Guerra Política 2014 – 14 – Medo e esperança

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Eduardo Guimarães, um dos membros da BLOSTA, mostrou sua incompetência (ou má fé?) ao dizer que “já usaram tudo contra Dilma e ela não cai”. Nada poderia estar mais distante da verdade. Primeiro por que não podemos ainda avaliar que Dilma está “crescendo” enquanto não saírem os resultados das pesquisas após o surgimento do escândalo do Petrolão. Essas pesquisas serão divulgadas amanhã, 10/9 (Datafolha), e depois, 11/9 (IBOPE). Segundo, por que é Dilma quem está esgotando seu arsenal (e em termos políticos faz o esperado), enquanto seus opositores ainda estão cochilando.

Um exemplo disso é o uso da técnica do medo, que faz parte dos princípios 4 e 5 da arte da guerra política, de David Horowitz: (4) posição é definida por medo e esperança, (5) as armas da política são símbolos que evocam medo e esperança. Na corrida presidencial deste ano, apenas o PT tem usado o recurso de apelar ao medo (até por que o apelo à esperança todos já fazem).

Vamos ver um exemplo disso agora mesmo.

***

O blog do Fernando Rodrigues nos lembra que hoje, 09/09, o PT fez um “ataque frontal pesado contra Marina Silva” no horário eleitoral na TV, ao acusá-la de propor que os bancos assumam “um poder que é do presidente e do Congresso, eleitos pelo povo”.

Leia mais:

A peça de 30 segundos produzida pelo marqueteiro João Santana, e que começa a ser veiculada hoje (9.set.2014) nos intervalos comerciais, mostra uma história simples. Primeiro, aparecem banqueiros felizes numa reunião. Em seguida, surge uma família na hora da refeição. Enquanto um locutor vai dizendo que o poder dos bancos aumentará por causa da proposta de Marina Silva de dar autonomia ao Banco Central, a comida vai sumindo dos pratos e as pessoas ficam com expressões tristes, de desolação.

O locutor do comercial de Dilma diz que a autonomia do Banco Central “significaria entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre sua vida e de sua família… Os juros que você paga… Seu emprego, preços e até salário”. E conclui com uma pergunta: “Você quer dar a eles esse poder?”

Esse comercial faz parte da estratégia de desconstruir a imagem de Marina Silva. Na semana passada, o marqueteiro João Santana já havia produzido uma peça publicitária na qual comparava a candidata do PSB com Jânio Quadros e Fernando Collor, presidentes brasileiros que tiveram pouco apoio no Congresso –situação que supostamente será enfrentada por Marina, caso ela seja eleita.

Agora, começou a fase de tentar atacar propostas objetivas apresentadas por Marina em seu programa de governo –como é o caso da autonomia do Banco Central.

É claro que se trata de uma simplificação com apenas 30 segundos de duração. Mas os comerciais com essa duração não pretendem explicar um tema complexo. O objetivo é apenas plantar dúvidas nas cabeças dos eleitores –e assim subtrair votos do candidato adversário.

Essa tática não tem nenhuma novidade e é usada em eleições em vários países. No Brasil, tem sido comum esse tipo de comercial. Às vezes, surte o efeito desejado, como em maio deste ano (2014), com o comercial com o discurso do medo que ajudou Dilma Rousseff a se manter firme acima dos 30% das intenções de voto.

Rodrigues também fez o ótimo trabalho de transcrever a íntegra do roteiro do comercial:

[cenário: homens de terno e gravata discutem em torno de uma mesa, evocando um ambiente do mercado financeiro]

Locutor: “Marina tem dito que, se eleita, vai fazer a autonomia do Banco Central. Parece algo distante da vida da gente, né? Parece, mas não é…”

[música incidental de tom grave, quase fúnebre]

[corte para uma cena de uma família em torno de uma mesa, fazendo uma refeição]

Locutor: “…Isso significaria entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre sua vida e de sua família…

[neste momento, uma das pessoas da família, possivelmente o pai, recebe o prato de comida, mas o alimento desaparece]

Locutor: “…Os juros que você paga… Seu emprego, preços e até salário…”

[câmera foca os outros integrantes da família, que começaram felizes e sorridentes, mas agora mudam seus semblantes, que ficam carregados e tristes].

[tela faz corte abrupto para a cena inicial, dos banqueiros, agora todos muito mais sorridentes]

Locutor: “Ou seja, os bancos assumem um poder que é do presidente e do Congresso, eleitos pelo povo. Você quer dar a eles esse poder?”

[câmera volta para a família que estava comendo, agora sem nada mais à mesa, e todos com aparência desolada]

Ah, claro, veja o vídeo:

Como avaliação em termos de guerra política e sob os princípios da honestidade intelectual, o que eu posso fazer? Dar nota 10, evidentemente.

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Aliás, o vídeo não usa apenas o apelo ao medo, como também fala ao coração. A proeza é transformar um tema espinhoso como “autonomia do Banco Central” em algo que cala no coração da maioria da população que assiste o vídeo. Não adianta usar linguagem empolada, pois o cidadão quer saber no que algo vai afetar a vida dele.

***

É por isso que eu digo que a direita reclama de barriga cheia das vitórias do PT. Mas a única coisa que o partido faz é sua obrigação em termos de entrar na guerra política. O apelo ao medo é apenas parte dessas regras. É algo tão óbvio no contexto da guerra política quanto saber que botar a mão na bola, no jogo de futebol, constitui falta e, em excesso de reincidência, em um cartão amarelo, ou vermelho (dependendo da jogada).

***

Tenho certeza que muitos opositores do PT ficarão irritados ao assistir esse vídeo. Não vejo motivos. Deviam ficar irritados é com os seus candidatos por não usarem o mesmo recurso.

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Imagine o que poderia ser feito, por exemplo, transcrevendo coisas como decreto soviético, censura de mídia, petrolão e outros pontos de forma que tudo isso fosse traduzido para causar sensações de medo no espectador. Ou no leitor (no caso de falarmos da mídia escrita).

***

A Marina, coitada, nem tem tempo de televisão suficiente para investir em recursos assim. Mas Aécio possui tempo suficiente para criar inserções desse tipo. Essa do PT não durou mais que 30 segundos. Quando você viu algo do tipo no programa de Aécio? Provavelmente nunca. Depois algumas pessoas acham que o problema da liderança de Dilma está “no equívoco do povo”, e não no equívoco dos marqueteiros da oposição.

***

Regra de ouro: usar o recurso do medo em doses econômicas, e contrabalançá-lo com esperança. Porém, no caso da guerra virtual, o recurso pode ser usado sem moderação.

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Em suma, o PT deu um brilhante exemplo de como se usa o medo na campanha política. Para o pessoal que ainda está dormindo, que sirva de lição. Caso contrário, não reclamem do “povo que escolheu errado” depois…



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8 respostas

  1. Caso contrário, não reclamem do “povo que escolheu errado” depois…

    ÊLelê… Os judeus continuam sendo culpados pelo holocausto…

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  2. Ayan, se você fosse um dos marqueteiros de Marina e tivesse que fazer uma peça publicitária para responder a essa, você colocaria nessa peça o fato dos bancos terem lucrado no governo Dilma?

    http://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/blogs/143552-lucro-dos-bancos-cresceu-mais-de-30-o-governo-das-elites.html#.VA-laqN-TDs

    Outra dúvida.O Apelo ao medo é uma falácia (se eu estiver errado me corrija) e você até parabenizou esta propaganda.A minha dúvida é se em guerra política falácias podem ser toleradas e usadas ou devemos acusar o adversário de está usando esse método?

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  3. E como não dão ponto sem nó, ainda estimulam o conflito racial de forma subliminar.

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  4. Da turma que quer um “mundo melhor”:

    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/09/140908_atentado_chile_mc_lgb.shtml

    Curioso é a “analista” política falar que o atentado pode ter sido obra da direita, enquanto o outro analista diz que provavelmente isso foi obra de anarquista (e usa como argumento que atentados anteriores foram praticados por anarquistas).

    Acredito que essa Lagos esteja confundido com o pessoal da extrema-esquerda, que quando não têm suas reinvidicações aceitas começam a quebrar lojas, incendiar carros, tacar bomba e rojão, invadir fazendas etc.

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  5. Do Blog do economista mansueto.
    http://mansueto.wordpress.com/page/2/

    Quarto, meus amigos do PT detestam o Banco Central e sua “política conservadora” de aumentar a taxa de juros. Eles querem um Banco Central que não possa aumentar a taxa de juros.
    Quando alguém lembra a eles que quem fixa a meta de inflação é o Conselho Monetário Nacional, formado por três ministros de Estado e não o Banco Central, eles continuam falando mal do Banco Central. Esses meus amigos não se preocupam com a inflação de 6% ao ano e ainda acreditam no milagre da auto correção da inflação.
    A narrativa é mais ou menos assim: preços crescem, oferta acompanha os preços e, em um segundo momento, inflação passa a ser menor. Se você falar que isso está errado será chamando de neoliberal idiota.

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