Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 9 – Muito à frente

Alinsky conclui seu livro falando da importância da classe média americana, que, segundo ele “é onde está o poder”, pois “mais de 3/4 da população americana estão na classe média, tanto do ponto de vista econômico como de sua auto-identificação”. Estes seriam a “maioria silenciosa”, carentes de ação[1].

Para ele, essa constatação deveria mudar um pouco o panorama da militância de esquerda, pois estes geralmente olham a classe média com desdém[2]: “com raras exceções, nossos ativistas e radicais são produtos da classe média ou rebeldes em relação a ela”. Mas “a pragmática do poder não vê outra alternativa” que não uma aliança com a classe média, na visão de Alinsky.

Nos anos 60-70, a classe média era estigmatizada pela esquerda como “materialista, decadente, pequeno-burguesa, degenerada, imperialista, defensora da guerra, brutalizada e corrupta”, em suma, eles “rejeitaram todos os valores e o estilo de vida da classe média”. Se o ativista mudar seu paradigma, ele “vai olhar de uma maneira muito diferente para seus pais, seus amigos, e a forma como eles vivem”. A dica de Alinsky é a seguinte: “Ao invés de rejeição hostil, ele deve procurar pontes de comunicação e unidade sobre essas lacunas, conflitos de geração, valores diferentes e outros”. A observação sobre o comportamento da classe média deve atender a uma “sensibilidade” que atende à estratégia de “partes da classe média ao ativismo”.

A classe média reluta em aderir ao ativismo, pois são pessoas que “lutaram todas suas vidas pelo que possuem”, possuindo medo de perder o que já conseguiram, especialmente a classe média baixa. Em muitos casos, os da classe média baixa “nunca foram além do colegial”. Diz Alinsky: “Suas vidas tem sido 90% composta de sonhos não-preenchidos. Para escapar de suas frustrações eles se agarram a uma última esperança de que seus filhos obtenham formação universitária e realizem aqueles sonhos não preenchidos”. Vivem com medo de depender da assistência social, ou de perderem seus empregos, além de duelarem com hipotecas horripilantes. Segundo Alinsky, “os prazeres da classe média são simples: praticar jardinagem em um quintal minúsculo de uma casa pequena, com bangalôs ou outras coisas bregas, nos subúrbios, viajar pelo país de vez em quando, e jantar fora uma vez por semana no Howard Johnson”.

“Eles olham para os pobres desempregados como dependentes parasitas, que recebem uma grande variedade de programas públicos, todos pagos por eles”. Quando os pobres demandam ações sociais e chamam isso de “direitos”, a classe média baixa entende como uma ofensa.

A classe média mais alta, na visão de Alinsky, tende a assumir um viés esquerdista, e daí adotam uma posição “mais pura do que os outros”, e atacam a suposta “intolerância” da classe média baixa. Ou seja, além de terem que bancar os desempregados, a classe média baixa ainda é ofendida pela classe média alta.

A maioria dos membros da classe média baixa são “membros de sindicatos, igrejas, clubes de boliche, e organizações diversas”. “Ao rejeitá-los, significa perder a luta por default. Não é possível mudar os canais e se livrar deles. Isto é o que você espera que ocorra em seu sonho de radical, mas eles estão aqui e permanecerão por aqui, no mundo real”.

Estas pessoas, que estão “machucadas, amarguradas, desconfiadas e rejeitadas” devem ser contatadas com respeito e compreensão. Eis o plano de Alinsky: “O trabalho [do organizador] deve ser procurar os líderes dessas comunidades de classe média, identificar suas questões principais, encontrar áreas de interesse comum, e exercitar a imaginação deles com táticas que podem introduzir drama e aventura na vida tediosa  que possuem”. Como sempre, as táticas “devem partir da experiência da classe média, aceitando a aversão deles à rudeza, vulgaridade e conflito”.

Em resumo, o lado que usar melhor a classe média a seu favor, vence.


[1] O que a esquerda não esperava é que, em 2010, um movimento surgido da classe média americana, o Tea Party, foi o maior movimento da direita em muito tempo. Pela primeira vez na história recente, a direita começou a agir um pouco inspirada no que a esquerda começou a fazer antes.

[2] O que também é previsível, para estudiosos da militância esquerdista. Para os marxistas, estes são os “pequeno-burgueses”.



Categorias:Guerra política (ensaios)

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2 respostas

  1. É EXATAMENTE O DISCURSO DA MARILENA CHAUÍ
    “Eu odeio a classe média. A classe média é o atraso de vida. A classe média é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante”.http://youtu.be/AN9AFyhSjN0

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  1. Eu, Apolítico – Os canalhas da esquerda contra o novo MEC: ué, masficar dividindo o conhecimento em “caixinhas” não era errado? | Apoliticamente Incorreto

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