Técnica de propaganda: Desumanização

iraqk2

Última atualização: 29 de janeiro de 2013 – [Índice de Propaganda][Página Principal]

Embora os termos sejam parecidos, desumanização é uma outra coisa, e demonização é outra, embora muitas vezes a primeira venha como sequência da segunda.

Nesta técnica, o propagandista define um grupo de pessoas em particular como sendo menos que humanos, e portanto não merecedores dos mesmos direitos humanos que os demais cidadãos. Se você pensou no que os nazistas fizeram em relação aos judeus, e os marxistas fizeram em relação aos burgueses e adversários políticos, em ações que antecederam quase uma meia dúzia de genocídios, acertou!

Claro que não se pode fazer desumanização de um grupo de uma hora para outra. É preciso de um “timing” adequado, antecedido por todas as técnicas possíveis de propaganda para demonizar um grupo, catalogá-lo como bode expiatório dos males sociais e daí por diante. Quando tudo isso é utilizado com técnicas para geração de raiva contra este grupo, temos uma panela de pressão prestes à estourar quando surgir o momento propício.

O resultado de campanhas de desumanização é a criação de um senso de indiferença em relação ao que for feito contra este grupo. Por isso, o propagandista não precisa declarar publicamente para que se pratique atos violentos contra o grupo alvo, mas basicamente arquitetar suas opiniões e descrições de eventos para demonstrar que a visão correta envolve a aceitação passiva de atrocidades cometidas contra o outro grupo.

Um exemplo pode ser visto na mídia, quando esta faz vista grossa aos milhares de cristãos mortos ao redor do mundo, mas amplifica a criticidade dos crimes cometidos contra gays, por exemplo. Esta é a aplicação sutil da técnica de desumanização dos cristãos, pois está sendo sub-comunicada a mensagem dizendo: “os cristãos não são importantes, não merecem a mesma comiseração, nem mesmo qualquer ato de indignação perante atrocidades cometidas contra eles”.

Uma outra forma de aplicação da técnica pode ser explícita, de maneira nada sutil, algo como um teste de limite. Sam Harris faz isso no livro “A Morte da Fé” em direção aos islâmicos. Observe: “Os meios para essa imposição são, necessariamente, brutais: isolamento econômico, intervenção militar (seja aberta ou encoberta) ou uma combinação das duas. Ainda que isso pareça uma doutrina extremamente arrogante a ser defendida, ao que parece não temos alternativas. Não podemos ficar esperando até que armas de destruição em massa escapem da ex-União Soviética – para citar apenas uma das horríveis possibilidades – para cair nas mãos de fanáticos.”

Se seus leitores propagarem isso como “normal”, a propaganda de desumanização terá surtido efeito, pois, para uma parcela considerável do público, foi criada a noção de que um grupo é “menos humano”, e que merece menos direitos do que os outros. A partir daí, todos os atos estão apriorisiticamente justificados contra este grupo.

Alguns pontos chave das campanhas de desumanização se baseiam na criação de um senso de diferença entre dois grupos, e estas diferenças são normalmente exageradas através da técnica do falso dilema.

Segundo Magedah E. Shabo em “Techniques of Propaganda”: “Uma vez que as diferenças imaginárias tenham sido estabelecidas, é surpreendentemente fácil desumanizar as pessoas. É uma técnica simples que transforma o senso de alteridade em uma completa indiferença pelo bem estar do outro grupo. Não obstante, podemos ver as mesmas táticas sendo utilizadas para justificar atrocidades contra um grupo através da história”.

Quando nações estão em guerra, o uso desta técnica deve ser sutil, pois a população da própria nação fazendo a propaganda pode reagir negativamente. Suponha que 20 soldados de seu país morram em guerra, mas 2.000 civis do outro sejam mortos de forma cruel. Caso a campanha de desumanização não tenha sido efetiva, a população do país agressor dos civis poderá se voltar contra a guerra. Este é um dos principais objetivos da desumanização: legitimar quaisquer atrocidades que forem cometidas contra o grupo oponente.

Termos como “primitivos”, “não inteligentes”, “bárbaros”, “não civilizados”, quando aplicados ao outro grupo, são elementos desta técnica.



Categorias:Propaganda

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3 respostas

  1. Luciano, veja o que a irmã da BAETA disse:

    Abç

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  2. Outra técnica a ser desnudada: a afirmação de que estão trazendo de volta algo de um passado supostamente bom. Hitler dizia que de alguma forma estava ressuscitando o Império Romano, enquanto Marx dizia que seu socialismo supostamente seria o resgate do socialismo primitivo supostamente praticado por sociedades tribais, enquanto Pol Pot falava que estava ressuscitando o Império Khmer. Também se pode falar das feministas dizendo que estão lutando para ressuscitar o matriarcado primitivo que supostamente seria a fonte de toda a paz do mundo. Isso obviamente se articula com o “bom selvagem” de Rousseau.
    Obviamente que é uma técnica que convenientemente despreza as estatísticas ruins daquilo que dizem querer ressuscitar, mas nunca que irão falar das mesmas e, se alguém falar, terão reações histéricas. Também tem uma certa contradição com a tônica revolucionária de pintar o passado com as piores cores possíveis (ainda que coerente com o duplipensar de quem acredita estar criando uma nova sociedade). Obviamente que articula-se com a desumanização se pensarmos que poderá acusar os bodes expiatórios de cada um dos exemplos citados como responsáveis pelo fim daquele passado supostamente bom.

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  3. Além de “primitivos”, “não inteligentes”, “bárbaros” e “não civilizados” não esqueça de “fundamentalistas”, Ayan. Esse termo foi ressignificado para “fanático, irracional, energúmeno e sacripanta”.

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