para ser assimilado por quem é de direita, pois nele Saul Alinsky simplesmente justifica a “moral esquerdista”. Esta pode ser resumida em “não há regras, desde que venham os resultados”. Para isso, ele delineou as seguintes regras morais relacionadas especificamente a meios e fins:

  1. A preocupação de alguém com a ética de meios e fins varia inversamente com o seu interesse particular na questão;
  2. O julgamento da ética de meios é dependente da posição política daqueles participando do julgamento;
  3. Na guerra, o fim justifica quase quaisquer meios;
  4. O julgamento deve ser feito no contexto da época na qual a ação ocorreu e não a partir de qualquer outro ponto de vista cronológico;
  5. A preocupação com a ética aumenta com o número de meios disponíveis e vice versa;
  6. Quanto menos importante o fim a ser desejado, mais alguém pode se preocupar em avaliar a ética dos meios;
  7. Geralmente o sucesso ou falha é um fator poderosamente determinante das éticas;
  8. A moralidade dos meios dependem do quanto os meios estejam sendo empregados em um momento de derrota iminente ou vitória iminente;
  9. Qualquer meio efetivo é automaticamente julgado pela oposição como sendo anti-éticos;
  10. Você deve fazer o que puder com o que tiver em mãos e adorná-lo com tons morais;
  11. Os objetivos devem ser verbalizados em termos gerais como “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, “Do bem estar comum”, “Busca da felicidade”, ou “Pão e paz”.

O que se nota é que quando Olavo de Carvalho denuncia a esquerda por seu raciocínio de que quaisquer meios justificam os fins, em uma extensão do maquiavelismo adotado por Gramsci , ele não está exagerando. Sim, é verdade que um dos maiores motivos de preocupação pela existência de uma hegemonia de esquerda é o fato de que temos no poder pessoas que entendem que tudo está a priori justificado, por causa do futuro maravilhoso prometido .

Mas eu entendo que devamos procurar olhar um pouco além e entender um pouco a mente de Alinsky e o que ele quis dizer com algumas de suas regras morais. De onde elas se originam? Quais suas motivações? Por que elas são tão facilmente justificáveis aos que a defendem? Segundo ele, o questionamento sobre meios e fins é equivocado, pois a questão “Os meios justificam os fins” é vazia de sentido. Melhor seria a questão: “Este fim particular justifica este meio particular?” Isto se adaptaria melhor ao mindset do que ele define como um homem de ação, que deveria pensar em termos estratégicos e pragmáticos. Desta forma

Ele não tem qualquer outro problema. Ele pensa de acordo com seus meios atuais e as possibilidades dentre várias escolhas de ação. Em relação aos fins, ele os questiona apenas no que diz respeito a eles serem alcançáveis e valerem a pena; em relação aos meios, no que diz respeito a se irão funcionar ou não. Ao dizer que os meios corrompem os fins estamos acreditando na concepção imaculada dos fins e princípios. A arena verdadeira é corrupta e sangrenta.

O que podemos entender é que, para o esquerdista, a lógica da inexistência de regras morais é muito fácil de ser assimilada, pois eles entendem que o mundo no qual estão é baseado nestas regras. Assim, para eles os burgueses são os responsáveis por todos os males, mesmo que mintam e simulem uma moralidade que não possuiriam. Por isso, o que ele defende é “faça ao oponente exatamente o que achou que ele faz com você”. Ele cita Goethe quando ele dizia que “consciência é uma virtude dos observadores e não dos agentes de ação”. Uma ação ao mesmo tempo consistente com sua consciência individual e o “bem da humanidade” é um luxo que não caberia aos agentes de mudança. Na dúvida, a escolha deveria ser pelo bem da humanidade, ao invés de sua própria consciência. Esta frase resume bem essa máxima: “Ação serve à salvação de massa e não à salvação pessoal do indivíduo”.

Essas racionalizações todas facilitam muito a internalização do conceito de, conforme apontado por Olavo, todas as ações estarem a priori justificadas. Alinsky contra-argumenta vários discursos de pessoas que questionam essa ética maquiavélica. Para ele, “estes estão comprometidos de forma apaixonada com uma objetividade mística onde as paixões são suspeitas”. Ele sentencia:

Eles assumem uma situação não-existente onde os homens planejam e definem meios de maneira desapaixonada e racional como se estivessem estudando uma carta de navegação em terra.

Nota-se que ele não possui muito respeito para com aqueles que discutem muito questões morais antes de agirem. Para ele, pode-se reconhecer estas pessoas por duas marcas verbais: “Nós concordamos com os fins, mas não com os meios”, ou “Este não é o momento”. Em cima destes mapeamentos, ele avalia que “os moralistas dos meios-e-fins ou omissos nunca conseguem seus fins, sem usar quaisquer meios”.

Assim como Marx criticava a “ética burguesa”, Alinsky diz que estes moralistas dos meios-e-fins que são obcecados com a “ética dos meios e fins utilizadas pelos que não tem contra os que tem” deveriam reavaliar qual sua real posição política. Para ele, quem fica muito apegado à ética de meios e fins, está do lado dos burgueses. Seu desprezo por estas pessoa é tamanho que ele chega a compará-los aqueles que poderiam ter usado muito mais meios no início da Segunda Guerra Mundial para barrar os nazistas mas não o fizeram, e, com isso, condenaram os judeus ao Holocausto . Isso o leva a mais uma racionalização que com certeza tem efeito poderoso: “Isto é o cumulo da imoralidade. O menos ético de todos os meios relaciona-se à não-utilização de quaisquer meios” .

Racionalizações sobre a ética do vale tudo alinskyana

A partir de agora, vejamos em maior detalhe algumas das racionalizações que Alinsky traz aos seus leitores para facilitar a digestão de uma ética na qual tudo é permitido e nada é vetado.

Em relação a regra um (“A preocupação de alguém com a ética de meios e fins varia inversamente com o seu interesse particular na questão”), ele afirma que quando não estamos diretamente preocupados com uma questão, nossas intenções morais se tornam abundantes. Ele cita Le Rochefoucauld: “todos nós temos força suficiente para suportar as desgraças dos outros”. Para esta regra, Alinsky define uma outra, paralela: “A preocupação de alguém com a ética de meios e fins varia inversamente com a distância dele em relação à cena do conflito”.

Para justificar a regra dois (“O julgamento da ética de meios é dependente da posição política daqueles participando do julgamento”), ele novamente relembra a questão da guerra contra os nazistas. Ele afirma que “os que se opuseram ativamente aos nazistas e se juntaram a Resistência, adotaram os meios do assassinato, terror, destruição de propriedades, bombeamento de túneis e trens, seqüestro e a disposição em sacrificar reféns inocentes para atender ao objetivo de derrotar os nazistas”. Os que se opunham aos conquistadores nazistas avaliavam a Resistência “como um exército secreto de idealistas patrióticos, dedicados, corajosos além das expectativas e dispostos a sacrificar suas vidas de acordo com suas convicções morais”. Para as autoridades da ocupação nazista, entretanto, “estas pessoas eram terroristas fora da lei, assassinos, sabotadores, que acreditavam que o fim justifica os meios, e agiam de forma completamente anti-ética de acordo com as regras místicas da guerra”. A glorificação da Resistência até hoje pelos vitoriosos na guerra provaria este ponto.
Alinsky afirma que a história é composta de “julgamentos morais” com base em política. Veja a afirmação abaixo:

Nós condenamos o fato de Lenin ter aceito dinheiro dos alemães em 1917 mas fomos discretamente silenciosos enquanto nosso Coronel William B. Thompson no mesmo ano contribuiu com um milhão de dólares para os anti-bolcheviques na Rússia. Como aliados dos soviéticos na Segunda Guerra Mundial, nós louvamos e comemoramos as táticas comunistas de guerrilha quando os russos as usaram contra os nazistas durante a invasão alemã da União Soviética; e nós denunciamos as mesmas táticas quando elas são utilizadas por forças comunistas em diferentes partes do mundo contra nós.

Nessa análise, ele conclui que “os meios da oposição, utilizados contra nós, são sempre imorais e nossos meios são sempre éticos e enraizados nos valores éticos mais elevados”.

Sobre a terceira regra (“Na guerra, os fins justificam quase quaisquer meios”), ele afirma que os acordos sobre as convenções de Genebra só são respeitados por medo de retaliação dos oponentes, e não por causa dos acordos em si. Ele cita o caso de Churchill quando este foi questionado por sua aliança com os russos na época da Segunda Guerra Mundial e se a achava constrangedora: “De maneira alguma. Eu tenho apenas um objetivo, a destruição de Hitler, e minha vida se torna muito simplificada deste modo. Se Hitler invadisse o inferno eu teria feito ao menos uma referência favorável ao demônio na Câmara dos Comuns”.

Alinsky ilustra a quarta regra (“O julgamento deve ser feito no contexto da época na qual a ação ocorreu e não a partir de qualquer outro ponto de vista cronológico”) trazendo uma citação de John C. Miller a respeito do caso do Massacre de Boston , que reproduzo também a seguir:

As atrocidades inglesas, por si só, não foram capazes de convencer a população de que havia ocorrido um crime na noite de 5 de março: havia uma confissão obtida no leito de morte de Patrick Carr, afirmando que os habitantes locais haviam sido os agressores e que os soldados atiraram em legítima defesa. Esta declaração indesejada de um dos mártires que estavam morrendo no odor da santidade com a qual Sam Adams os havia vestido lançou uma onda de alarme nas linhas patriotas. Mas Adams amaldiçoou o testemunho de Carr aos habitantes da Nova Inglaterra denunciando-o como um “papista” irlandês que provavelmente morreu em confissão da Igreja Católica Romana. Após Sam Adams ter demolido publicamente Patrick Carr nem mesmo os Tories ousavam citá-lo para provar que os bostonianos foram responsáveis pelo massacre.

Alinsky avalia este relato dizendo que “para os britânicos este foi um exemplo de mentiras e vilezas, pelo uso de táticas imorais e intolerantes, que seriam características dos revolucionários”. Para para os Filhos da Liberdade e os patriotas, a ação de Sam Adams foi uma “estratégia brilhante, digna de um salvador de vidas enviado por Deus”. Ele avalia que hoje em dia nós podemos avaliar as ações de Adams da mesma forma que os ingleses fizeram, mas lembra que hoje em dia não estamos envolvidos em uma revolução contra o império britânico. Por isso, Alinsky defende que os padrões éticos devem ser elásticos para esticarem-se com os tempos.

Na defesa da regra cinco (“A preocupação com a ética aumenta com o número de meios disponíveis e vice versa”), ele cita uma história pessoal na qual um simpatizante, do lado dele, tinha evidências que um dos executivos de uma corporação contra a qual lutavam era gay. Alinsky diz que declinou de usar isso, mas ao mesmo tempo declara:

Tão longe, tão nobre; mas, se eu estivesse convencido de que a única maneira pela qual eu poderia vencer fosse usar isso contra ele, então sem quaisquer reservas eu usaria. Qual seria minha alternativa? Afundar-me em indignação “moral” auto-indulgente dizendo: “Eu preferiria perder do que corromper meus princípios?”, e então ir para casa com meu hímem ético intacto? O fato de que 40,000 pobres iriam perder sua guerra contra a falta de esperança e desespero seria trágico demais.

Alinsky não dá uma justificativa para a sexta regra (“Quanto menos importante o fim a ser desejado, mais alguém pode se preocupar em avaliar a ética dos meios”), mas em relação a sétima (“Geralmente o sucesso ou falha é um fator poderosamente determinante das éticas”) ele nos relembra que o julgamento da história tem muito mais a ver com o sucesso das ações do que com os meios utilizados par alcançá-los. É por isso que, segundo ele, os pais fundadores são considerados heróis patriotas, e não meramente traidores. Se tivessem fracassado, a história os teria percebido de maneira diferente.

Já na oitava regra (“A moralidade dos meios depende do quanto os meios estejam sendo empregados em um momento de derrota iminente ou vitória iminente”), ele nos relembra que alguns meios considerados altamente imorais possuem um atenuante, em termos de julgamento público, caso tenham sido usados em circunstâncias desesperadas. Ele cita o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, que garantiu a vitória dos aliados. Até hoje existe um questionamento sobre a imoralidade dessa ação, já que o Japão estava prestes a se render. Alinsky diz que se a bomba fosse lançada imediatamente após o ataque a Pearl Harbor (quando a nação temia uma invasão da Costa Pacífica, a frota pacífica estava no fundo do mar e todas as forças americanas na Europa), então “o uso da bomba naquele momento seria alardeado universalmente como uma retribuição justa de fogo, granizo e enxofre”. Mais ainda, seria considerado “um triunfo sobre o mal”. Para ele, quem nega estes fatos (o de que o julgamento sobre o lançamento da bomba seria completamente diferente se os Estados Unidos estivessem em situação desesperadora), são “ou tolos, ou mentirosos, ou ambos”.

Quanto a regra nove (“Qualquer meio efetivo é automaticamente julgado pela oposição como sendo anti-éticos”), Alinsky traz a história de um dos maiores heróis revolucionários, Francis Marlon, da Carolina do Sul. Marlon ficou conhecido por suas táticas de guerrilha que inspiraram muitos dos guerrilheiros modernos. Cornwallis e o Exército Britânico tiveram suas operações e planos completamente desnorteados e desorganizados pelas táticas de Marlon. Furiosos com a efetividade de suas operações, e incapazes de lidar com elas, os britânicos o denunciaram como criminoso, dizendo que ele não atuou no combate “como um homem honrado, ou mesmo um cristão”. Essa denunciação contundente a respeito de sua falta de ética e moralidade ocorreu principalmente pelo uso de suas táticas de guerrilha como um meio de se vencer a Revolução.

Para a décima regra (“Você deve fazer o que puder com o que tiver em mãos e adorná-lo com tons morais”), ele diz que no campo de ação, a primeira questão determinante é se os meios (para um fim em particular) estão disponíveis. Para isso, é preciso avaliar as forças presentes e que possam ser utilizadas. Vejamos um pouco mais sobre essa avaliação:

Isso envolve passar por uma peneira os múltiplos fatores que se combinam na criação das circunstâncias em um dado período, e um ajustamento às visões da opinião pública e seu clima. Questões a respeito do quanto tempo é necessário ou está disponível devem ser consideradas. Quem, e quantos mais, irão apoiar a ação? A oposição possui poder a ponto de poder suspender ou mudar as leis? A extensão de seu controle do poder de polícia chega ao ponto onde a mudança legal e ordenada é impossível? Se as armas são necessárias, existem armas adequadas disponíveis? A disponibilidade dos meios influencia o quanto você atuará de forma clandestina ou pública, rápida ou vagarosamente; movido por mudanças extensivas ou ajustes limitados; ou mesmo se você irá realizar movimentos. A ausência de quaisquer meios poderá levar alguém ao martírio na esperança de que este fato seja um catalizador, iniciando uma cadeia de reações que culminariam em um movimento de massa. Aqui uma simples declaração ética pode ser usada como um meio para obtenção do poder.

Exemplos dessa regra estão naquilo que Alinsky percebe como a essência dos discursos de Lenin após seu retorno do exílio. Um resumo do pensamento de Lenin era: “Eles tem as armas e portanto nós precisamos declarar que lutaremos pela paz e por reformas através das eleições. Quando nós tivermos as armas, então iremos nos impor pela bala”. E foi exatamente isso que ocorreu.

O maior exemplo está na visão popular de Gandhi como uma ilustração do mais alto comportamento moral, no que diz respeito aos meios e fins. Para demolir a visão ingênua que muitos tem do apóstolo da não-violência, Alinsky traz registros históricos mostrando que Gandhi fez uma avaliação das forças e fraquezas do exército revolucionário ao seu lado, e registros em sua autobiografia mostram que ele se indignava com a ausência de retaliação em direção aos britânicos. Em resumo, Gandhi fez uma avaliação dos meios disponíveis, e descobriu que não apenas não dispunha de armas, como também não dispunha de pessoas motivadas a lutar. Gandhi disse em 1930: “Espiritualmente, o desarmamento compulsório tirou nossa virilidade, e a presença de um exército de ocupação estrangeiro, utilizado com efeito mortal para nos abalar no espírito de resistência, nos fez pensar que não podemos cuidar de nós mesmos ou estabelecer uma defesa contra agressoras estrangeiros, ou mesmo defender nossas casas e famílias”. Alinsky nota que estas palavras “mais que sugerem que se Gandhi tivesse as armas para a resistência violenta e as pessoas para utilizá-las, este meio não seria rejeitado com tantas reservas como o mundo gosta de pensar”. Só que, quando Nehru encarou uma disputa com o Paquistão sobre Kashmir, não hesitou em usar força bélica. Mas aí os arranjos do poder se alteraram, pois a Índia tinha armas e um exército treinado para utilizá-las.

Nehru Gandhi foi um exímio estrategista, pois, quando não tinha os meios à sua disposição, ele fez o que podia com a tentativa de rotular suas ações as mais morais possíveis, e, aí entrou seu discurso de não-violência. Tudo funcionou ainda melhor por que seus oponentes britânicos vinham de uma tradição moral em que pregavam ideais de “liberdade e tolerância”, logo, ele entrou em um território que poderia constrangê-los ao optar pela política de não violência. Obviamente, isso não funcionaria diante de um governo totalitário em sua ideologia como o de Hitler, por exemplo. De forma pragmática, Alinsky conclui a análise da estratégia de Gandhi, dizendo que “de um ponto de vista pragmático, a resistência passiva não era apenas possível, como o meio mais efetivo que podia ser selecionado para abortar o controle britânico sobre a Índia”.

Para Alinsky, apelos a “uma lei maior que a lei feita pelos homens” significam apenas manifestações dos poderosos para controlar a massa e manter o status quo. Não só a moral vigente, como as leis, seriam feitas para a manutenção do poder. Quando os que não tem possuem sucesso e se tornam pessoas que tem o poder, “eles estão na posição de tentar manter o que conseguiram e seu padrão de moralidade se modifica com esta mudança de posição no padrão de poder” . O caso de Gandhi, usando a moral da resistência passiva contra os britânicos, mas descarregando forte poder de fogo sobre os paquistaneses, é sintomático. Sam Adams, que lutou como revolucionário, teve que mentir manipulando os valores morais da população, mas, após o sucesso da Revolução americana, demandou a execução dos americanos que participaram da Rebelião de Shay, dizendo que ninguém tinha direito de participar de uma revolução contra os Estados Unidos.

É nesse ponto, com esse tipo de constatação realista e crua, que Alisnky começa a se distanciar de Maquiavel. Veja:

Racionalização moral é indispensável em todos os instantes da ação no que diz respeito a justificar a seleção ou o uso dos meios e fins. A cegueira de Maquiavel para a necessidade de uma roupagem moral para todas as ações e motivos – ele dizia que a política não tinha relação com a moral – foi sua maior fraqueza.

Ele nos relembra que todos os grandes líderes (Churchill, Gandhi, Lincoln e Jefferson) sempre invocaram “princípios morais” para cobrir a nudez de ações de auto-interesse com roupas como “liberdade”, “igualdade para a humanidade”, “uma lei acima das leis dos homens”, e daí por diante. Ele faz um adendo especial a essa regra, que explica muita coisa: “Todas ações efetivas requerem o passaporte da moralidade”.

Por fim, a décima primeira regra (“Os objetivos devem ser verbalizados em termos gerais como ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’, “Do bem estar comum”, ‘Busca da felicidade’, ou ‘Pão e paz’”), estende os padrões da regra anterior. Ele cita Whitman, que teria dito: “O objetivo uma vez nomeado, não pode ser revogado”.
Estas onze regras morais definidas por Alinsky devem ser o começo do jogo interno de todo aquele que for participar de ações de mudança, caso estas ações sejam de esquerda. Todos os valores mais “elevados” devem dar adorno a qualquer ação. Ele diz que “a democracia não é um fim; mas sim o melhor meio político disponível na conquista destes valores”. Ele retorna, ao final do capítulo, à sua asserção com que o abriu. A verdadeira questão, para Alinsky, jamais deveria ser “O fim justifica os meios?”, mas sim “Este fim particular justifica esse meio particular?”. Isso tudo torna toda a questão da ética de meios e fins elástica o suficiente para qualquer coisa que um esquerdista queira fazer.

Um calcanhar de Aquiles para a direita?

Acho muito difícil aplicar as onze regras morais para qualquer grupo político de direita, especialmente pelo fato de que a moral judaico-cristã, que define a busca da verdade, pode criar uma série de dissonâncias cognitivas nos adeptos. Em minha experiência neste blog, sempre que eu divulguei uma informação inconsistente, leitores conservadores me pediram para corrigir. (Se fosse um blog de esquerda, e existissem informações falsas contra os oponentes, me pediriam para prosseguir nas mentiras)

Logo, uma moral que diz “faça o que quiser” simplesmente não vai servir, e colocará os conservadores em um conflito interno tão grande que não conseguirão aproveitar nada. A questão que resta é: adotando o mindset conservador de direita, ainda é possível assimilar algo a respeito de todo o trabalho que Alinsky fez em sua elaboração destas 11 regras éticas? A resposta é sim!

Antes, vamos com cuidado. O que quero dizer é que a base destas regras sobre a ética não pode se sobrepor à uma ética pessoal que o direitista tenha. Entretanto, conscientizações devem ser feitas para que a sua ética não o torne um ingênuo perante os esquerdistas. Por exemplo, um fator que faz a diferença para os esquerdistas em debate contra os direitistas é que estes tem uma extrema habilidade em mentir. Como se nota nas regras de Alinsky, mentir não é um problema, pois é um meio para se obter um resultado (e, segundo ele, não obter um resultado é mais imoral que não obtê-lo). Mas se um oponente tem o direito de mentir, e você não, isso significa que o jogo está perdido para você? Não, pois é possível converter essa possível fraqueza (no jogo, e não uma fraqueza moral, que fique bem claro) em algo positivo.

O uso da mentira deliberada faz a diferença na guerra intelectual para a esquerda. Como vimos em Alinsky, que nada mais faz do que levar às últimas conseqüências aquilo que Marx, Lenin e Trostky já pregaram, se a informação é conveniente à classe, ela é divulgada, e até ampliada. Se não for, maquia-se a informação de forma a favorecer à classe. A mentira passa a ser uma estratégia que definirá os grandes representantes da ideologia. Os maiores mentirosos serão os líderes.

Segue uma listinha básica:

  • “A lei, a moral, a religião são preconceitos burgueses, atrás dos quais se ocultam outros tantos interesses burgueses.” (Marx)
  • “O comunismo, porém, abole as verdades eternas, abole a religião e a moral” (Marx)
  • “A moral, é a impotência colocada em ação” (Marx)
  • “Justo é o que favorece a Revolução e injusto é o que dificulta” (Lênin)
  • “Subordinamos nossa ética à tarefa da luta de classes” (Lenin).
  • “O melhor revolucionário é um jovem desprovido de toda moral” (Lênin)
  • “Lênin ensinou, como se sabe, que, para atingir o objetivo almejado, os bolchevistas podem, e às vezes devem, usar qualquer estratagema, como o silêncio e a dissimulação da verdade…” (Lênin).
  • “É necessário saber adaptar-se a tudo, a todos os sacrifícios e até, se necessário for, usar vários estratagemas, enganos, procedimentos ilegais, usar o silêncio, a dissimulação da verdade para penetrar nos sindicatos, permanecer neles, desenvolver neles a qualquer custo o embrião comunista.” (Lênin)
  • “Invocar em nossos dias as “verdades eternas” da moral significa tentar fazer retroceder o pensamento.” (Trotsky)
  • “Quem não quiser voltar a Moisés, Cristo ou Maomé, nem satisfazer-se com um ecletismo arlequinesco, deve reconhecer que a moral é um produto do desenvolvimento social; que ela não tem nada de imutável; que serve aos interesses da sociedade; que esses interesses são contraditórios; que, mais que qualquer outra forma ideológica, a moral tem um caráter de classes.” (Trotsky)
  • “Não existem, então, preceitos morais elementares elaborados pelo desenvolvimento da humanidade e indispensáveis à vida de qualquer coletividade? Existem, sem dúvida, mas sua eficácia é muito incerta e limitada. As normas “obrigatórias para todos” são tanto menos eficazes quanto mais áspera se torna a luta de classes. A guerra civil, forma culminante da luta de classes, suprime violentamente todos os laços morais entre as classes adversas.” (Trostky)
  • “As normas morais “obrigatórias para todos” adquirem, dentro da realidade, um conteúdo de classe, isto é, um conteúdo antagonístico. A norma moral é tanto mais categórica quanto menos é “obrigatória para todos”. A solidariedade dos operários, especialmente nas greves ou por detrás das barricadas, é infinitamente mais “categórica” que a solidariedade humana em geral.” (Trostsky)
  • “O fim (a democracia ou o socialismo) justifica, em certas circunstâncias, meios como a violência e o homicídio.” (Trotsky)
  • “Do ponto de vista das “verdades eternas” a revolução é, naturalmente, “imoral”. Mas isso significa apenas que a moral idealista é contra-revolucionária, isto é, encontra-se a serviço dos exploradores.” (Trotsky)
  • “O juízo moral está condicionado, como o juízo político, pelas necessidades internas da luta.” (Trotsky )

É aí que o pensador maquiavélico poderia objetar: de que forma combater um mentiroso senão mentindo ainda mais que ele? Poderia até ser, se não fosse o fato de que esse fator (o uso da mentira de forma deliberada) conspira contra a moral absoluta na qual muitos conservadores de direita acreditam. Se eu chegar para um conservador de direita e dizer ”Vamos armar uma mentira com esses dados e capitalizar?”, os leitores fugiriam. Logo, esse fator existe e é algo que conspiraria, a princípio, a favor dos esquerdistas. Eles tem uma ferramenta em mãos que podem usar à vontade, e nós, da direita, temos freios morais que nos impedem de usá-la. Sendo assim, na perspectiva maquiavélica, perdemos o jogo? É aí que não, e é aí que o jogo deve ser revertido a nosso favor, e justamente por um princípio básico: quem mente mais, tem mais sujeiras a serem descobertas. É o mesmo princípio que explica que a pessoa honesta tem muito menos a temer que o desonesto.

Essa é uma das motivações (mas não a única) para o desenvolvimento do meu framework de ceticismo político, de forma que, a partir do momento em que um esquerdista abrir a boca, começa uma investigação. A partir do momento em que se inicia um debate com um esquerdista, deve-se estar preparado para que ele minta o quanto conseguir (pois, de acordo com a lógica de Alinsky, este é o seu meio disponível), e, caso estas mentiras surjam, desmascare todas as mentiras, sem deixar de expor claramente à platéia que o oponente se trata de um mentiroso. Sendo a mentira a principal iniciativa dos esquerdistas, mas não dos direitistas , a única contra-medida aceitável de um direitista deve ao mesmo tempo estar alinhada com os princípios desse direitista e também neutralizar a ação da esquerda. Uma mentira só pode ser neutralizada com uma refutação, e a conseqüente exposição deste mentiroso.

Senão, de que forma descobrimos os picaretas dentro das organizações senão através da função de Auditoria? E a função da Auditoria é feita dentro de parâmetros totalmente alinhados com a Direção da Organização, e ela é basicamente honesta. Uma das principais características de um bom auditor é a honestidade. Por isso, da mesma forma, não vamos nos rebaixar ao nível do oponente e usar a ferramenta de mentira deliberada que eles usam. A sugestão é, ao contrário, aumentar o foco no ceticismo e na auditoria das alegações deles. E, para isso, a atitude honesta deve ser um valor que não pode ser negado de forma alguma.

A substituição da tática da mentira praticada pelos esquerdistas pelo uso da refutação constante e ridicularização do mentiroso do outro lado é um exemplo de que, com uma adaptação aqui e ali, podemos aprender bastante com as regras de Saul Alinsky. Aliás, podemos, mais do que vê-las como regras, assumi-las como constatações de como o ser humano é, e então aumentar ainda mais o grau de preparação de conservadores de direita para a guerra política.

Por exemplo, se há uma regra que define o uso de metas associadas a valores “elevados” por esquerdistas, mesmo que isso esconda iniciativas torpes, somente a desmoralização pública desta falsa rotulagem poderá neutralizar a iniciativa esquerdista. E, se Alinsky diz que a rotulagem pode ser mentirosa no caso do esquerdista, faça então a rotulagem correta, divulgue isso ao público e deixe claro que o esquerdista mentiu na rotulagem.

A única coisa que eu poderia definir como intolerável, a partir desse conhecimento que você tem agora, é adotar uma postura de ingenuidade em relação até onde os esquerdistas podem ir. Independentemente de eu colocar aqui uma recomendação de restrição na aplicação nas regras de Alinsky (se para ele vale tudo, eu defendo que não se chegue a este ponto se você for de direita), não deixe que isso se transforme em ingenuidade. Ao contrário, transforme aquilo que poderia ser convertido em ingenuidade a seu favor, para aumentar o aspecto moral de suas refutações às mentiras do oponente.



Categorias:Guerra política (ensaios)

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3 respostas

  1. E eu achando que o que a LGBT e seu “líder”, Jean Wyllys, fazia era falta de “investigação dos fatos”…
    Depois dessa parte da série, deu pra ver que são nada menos que estratégias pilantras.
    Ótima série. Estratégias mastigadinha.

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  2. Luciano, obrigado por ter me recomendado este texto.

    Eu presumo que você dê muito valor a verdade e por essa razão tenha deixado de ser esquerdista, assim como eu. A direita em geral dá muito valor a verdade e, como você apontou, é difícil convencer um conservador a lutar uma guerra política usando os meios imorais que a esquerda usa. Para convencê-los a usá-los talvez seja necessária uma adaptação.

    O jurista Hans Kelsen diz que as pessoas sentem a necessidade de justificar os seus atos como sendo algo bom. Os esquerdistas não tem muitas dificuldades para fazer isso, afinal justificam qualquer atrocidade com suas utopias. Mas para os conservadores é bem mais complicado e você sabe. Os conservadores só serão convencidos a lutar da forma que você propõe se entenderem que isso é justificado por um princípio que torna a ação boa.

    Talvez a iminente vitória da esquerda (regra 8) torne os conservadores mais abertos às estratégias apresentadas por você neste blog. Eu, por exemplo, já estou convencido da necessidade usar as armas políticas da esquerda. Estou quase tomando a decisão de me dedicar ao estudo do assunto.

    Em algum dos seus artigos você fez uma lista de livros introdutórios sobre o tema ou algo parecido?

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    • Olá Henrique, não há de que.

      Olha, gostei de sua sugestão. Farei uma seção de livros para consulta de acordo com os paradigmas que defendo neste blog. Algo como uma seção específica, com categorias, incluindo obras de Horowitz, Bernays, Coulter, Milgram, Lewin, Zimbardo e outros.

      Enfim, vou compartilhar meu material de leitura em uma seção para isso.

      Fim de semana, estará pronto.

      Abs,

      LH

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